Coluna | Humanas, exatas ou biológicas?

Coluna | Humanas, exatas ou biológicas?

Ciências

Colunista do Brasil de Fato MG comenta as diferenças entras as áreas do conhecimento e a forma de ver o mundo

Renan Santos* |
Divisão entre cursos tem cada vez mais levado ao reforço de estereótipos e a falsas polêmicas
Reprodução

Em tempos de ENEM, uma polêmica que toca diretamente a vida dos jovens ganha força: humanas, exatas ou biológicas? A ciência é constantemente dividida entre essas três áreas. Seriam “de humanas” aqueles que se interessam mais por linguagens, política e arte, e que estudam o ser humano e a sociedade. Aqueles que curtem a natureza, os seres vivos e a saúde, por sua vez, pertenceriam “às biológicas”. E os bons de cálculo e lógica seriam do mundo “das exatas”.

Essa divisão, muito presente nas escolas e universidades, tem cada vez mais levado ao reforço de estereótipos e a falsas polêmicas dentro da ciência. Portanto, muito cuidado com ela.

Pesquisas científicas de cada área, sem dúvida, possuem especificidades e diferenças teóricas e metodológicas. Geralmente, a forma como um pesquisador investiga algo relacionado, por exemplo, à cultura, é diferente da forma como investigaria algo como uma rocha. Ou seja, o jeito de fazer ciência é diferente em cada caso. Porém, a ciência é uma só. O desenvolvimento do pensamento científico segue pressupostos que não mudam entre uma área e outra do conhecimento.

Essa simplificação tem como pior consequência uma distorção na forma de ver o mundo que atribui mais importância a uma perspectiva. Assim, quem é de biológicas vê e explica o mundo a partir da naturalização dos fenômenos. Somos como somos devido à genética, por exemplo. Quem é de humanas por sua vez esquece que somos animais inseridos em um ecossistema e entende tudo a partir das determinações sociais. E o de exatas por sua vez ignora tudo isso e só enxerga a frieza dos números e das leis naturais, que supostamente explicam por si só por que as coisas são como são.

Um famoso pensador alemão disse certa vez que a realidade é a “síntese de múltiplas determinações, a unidade do diverso”. Ou seja, tudo que existe é do jeito que é por diversas causas e fatores que se relacionam, o que resulta numa unidade complexa. O grande objetivo da ciência é compreender essa complexidade que é o mundo. Portanto, ao fazer ciência, devemos sempre evitar as respostas fáceis e as simplificações, basicamente porque nada é simples e fácil na vida.

Ser de humanas, de biológicas ou de exatas não deve servir de desculpa para não se interessar, estudar e levar em consideração as outras áreas. O ideal é que, independente de nossas preferências e atuação profissional, busquemos conhecer o que de bom tem sido pesquisado e discutido nas mais diversas áreas do conhecimento.  

Um abraço e até a próxima!

*Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais

7 de dezembro de 201718:02

Via Brasil de Fato

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