Arte e cultura como instrumento de mobilização no sertão pernambucano

Arte e cultura como instrumento de mobilização no sertão pernambucano

JUVENTUDE

Brigada Maria Paraíba usa música, poesia e teatro para provocar reflexão e debate de temas do dia a dia

Vinicius Sobreira |
A Brigada Maria Paraíba de Agitação e Propaganda tem abordado com humor questões do mundo da política.
Vinícius Sobreira

Desde o último dia cinco um grupo de 20 jovens percorre o território do Sertão do Itaparica realizando apresentações teatrais, musicais e recitando poesias e cordéis nas comunidades e cidades por onde passam. É a Brigada Maria Paraíba de Agitação e Propaganda, que tem abordado com humor questões do mundo da política e que afetam o dia a dia dessa população, como a Reforma da Previdência, o preço do gás de cozinha e, principalmente, a privatização da Chesf e a defesa do Rio São Francisco.

Os jovens chegaram à cidade de Petrolândia na primeira semana de dezembro, vindos de Santa Cruz da Baixa Verde, Jatobá, Sertânia, Tupanatinga e do Recife. Na cidade, participaram de um curso sobre agitação e propaganda (ou apenas “agitprop”), forma de divulgar ideias através de elementos da arte e cultura populares, facilitando a compreensão por parte da população e massificando um projeto ou ideologia. Parte do curso foi facilitado por militantes de movimentos sociais e foi coordenado por Rafaela Alves, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). A formação também contou com os integrantes da Caravana Nacional de Luta Camponesa Clodomir Santos de Morais, formada por jovens militantes do MPA que estão há 8 meses na estrada, transitando por vários estados do Nordeste e usando elementos do agitprop para a elevação de consciência da população.

Do grupo de 20 jovens que participou do curso, 13 são de Pernambuco e agora formam a Brigada Maria Paraíba, para desenvolver o trabalho de agitprop dentro do estado. Ao fim do curso, os jovens se dividiram em duas equipes de trabalho: uma permaneceu em Petrolândia, circulando nos bairros e comunidades rurais do município para convocar a população para o Fórum Social das Águas e em defesa do rio São Francisco, evento que ocorre nesta sexta-feira (15), em Petrolândia. O outro grupo foi circular nas cidades da região com a Caravana Popular pela Democracia e em defesa das Águas e do São Francisco passando por Jatobá, Itacuruba, Ibimirim Inajá e Floresta, também mobilizando as cidades para defender o Velho Chico contra a privatização da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), já planejada pelo governo Temer.

O nome do grupo foi escolhido em homenagem à cozinheira e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Maria Paraíba, falecida em 2009 e que atuava numa das agrovilas de Petrolândia.

Um dos jovens que fez o curso e agora compõe a brigada é Carlos Eduardo Madeira, o Cadu, de 24 anos, morador do Recife e militante do Levante Popular da Juventude. Ele conta que o desafio para os que estão começando tem sido grande. “Quando construímos as intervenções, percebemos – pela inexperiência do nosso grupo – que seria um trabalho difícil. Mas não baixamos a cabeça. Vestimos a camisa, temos um objetivo importante, então nos reunimos todos os dias após as apresentações, para avaliarmos ponto a ponto, trabalhando para melhorarmos”, afirma. Mariana Oliveira, 20, jovem agricultora de Sertânia avalia que o apoio de grupo foi fundamental para ela “se soltar”. “É tudo novo para mim, então foi difícil. Eu estava muito travada, mas consegui melhorar”, diz a militante da Pastoral da Juventude Rural. “Aprender as falas e depois falar na frente de todo mundo foi o mais difícil. Mas agora é tranqüilo”, comemora. Os dois afirmam que a presença do grupo do MPA, mais experientes nesse trabalho, foi importante para a formação do grupo de Pernambuco.

Sobre o aprendizado, os dois militantes afirmaram que a formação foi importante para que compreendessem melhor o que é agitprop e possam utilizar melhor essas ferramentas. “Cheguei aqui achando que agitação e propaganda era entretenimento”, diz Cadu. “Mas aprendi que essa ferramenta é o que de melhor a juventude tem para dialogar com a população e passar a informação que queremos”, completa. “Eu não entendia nada de agitprop. Mas aprendi bastante coisa. Com teatro, música, o povo se interessa mais”, afirma Mariana.

E o resultado das incursões do grupo foi motivadora. “Nós também aprendemos bastante sobre a população e certamente conseguimos transmitir a nossa mensagem”, comemora a jovem rural. “Ao longo desses dias percebemos que somos capazes de conversar com todos, das crianças aos idosos de 70 ou 80 anos. Todo mundo assistia, conversava conosco e se mostra empolgados para participar do Fórum das Águas”, completa Madeira. Ele conta de uma abordagem inesperada durante a passagem da Brigada na comunidade quilombola Borda do Lago. “Uma menina de quatro anos veio ao nosso alojamento, após a apresentação, e nos perguntou: ‘por que eles querem tirar o rio da gente? Por que eles querem fazer isso?’. Isso traduz um pouco o que é o agitprop. Até uma criança de 4 anos consegue absorver o que queremos transmitir”, avalia Cadu.

Após o Fórum Social em defesa das águas do rio São Francisco, que ocorre nesta sexta-feira (15), os jovens militantes retornam para suas cidades e comunidades rurais. Mas Mariana Oliveira avisa que trabalho não para. “Vou repassar esse aprendizado para todos os jovens da minha comunidade, que é Sítio Cuxi dos Cadetes, onde temos um grupo de base”, informa. E Madeira concorda. “A ideia é que cada militante que participou desse processo seja um multiplicador. Voltaremos para nossas bases, nossos movimentos, e vamos reproduzir o que aprendemos, ensinando para os outros”, diz Carlos Eduardo, que vislumbra o crescimento do agitprop no estado. “Se cada militante fizer isso, construiremos novas brigadas locais e conseguiremos chegar a bem mais gente”.

20 de dezembro de 201717:16

Via Brasil de Fato

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