Artigo | Sobre o filme da Lava Jato

Artigo | Sobre o filme da Lava Jato

Política

Polícia Federal: a lei é para todos é mal construído em termos de narrativa, mas o fracasso não pode nos induzir ao erro

Ronaldo Pagotto |
A sétima arte não é isenta.
Divulgação

Polícia Federal: a lei é para todos foi lançado no cinema no dia 7 de setembro do ano passado, no contexto do golpe de 2016 e das adesões e críticas à Operação Lava Jato.

Vale destaque para o financiamento ter sido totalmente privado e parte dos financiadores mantidos sob segredo, ter tido um orçamento no valor oficial de R$ 16 milhões e sob direção de um jovem diretor, com dois filmes anteriores, duas comédias semi-adolescentes.

A sétima arte não é isenta. Bolcheviques adotaram o cinema para uso na propaganda, tentando acessar os milhões de russos analfabetos e carentes de informação sobre os rumos da revolução. Mas o uso mais profissional do cinema no trabalho político é obra de Hollywood.

Desde a década de 1930 o cinema dos EUA se dedica à política. Na guerra fria o cinema hollywoodiano deslanchou como um “braço” politico, quase um departamento do Pentágono.

No Brasil sabemos bem como é essa disputa. Somos um país de alto consumo do cinema estadunidense, da máquina de propaganda do imperialismo.

O filme sobre a Lava Jato nasceu para cumprir um papel na disputa política e ideológica. E é uma peça de propaganda sem disfarce ou maior cuidado.

A começar pela proposta, o filme retrata a passos largos uma operação complexa e marcadamente ilegal. Principia com as investigações de lavagem de dinheiro até encontrarem Youseff. Sem se preocupar com misturar ficção e realidade, usa os nomes reais de todos os acusados. Já os nomes dos policiais, promotores e do juiz Sérgio Moro, são assemelhados em uma quase brincadeira ridícula. O delegado Igor Romário é vivido por Antônio Calloni com o boné o nome de Ivan Romano.

Como mencionado, o filme é mal construído em termos de narrativa. Pula de uma etapa a outra em sobressaltos. E nas entrelinhas, os delegados, agentes e promotores federais se veem diante de uma operação com “gente graúda”, “perigosos”, etc. Há uma narrativa do começo ao fim que indica ser uma operação ameaçada por tudo e por todos. Parece que o mundo conspira contra esses bravos corajosos.

Esse é o contexto para a criação dos personagens do “lado do bem, todos heróis”. É um filme da velha tradição hollywoodiana de mocinhos versus bandidos, mas feito às pressas por um diretor de comédia querendo fazer uma semi-ficção policial ou, como se autoproclama o filme, um triller.

Os pobres agentes da lei se veem pressionados, ameaçados e frustrados com a possibilidade da operação “abafa” prosperar. Esse é o pano de fundo mais desconexo do filme. Sem mostrar que a operação se vale de divulgações documentos colhidos legal e ilegalmente, entre eles as escutas arbitrárias e publicizadas ao bel sabor dos “pobres” coordenadores da operação. Certamente um expectador desavisado poderia cair nessa cantilena dos agentes como vítimas por terem se metido com os poderosos.

Rapidamente a narrativa vai para o centro do filme, o Partido dos Trabalhadores (PT). Delações, um mapa com a arquitetura do fluxo da corrupção, tudo indicando o chefão no centro.

Nesse quadro, entre a pressa do filme em caminhar em sobressaltos para chegar no alvo, com os agentes da lei temerosos de todas as ameaças e riscos, emerge um personagem discreto.

Como um Crawford – personagem central na busca do Hannibal Lecter, orientador quase invisível da jovem agente Clarice, eis que aparece o juiz Moro.

Discreto, aparentemente técnico, sem usar frases fortes, com uma aparência de um juiz normal cuidando dos seus afazeres, com uma vida normal é bastante humanizado. Discreto, cuidadoso, técnico, responsável, pai amoroso e atento, marido zeloso. Só aparece com imagens positiva, cenas reconfortantes, música suave, e parece fora do “triller” tenso, além de se relacionar com agentes do estado sob ameaça e riscos.

Com a pressa de um cinema amador qualquer, logo o filme chega naquele março de 2016. O juiz autoriza a condução coercitiva de Lula quase como uma operação para proteger o conduzido. Mensagem de “tenham cuidado com ele…não o exponham” e outras deixam uma imagem de absoluto cuidado com a legalidade e a integridade dele. Essa parte é uma das cenas mais patéticas do cinema pátrio. Digna de ser usada nos cursos de cinema, psicologia, sociologia, história, direito etc. Risível.

Aí a trama adentra na maldade maior. Ela busca demonstrar as evidências com muita imagem, áudio e trechos encadeados para compor uma denúncia pública. Os áudios criminosos com a presidenta Dilma Rousseff, especialmente no episódio do ministério, imagens do Triplex e do sítio de Atibaia abundam na trama. Isso é parte do jogo: a narrativa pretende ganhar a força das evidências quase da obviedade da conduta criminosa.

É aí que o filme chega no seu ápice. Decidida a condução, a operação vai ao prédio – imagem do prédio onde Lula vive – e entra em cena o ator Ary Fontoura para dar o seu show particular. Constrói um personagem rude, bruto, com uma tentativa de reprodução da voz de Lula, que beira a insensatez completa. Mas o papel desse octagenário é criar um personagem que o público pudesse odiar. Ou, no mínimo, ter uma ojeriza absoluta. Assim ele o fez.

O filme vai até esse ponto. Mostra os atos de reação à condução, imagens reais e fictícias, as “ameaças” dos petistas e a resistência do povo. Uma cena típica do pior cinema de propaganda. 

O filme foi construído com a velha divisão entre bandidos e mocinhos. Agentes do estado (policiais, promotores e um juiz) sob ameaça e violões poderosos do outro lado.

Moro é a expressão do estado neutro. Lula é o político acostumado com a lei não ser “para todos”.

Obviamente que o filme não consegue demonstrar que a lei é para todos. Faz uma narrativa trôpega e apressada, uma adolescência completa para chegar logo no grande vilão.

Destaque para o uso de imagens de forte teor apelativo, mensagens de efeito que lembra as pornochanchadas e personagens muito cuidados para que demonstrem que são heróis sob ameaça e vilões prepotentes , antipáticos e dignos de causar nojo. Não construíram um filme com algo sério para um perfil mais complexo, mas o contrário. É feito para passar nos programas “Supercine”, Tela Quente e Sessões da Tarde.

O fracasso nas telonas não pode nos induzir ao erro. O filme foi feito para passar na Sessão da Tarde, de preferência a cada mês, para construir uma narrativa hermética dos bandidos e mocinhos.

Apesar da grande pretensão, inclusive de ser parte de uma trilogia, mas essa peça de publicidade ultraconservadora não pode se esquivar de uma verdade: a montanha pariu um rato, um rato medíocre.

26 de dezembro de 201716:31

Via Brasil de Fato

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