De terreno abandonado à educação agroecológica: Escola Milton Santos completa 15 anos

De terreno abandonado à educação agroecológica: Escola Milton Santos completa 15 anos

Paraná

Localizada em Maringá, a escola foi construída por voluntários e adota pedagogia que atende às necessidades do campo

Júlia Rohden |
Local conta com área para produção de orgânicos, biblioteca, alojamento e laboratório
Welington Lenon

A Escola Milton Santos, que comemora 15 anos neste sábado (16), transformou as obras abandonas de uma indústria que nunca funcionou em um espaço voltado para o ensino da agroecologia. Todas as estruturas da escola foram construídas por trabalhos voluntários de camponeses. Foram centenas de pessoas que passaram pela instituição, levando aprendizados técnicos para suas comunidades e deixando alguma contribuição, seja no espaço físico, na parte pedagógica ou na produção da horta agroecológica.

Quase metade dos 70 hectares que foram cedidos pela prefeitura de Maringá para a ocupação da escola é destinada à produção em sistema agroflorestal. Ali se colhe café, hortaliças, mandiocas e outros alimentos. Integrante do setor pedagógico, Vagner de Matos explica que a produção é para consumo dos próprios alunos e o excedente é vendido em feiras em Maringá e no município vizinho de Paiçandu.

“Para além da agroecologia, há o elemento de ser uma escola popular que tem portas abertas para fazer formação em diversas áreas e também para contribuir na discussão e na prática da própria educação do campo. Para contemplar as questões do campo, tanto sociais quanto de produção agrícola”, comenta Matos.

João Flávio Borba, que participou da coordenação pedagógica da escola nos primeiros sete anos, ressalta que o objetivo principal é atender à necessidade da população do campo, sendo um contraponto ao êxodo rural promovido pelo agronegócio. “É uma forma de organizar tecnologias que vão atender as necessidades reais do pequeno agricultor, do assentado e das comunidades tradicionais na sua realidade concreta”, completa.

Pedagogia voltada à realidade do campo

A escola funciona em regime de alternância, uma metodologia reconhecida pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA). Assim, os estudantes alteram entre o período na escola e outro período de volta à sua comunidade para desenvolver tarefas das disciplinas.

Borba ressalta que o período que os estudantes voltam para suas casas não significa que estão de férias e explica que o regime de alternância permite os moradores do campo conciliar estudos com o trabalho para seu sustento. Ele também é dirigente estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e comenta que nas escolas do campo organizadas por movimentos sociais há um modelo de educação diferente do convencional. “Há uma proposta pedagógica de inserção nas atividades cotidianas dos estudantes. Há horários definidos de aula, de estudo, de trabalho, que estão vinculados ao processo de autogestão, de cuidado e de construção da própria escola”, conta.

A escola recebe alunos de várias regiões do Paraná e oferece cursos formais e encontros de capacitação, qualificação e pesquisa. Além da formação técnica em agroecologia, também foram realizados cursos de Pedagogia do Campo e de Educação de Jovens e Adultos (EJA). A instituição é gerida pelo MST, em articulação com outras entidades do campo.

A construção da escola

Criada em 2002, a Escola Milton Santos foi uma das primeiras do Paraná voltadas ao campo. Os cursos começaram junto com os do Centro de Desenvolvimento Sustentável, Agropecuário e Educação e Capacitação em Agroecologia e Meio-Ambiente – CEAGRO, instalado no assentamento no município de Cantagalo, região centro-sul do estado.

Foto: Adilson de Matos

A área era ocupada por instalações inacabadas e abandonadas de uma indústria que não chegou a funcionar. Borba conta que as ruínas estavam ali há cerca de 20 anos e o local era considerado perigoso pelos moradores da região.

A ideia de construir a escola veio da discussão do MST sobre a necessidade de espaços de formação em agroecologia nas zonas rurais. “Fomos transformando aquele espaço. Aproveitamos as instalações precárias que haviam e, com muito trabalho coletivo, construindo a escola”, lembra Borba.

Além da área de cultivo agrícola, a Escola Milton Santos tem espaço para refeitório, alojamento, laboratório, biblioteca e salas de aula. O nome é uma homenagem ao geógrafo brasileiro, que faleceu em 2001, e é reconhecido por seu pensamento crítico e por suas contribuições teóricas.

15 de dezembro de 201716:31

Via Brasil de Fato

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