Massacre de Felisburgo: 13 anos de impunidade

Massacre de Felisburgo: 13 anos de impunidade

GRILAGEM

Mandante e executor está foragido e nenhum envolvido está preso; grande parte da fazenda é de terras devolutas

Wallace Oliveira |
Cinco agricultores foram assassinados, 12 baleados e inúmeras casas, plantações e vidas ficaram arrasadas
Giuseppe Rindoni

No dia 20 de novembro, o Massacre de Felisburgo completou 13 anos. Em 2004, o grileiro Adriano Chafik Luedy, acompanhado por 15 capangas, invadiu o acampamento Terra Prometida e comandou um ataque armado contra mais de 200 famílias. Cinco agricultores foram assassinados, 12 baleados e inúmeras casas, plantações e vidas ficaram arrasadas.

Para as famílias, o crime só será reparado com indenizações, punição aos criminosos e conversão do lugar onde fica o acampamento, a Fazenda Nova Alegria, em área de colônia ou cooperativa agrícola. Mais de uma década após o massacre, porém, impera a impunidade. Ainda assim, o acampamento persiste, mostrando que a terra ocupada pelo MST é mais útil à sociedade do que quando esteve nas mãos de um grileiro.

Ataque premeditado

Adriano Chafik Luedy, mandante e executor, chegou a alegar legítima defesa, dizendo que fora atacado pelos sem-terra. Contudo, a reconstituição do massacre mostra um crime cuidadosamente planejado para não dar chances às vítimas.

Na madrugada do dia 20 de novembro de 2004, o grupo fortemente armado invadiu o acampamento Terra Prometida. Na emboscada, soltaram foguetes, sinal usado pelas famílias quando precisavam se reunir. Um homem responsável pela segurança do acampamento foi capturado. Quando as vítimas foram atraídas, parte do grupo de matadores iniciou o tiroteio, enquanto outra parte destruía o que os trabalhadores haviam erguido.

“O primeiro tiro foi do próprio Adriano Chafik. Pegaram o Sr. Geraldo pela gola da camisa. Ele conseguiu desabotoar, soltou, correu e gritou: ‘É Adriano, é morte!’. Um grupo veio soltando porcos, galinhas. Uma das primeiras coisas que eles fizeram foi atear fogo na escola”, relata Kelly Gomes Soares, que na época tinha 15 anos. Sua casa foi incendiada com a irmã adolescente dentro. A menina escapou por muito pouco.

O agricultor Joaquim Batista da Silva conta como ele e o filho, ambos baleados, sobreviveram à tentativa de assassinato. “Eu estava fazendo uma farinha. Quando ouvi o grito do Geraldo, cheguei perto para ver o que era e levei um tiro no pé. Quando tentei virar, já recebi outro tiro, desta vez no peito. Meu filho tinha só 12 anos de idade. Ele tomou tiro no olho e no nariz. Foi caindo gente e eles gritando: ‘Não corre, que vai morrer’. Todo mundo pulou na catanduva, na beira do brejo, e ficamos o dia todo lá”, lembra.

Cinco agricultores foram assassinados: Iraguiar Ferreira da Silva (23 anos), Joaquim José dos Santos (49), Miguel José dos Santos (56), Juvenal Jorge da Silva (65) e Francisco Nascimento (72). O mais jovem deixou a esposa grávida. Ela também perdeu o pai.

Ameaças

Na época do massacre, o Instituto de Terras de Minas Gerais (ITER) já havia decretado 567 hectares da fazenda como terra devoluta, pertencente ao Estado. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocupou o local em maio de 2002 para denunciar essa situação, mas o conflito surgiu quando os sem-terra começaram a produzir. Chafik, inconformado, levava pistoleiros às lavouras para fazer ameaças. “A gente comunicou ao Ministério Público, registramos ocorrências na Polícia Militar e denunciamos na Assembleia Legislativa”, afirma Eni Gomes, coordenadora do acampamento.

Os sobreviventes acreditam que, desde o início, o grileiro contou com a cumplicidade de fazendeiros e autoridades da região. “Uma juíza da comarca de Jequitinhonha fez um pedido para que a gente parasse de trabalhar. Fizemos uma roça no alto, umas hortinhas, e veio um mandado. Ficamos um ano sem trabalhar, passando necessidade. Uma vez, o Baiano, que era pistoleiro do Adriano, ameaçou a gente. Registrávamos boletim e sumia lá mesmo. Tinha um policial, que era articulador do Adriano, que não fazia os boletins de ocorrência”, lembra o agricultor Railson Pereira Ramos.

A esse conluio as famílias atribuem a falta de socorro no dia do massacre. Na véspera, Kelly Gomes foi à cidade e só retornou na tarde do dia 20. Ao chegar, as famílias ainda estavam à beira da estrada, sem auxílio. “O Jorge, um dos sobreviventes do massacre, ligou pro hospital e a mulher que atendeu falou: ‘Não temos médico, não temos ambulância. Então, não podemos mandar socorro’. O Sr. Joaquim faleceu de tétano no hospital. Ele levou vários tiros, mas um tiro tocou o osso na perna. Ele foi consciente até a estrada e a filha dele, que o acompanhou, estava grávida de seis meses. O pai dela só morreu por falta de socorro”, recorda.

A ferida não cicatriza. Durante três anos, a psicóloga Fabiana de Andrade acompanhou as vítimas no atendimento à saúde mental. A experiência deu origem à tese de doutorado “Memória histórica do Massacre de Felisburgo: um estudo sobre trauma psicossocial e processos de resistência”. Ela relata sofrimentos como depressão, sentimentos de humilhação, culpa, pânico e outros.

1 de dezembro de 201710:33 AM

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