Em Porto Alegre: não é ser petista, é ser justo e defender a democracia

Em Porto Alegre: não é ser petista, é ser justo e defender a democracia

coluna

O fato é que não foi identificado nenhum crime de Lula

Leonardo Boff |
Movimentos populares e políticos realizaram uma marcha na manhã desta segunda-feira (22), em Porto Alegre
Frente Brasil Popular

O julgamento de Lula pelo juiz de primeira instância Sérgio Moro e a sua arguição final estão repletos de vazios de provas concretas. Abundam ilações e convicções subjetivas, impróprias ao ethos de um juiz imparcial. Não se acusa Lula por ter contas no exterior — que nunca teve — nem de ter desviado fortunas do erário em benefício próprio. Nada disso. Trata-se de um triplex no Guarujá (SP) sem maiores qualificações e de um sítio em Atibaia (SP), modesto, como modesta era a vida da esposa Maria Letícia que, filha de agricultores, gostava de mexer na terra.

As alegadas intervenções de Lula junto à Petrobras, em favor da construtora OAS que em troca teria dado a cobertura triplex em Guarujá não se confirmaram. A solução foi, então, a invenção de uma justificativa exdrúxula e até vergonhosa para um juiz minimamente sério. Escreveu: “se não houve intervenção de Lula, houve, sim, um ato de ofício indeterminado”. Isso vale dizer: um ato não conhecido e por isso inexistente.

Como pode um juiz decidir sobre algo que ele mesmo não conhece? A situação colocou o juiz Moro em maus lençóis quando veio a público que a OAS penhorou o apartamento de Guarujá em negócios feitos em Brasília (DF), sinal de posse e domínio do imóvel. Portanto, não podia ser de Lula.

O fato é que não foi identificado nenhum crime de Lula, muito menos contas em offshores.

O que ficou claro como a luz do sol é a vontade condenatória do juiz Sérgio Moro e daqueles em nome dos quais está atuando: as classes endinheiradas, o PSDB e parte significativa do PMDB com Temer à frente.

Não dá para usar metáforas e esconder o discurso com malabarismos. Temos que dizer abertamente que houve um golpe parlamentar-jurídico-midiático, hegemonizado pelos grupos altamente endinheirados (0,05% da população) que controlam grande parte da área econômica e mantêm o Estado refém dos altos juros que lhe cobra para que possa fechar suas contas.

A verdade cristalina é que a elite dominante (segundo Luiz Gonzaga Belluzzo, “nem elite é, há apenas ricos”) começou a dar-se conta de que o poder vindo do andar de baixo, por Lula, PT e aliados, poderia se consolidar e mudar o rumo do país com políticas sociais de inclusão de milhões de pobres e assim ameaçar seus privilégios. Arquitetaram um golpe como, aliás, sempre fizeram na história.

Não há que esquecer a afirmação muitas vezes repetida do antropólogo Darcy Ribeiro que nossas classes opulentas e dominantes são as mais reacionárias e antissociais do mundo. Nunca pensaram um Brasil para todos; sequer possuem um projeto de nação. Estão contentes com o que o Pentágono (que está também envolvido no golpe, segundo fontes fidedignas) e as grandes corporações mundiais estão impondo: a reconolização de toda a América Latina, particularmente, do Brasil.

A estes cabe, na divisão mundial do trabalho, o de serem apenas exportadores de commodities. Este projeto assumido pelos que deram o golpe, não estão apenas privatizando os bens públicos. Estão desnacionalizando nosso parque industrial, o petróleo e outros commons brasileiros. Estão desmontando o país. O objetivo é deixar espaço aberto às grandes corporações, à custa da diminuição do Estado, para que ocupem nosso mercado de 200 milhões de consumidores e possam acumular à tripa forra.

Alguém com mais autoridade que eu, o economista Luiz Gonzaga Belluzo, numa entrevista, foi ao cerne da questão: “O crime de Lula, na verdade, foi comandar um governo voltado para os mais pobres, um governo mais popular e soberano e isso, amigos e amigas, jamais será aceito pela Casa Grande. Defender Lula é defender a história, é defender a justiça. Não é ser petista, é ser justo”.

O que se joga no dia 24 de janeiro em Porto Alegre com os três desembargadores que vão julgar Lula é a definição do futuro de nosso país: se aceitamos ser novamente colônia ou se rejeitamos esse projeto indigno ou levarmos avante o sonho de tantos anos e agora reforçado, de refundar no Atlântico Sul um país robusto, autônomo, social e justo que se propõe sanar a ferida que sangra até os dias de hoje: os milhões e milhões, vítimas da Casa Grande de ontem e de hoje, os abandonados por serem considerados zeros econômicos, em sua maioria, filhos e filhas da senzala face aos quais temos uma dúvida humanitária até hoje nunca saldada.

O povo está calado, mas não desatento. Sabe dos direitos que lhe foram sequestrados e da carga de se lhe quer colocar nas costas. Dependendo da decisão dos desembargadores de Porto Alegre — uma justiça de lobos? — poderá haver uma espécie de estouro da boiada.

Aos juízes apenas lembro as palavras da Revelação: “A ira de Deus virá sobre aqueles que na injustiça aprisionam a verdade”(Romanos 1,18). O instrumento da ira de Deus será, desta vez, a ação irascível do povo”.

Portanto, desembargadores, tratem de julgar segundo a justiça para escaparem da ira de Deus e do furor do povo indignado.

Leonardo Boff escreveu: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, a sair pela Vozes em fins de fevereiro.

22 de Janeiro de 201821:15

Via Brasil de Fato

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