Amigos de Frei Henri recordam sua trajetória na luta em defesa dos camponeses

Amigos de Frei Henri recordam sua trajetória na luta em defesa dos camponeses

Memória

Falecido no domingo (26),  advogado e religioso representou vítimas de violência agrária por 35 anos no sul do Pará

Júlia Dolce |
Frei Henri foi um dos principais nomes do combate ao trabalho escravo no Brasil
Reprodução

É diante de um dos períodos de maior violência agrária no Brasil, que o país perdeu um de seus maiores lutadores pelo direito dos camponeses: Frei Henri Burin des Roziers. Falecido no último domingo (26), aos 87 anos, o advogado e religioso parisiense atuou na Comissão Pastoral da Terra (CPT), na região de Xinguara (PA), por mais de 30 anos, representando familiares e vítimas de conflitos agrários e do trabalho escravo.

Com um aumento de 53% no número de conflitos agrários no último ano, de acordo com dados da CPT, os amigos lamentam a perda de Frei Henri e destaca que o legado dele continua atual e necessário.

Frei Xavier Plassat, agente da CPT na região do Araguaia, que se tornou um dos discípulos da luta de Henri, expressou sua indignação por medidas que estão sendo tomadas pelo governo golpista de Michel Temer (PMDB), como a Portaria do Ministério do Trabalho que tentou reduzir os conceitos de trabalho escravo contemporâneo.

“Henri, até a última hora e dia do seu falecimento, acompanhou detalhadamente toda essa evolução. Eu ligava para ele periodicamente, e ele estava absolutamente transtornado com esse desmonte, porque, em particular na questão de política de trabalho escravo, ele foi um dos principais artesão dessa construção”, disse.

Entre as maiores conquistas de Henri estão justamente as mudanças legislativas no artigo 149 do Código Penal Brasileiro, que expandiu a definição do trabalho escravo contemporâneo, assim como a construção da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que prevê a perda da propriedade diante de utilização de mão de obra escrava.

De acordo com Luzia Canuto, dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em Rio Maria (PA), cidade onde Henri viveu por muitos anos, a luta dos trabalhadores rurais na região ficará mais difícil com o falecimento do amigo.

“Para nós é uma perda muito grande, porque sabíamos o compromisso assumido por ele de uma forma singular. Aqui no sul do Pará, lamentavelmente, a pistolagem continua, é uma prática que não mudou. A gente percebe que a criminalidade aumentou, principalmente nessa questão agrária. Parece que os fazendeiros estão encorajados a voltar a matar trabalhadores e suas lideranças”, afirmou.

Luzia é filha de João Canuto, trabalhador rural e sindicalista assassinado a mando de ruralistas da região de Rio Maria, em 1985. A dirigente também teve dois irmãos vítimas de conflitos agrários e conta que Frei Henri foi um dos responsáveis pelo processo jurídico de seus familiares.

“Ele não chegou a conhecer meu pai, mas atuou no processo da morte dele e de meus irmãos. Todas as vezes que precisavam dele na defesa dos trabalhadores, ele assumia esses compromissos, ia nos acampamentos, estudava os processos, e tinha um lado definido, defendia os trabalhadores rurais. As vítimas contavam com ele sem que ele recebesse nada por isso. A gente se sente comovido em saber que o perdemos”, contou.

Por conta de seu trabalho na região do Araguaia, considerada uma das mais violentas do país, Henri chegou a ser ameaçado de morte inúmeras vezes e foi escoltado por policiais 24 horas por dia, devido às informações que chegaram à Polícia Militar, em 2007, de que pistoleiros haviam sido contratados por R$50 mil para assassiná-lo.

Em um artigo publicado em seu blog, o jornalista e também companheiro de Henri na luta contra o trabalho escravo, Leonardo Sakamoto, destacou que a morte por causas naturais do Frei, que sofria com consequências de acidentes vasculares cerebrais e com uma miopatia congênita, é uma “derrota humilhante” para os latifundiários que queriam sua morte. 

De acordo com o padre Ricardo Rezende, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e também pesquisador de trabalho escravo contemporâneo, a persistência de Henri incentivou a formação de diversos advogados focados na defesa dos trabalhadores rurais na região.

“Naquela região onde trabalhávamos, tivemos, de 1980 a 1986, 200 pessoas assassinadas, 95 lutando contra o trabalho escravo, 105 por conflitos da terra. Ele morreu entre os seus irmãos dominicanos em um convento, amparado, cuidado. Ele foi muito firme e sabia certamente que as coisas dependeriam de muita teimosia, muita persistência. Foi vitorioso em muitos aspectos, conseguiu obter diversos sucessos em muitos anos. Ele coordenou uma equipe que trouxe essa grande novidade para o estado do Pará, onde até então não havia tido nenhuma investigação séria ou ação de punição dos trabalhadores assassinados”, explicou.

Para Rezende, entre os principais legados da trajetória de Henri está a esperança para os militantes da luta dos camponeses na atualidade.

“Foi exemplo de que a gente não pode desanimar, temos que persistir mesmo quando os ventos não são favoráveis, como agora no Pará”, afirmou, se referindo às 20 liminares de reintegração de posse que, ao longo deste mês, estão despejando mais de 2.000 famílias sem-terra de latifúndios da região sudeste do estado amazônico.

Descendente de uma família nobre francesa, Frei Henri iniciou sua militância cedo, tendo participado dos movimentos revolucionários estudantis de maio de 1968, em Paris. Veio ao Brasil no ano de 1978. Por conta de sua luta em defesa dos trabalhadores rurais, Henri recebeu a condecoração de cavalheiro da Legião de Honra, do governo francês, em 1994; o Prêmio Internacional de Direitos Humanos Ludovic Trarieux, em 2005; o Prêmio Alceu Amoroso Lima de Direitos Humanos, em 2009, entre muitas outras condecorações.

Para Ricardo Rezende, que morou com Henri entre 1991 e 1996, entre os principais traços da personalidade do Frei estavam o bom humor, a paixão pela causa dos camponeses, a sensibilidade para identificar gostos e sabores, e a humildade e dedicação com o trabalho. Essa última característica também foi lembrada por Luzia Canuto.

“Chamava a nossa atenção como ele chegava cansado em casa, descansava um tempinho, e parece que era programado, em 15 minutos ele levantava e voltava ao trabalho. Isso marcou a minha família na convivência com o Frei Henri, ele não ficava cansado, não tinha preguiça, era extremamente dedicado à causa dos trabalhadores da nossa região”, afirmou.

Na opinião do Frei Xavier Plassat, no entanto, a característica mais marcante de Henri é o fato de ele não ter se importado com o formalismo institucional da religião, tendo trabalhado em conjunto e ensinado centenas de pessoas no Brasil e na França. Por esse motivo, ele conta, emocionado, que os amigos de Henri estão trabalhando para que suas cinzas retornem ao Brasil, para a comunidade do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) que leva seu nome, em Xinguara.

“Era isso que ele queria, e a comunidade do acampamento Frei Henri também expressou esse desejo.  Vamos tentar atender a essa demanda. A verdadeira religião exige um compromisso pela libertação e construção do reino de justiça. Isso Henri fazia literalmente”, concluiu.

29 de novembro de 201722:03

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