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Com aumento no preço do gás, população volta a cozinhar com lenha

Com aumento no preço do gás, população volta a cozinhar com lenha

Crise

Famílias acordam cedo para buscar lenha em locais distantes de suas casas

Júlia Dolce |
Ana, da comunidade de Àgua Paba, em Natuba, Paraíba, voltou a cozinhar no fogão à lenha
Reprodução

Com a alta do preço do gás, muitas famílias pelo país tiveram que voltar a usar o fogão a lenha para cozinhar. É o caso do Seu Marcos, morador da comunidade do Costa, na Paraíba.  “Aqui é fogo de lenha aqui fio, o gás agora é caro”, afirmou. Na sua vizinhança, muitas pessoas passam pelo mesmo problema, como a Dona Maria José. “Aqui tem muita gente que cozinha na lenha, tem gente que faz tanto tempo que comprou botijão que nem se lembra mais”, ela destaca.

Para Maria do Amparo, moradora da comunidade de Pedro Velho, em Aroeiras (PB), a tendência é que o uso da lenha cresça ainda mais. “Não vai demorar muito não para todo mundo estar na lenha de novo, não tem condição, o gás está 75 reais”, conta. Já para Ana, moradora da Comunidade de Água Paba (PB), as contas não estão fechando nem mesmo com o dinheiro do salário como coveira. “Eu, que estou recebendo, estou cozinhando no forno de lenha, imagina quem não recebe salário”, disse. 

As pessoas ouvidas fazem parte do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) da Paraíba, que luta pela democratização da energia e dos combustíveis no país, como o gás de cozinha. Combustível mais utilizado nas casas dos brasileiros, o preço do botijão de gás vem sofrendo aumentos consecutivos desde agosto, tendo aumentado 17,22% somente em novembro.

A situação está afetando cada vez mais a renda e o cotidiano das famílias brasileiras. De acordo com uma pesquisa publicada pelo Datafolha, no dia 8 de dezembro, dois terços da população consideram que a alta do gás de cozinha compromete muito seu orçamento familiar.

A dona de casa Luzenir Pinto da Silva, moradora do município de Parnarama, na região leste do Maranhão, conta como esses aumentos vêm afetando seu dia-a-dia. Mãe de três filhos, ela afirma que tem acordado às 4 horas da manhã para buscar lenha, a cerca de 15 quilômetros da sua casa.

“A situação não é boa, porque além dessa dificuldade toda, eu, como mãe de família, tenho que trabalhar e passo o dia todo me sentindo mal, com dor de cabeça, zonza, por não dormir direito. O gás aqui para nós está R$75, não tem como usar”, afirmou.

Luzenir acrescenta ainda que acredita que a lenha se tornará cada vez mais escassa com o passar do tempo. “Estamos no período que vai começar a chuva, e tudo se complica mais. Daqui a pouco vai ficar mais difícil, vamos ter que procurar em áreas mais distantes. Como a gente mora em assentamento do INCRA tinha uma boa vegetação, mas as queimadas afetaram muito, e somos muito ameaçados pelo agronegócio, há várias plantações de soja aqui perto”, afirmou.

Com uma renda mensal de pouco mais de um salário mínimo, e ameaças de cortes do seu benefício do programa Bolsa Família, Luzenir relata que o atual período é o mais difícil que já viveu.

“Para falar a verdade mesmo, eu estou com 17 anos de casada, e o período mais difícil que to enfrentando é agora. Porque os preços de tudo, não só do gás, estão subindo. Usava gás normal nesses 17 anos, eu usava o carvão quando ia ter algum evento que precisava de muito espaço. Mas agora não, é uma questão de sobrevivência mesmo, porque não tem como”, afirmou.

De acordo com João Antônio Moraes, diretor da Federação Única dos Petroleiros (FUP), a última vez que a população teve que voltar a consumir lenha nessas proporções foi no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando o preço do botijão de gás subiu de R$2,50 para R$32 em oito anos. No entanto, ele destaca que a conjuntura atual é muito pior.

“A Petrobras tem 64 anos, eu tenho orgulho de trabalhar nela há 32 anos. Nesses anos eu nunca vi algo parecido com o que está sendo feito agora. A gente assiste tudo isso atônito, não é possível que isso esteja acontecendo e continue acontecendo”.

Moraes explica que o aumento nos custos dos derivados de petróleo é uma opção política do governo golpista de Michel Temer (PMDB) e da atual direção da Petrobras. Na sua opinião, com o tamanho das reservas petrolíferas do Pré-Sal, a modernidade e qualidade das refinarias e seus técnicos, e os baixos custos de produção, os combustíveis do país deveriam ser muito mais baratos.

“No entanto, nesse exato momento em que essa conjuminância de fatores existe pela primeira vez na história, e que poucos países do mundo reúnem essas condições, a opção política desse governo tem sido obrigar o brasileiro a reduzir seu consumo energético, o que significa abrir mão do básico uma vez que a gente tem uma população carente que já tem um consumo energético muito baixo comparado com outras nações”, disse.

O preço do botijão de 13 quilos ficou praticamente congelado durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT). Desde que Temer assumiu o governo, em maio de 2016, o preço do botijão já aumentou 49%. Em junho deste ano, a Petrobras anunciou uma nova política de preços para a venda de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), indexando seu preço à cotação do combustível no mercado europeu. No entanto, Moraes destaca que as distribuídoras exportam o GLP a preços menores do que os pagos pela população brasileira.

“Nós reduzimos o consumo, aumentamos a importação e estamos exportando uma quantidade enorme de petróleo. O que temos hoje é o comando da economia na mão de uma tropa de ocupação estrangeira, que se movimenta segundo o interesse de transnacionais e de outras nações. Hoje está instalada na direção da Petrobras um grupo a serviço de suas concorrentes, da Shell, da Texaco”, afirmou.

Diante desse cenário, a FUP e o Movimento dos Atingidos por Barragens vêm se mobilizando para denunciar e conscientizar a população sobre os retrocessos econômicos que o país está sofrendo. Nesse sentido, Luzenir Pinto da Silva revela que se somar ao MAB, há três anos, foi um passo muito importante na sua trajetória.

“O MAB é bom demais, é onde consigo buscar ajuda para ver se as coisas melhoram. Para mim é onde eu consigo ter mais ou menos uma resposta dos problemas que a gente tem aqui, informação de como agir para tentar resolver. A gente não fica mais de braços cruzados esperando que alguém venha resolver”, afirmou.

Além de prejuízos financeiros e do trabalho extra para a população, a FUP e o MAB destacam o risco de acidentes para as crianças e os prejuízos ambientais com o desmatamento, como consequências negativas do aumento do preço do gás e do retorno à utilização de lenha como combustível. Procurada pelo Brasil de Fato, a Petrobras não se pronunciou sobre as acusações até a publicação da reportagem.
 

15 de dezembro de 201710:01

Via Brasil de Fato

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