Artigo | Não podemos esquecer que o Bairro Elisson Prieto é a Ocupação do Glória

Artigo | Não podemos esquecer que o Bairro Elisson Prieto é a Ocupação do Glória

Uberlândia

São mais de 2.300 famílias que há quase sete anos tomaram a importante decisão de construir suas casas na área em MG

Denise Nunes De Sordi* |
Moradores em reunião para discutir os rumos da “ocupação do Glória”
Giovana Coelho

Dentre as mais de vinte ocupações urbanas que existem na cidade de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, a Ocupação do Glória, formada por famílias de trabalhadores no início de 2012, se expandiu rapidamente e se tornou uma das maiores ocupações urbanas do país. São mais de 2.300 famílias que há quase sete anos tomaram a importante decisão de construir suas casas na área e, principalmente, resistir às mais adversas condições de moradia e aos ataques a sua imagem e a sua segurança física.

A ocupação foi realizada em desdobramento de outra ocupação e despejo de aproximadamente quatro mil famílias no ano de 2011, nos arredores da Ceasa. A área ocupada, conhecida como Triângulo do Glória, é parte da Fazenda do Glória, de propriedade da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Comumente chamada de “Glória”, a ocupação inicialmente levava o nome “Paulo Freire”,mas no dia 4 de novembro de 2012 foi nomeada “Elisson Prieto” em homenagem ao falecido professor do Instituto de Geografia da UFU Elisson Cesar Prieto, um apoiador da ocupação.

Após longos processos de resistência dos moradores e de negociações institucionais, no dia 14 de dezembro de 2017 foi assinado o termo de compromisso entre a UFU, o Ministério Público Federal, a Cohab Minas e a coordenação do movimento de ocupação. Foram definidas as diretrizes, competências, prazos e demais questões relacionadas ao processo de regularização fundiária da área do Triângulo do Glória. Depois de anos de ocupação irregular, a área será transferida à Cohab Minas que promoverá, no prazo máximo de cinco anos, a regularização do terreno, com a venda dos lotes às famílias – a preços possíveis e estabelecidos junto aos moradores – bem como a instalação dos equipamentos básicos.

A solenidade do dia 14 marcou a reunião de diversos representantes do poder público em um singular momento no qual todos os interessados chegaram a um acordo sobre como “resolver” essa questão habitacional por vias legais. Não há dúvida de que esse foi um emocionante episódio para as famílias moradoras da área e também para todos nós que temos acompanhado esse processo das mais diferentes formas.

Assembleia dos moradores

Após essa solenidade, ocorrida na sóbria sala de reuniões dos conselhos universitários, no prédio da reitoria da UFU – palco de tantos outros episódios e manifestações relacionadas ao Glória – ocorreu uma assembleia na ocupação para comunicar a todos os moradores os desdobramentos práticos do compromisso.

Muitos dos presentes já estavam a par, pois tinham acompanhado os noticiários do dia e já sabiam que o compromisso seria firmado, mas, mesmo assim, a novidade era também a presença de representantes da Cohab e representantes da Cemig que “não estavam mais lá para cortar os gatos, mas para instalar os postes”, como bem lembrou a todos os presentes um dos moradores.

Esses dois momentos indicam algo significativo em torno dos processos de regularização fundiária, pois representam dois lados da mesma moeda política, que é também um tipo de moeda corrente na negociação das formas de acesso aos direitos básicos; à cidadania. Há o lado “oficial” e mais aparente das mobilizações e negociações, mas há também o lado que precisa ser permanente e que muitas vezes recebe menor visibilidade positiva.

Sem a presença das famílias na área, nas casas em construção, nos barracos e na poeira, não há ocupação, sem o acordo e apoio entre os moradores não há espaço de atuação para os movimentos organizados ou para intervenções institucionais positivas. O tipo de política posta nesse dia a dia é diferente da que ocorre em salas e solenidades, seus significados são representativos da atuação e expectativas das famílias. Ao passo que esse gesto oficial de comprometimento, de um lado, “encerra” a questão, também confirma que os processos de conquista da moradia pelas mãos das famílias de trabalhadores são necessários e possíveis.

A sensação de resolução indica um ainda longo caminho de negociações para os moradores, que se iniciará com o processo de regularização. A ocupação do Glória é, apesar de ser a maior, uma dentre as outras áreas ocupadas em Uberlândia e no Brasil. Não podemos esquecer que o Bairro Elisson Prieto é a Ocupação do Glória. Começou nesse gesto das famílias que ocuparam por diversos motivos e permaneceram na área e seguirá representativa das demais ocupações. A regularização não apaga os motivos que levaram à ocupação: o comprovante de residência, pagar pela moradia e sentir-se seguro, ter acesso à água encanada e à energia que vem da rede que não queima os eletrodomésticos e não causa mortes. A solidariedade entre as famílias de moradores impulsionou em grande parte a regularização, como um valor que não tem preço e é menos visível, mas que leva a grandes conquistas.

O início da regularização do Glória indica que é possível, sem cairmos em uma “utopia irrealista”, a negociação e a construção de novos espaços de convivência e moradia em termos diferentes dos que estão postos. 

*Doutoranda em História Social pela Universidade Federal de Uberlândia e autora do livro “Moradia, Trabalho e Luta: experiências, práticas e perspectivas sobre a ocupação de terras urbanas (Uberlândia 2000 – 2012)”.

26 de dezembro de 201711:00

Via Brasil de Fato

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