“Nossa luta é por cidadania e dignidade da pessoa humana”, diz arcebispo Dom João

“Nossa luta é por cidadania e dignidade da pessoa humana”, diz arcebispo Dom João

ENTREVISTA

Em entrevista exclusiva, o arcebispo de Aracaju opina sobre a grave realidade político-social do Brasil

Erick Feitosa e Rose Rodrigues |
Dom João José da Costa é natural do município de Lagarto-SE, filho de Noêmia Lima de Menezes e Francisco Barbosa da Costa (in memoriam)
Arquidiocese de Aracaju

Em entrevista exclusiva à Expressão Sergipana, o Arcebispo Dom João José da Costa falou do seu 1º ano à frente da Arquidiocese de Aracaju, avaliou o papado do Papa Francisco e opinou sobre a grave realidade político-social do Brasil. Além disso, Dom João passou uma mensagem ao povo sergipano e brasileiro para esse início de ano. Confira.

Expressão Sergipana: Dia 18 de janeiro de 2018 completou 1 ano que o senhor assumiu a titularidade da Arquidiocese de Aracaju. Qual é a sua avaliação deste primeiro ano de atuação? E quais seus principais planos para os próximos anos?

Dom João: O primeiro ano de qualquer gestão, episcopal ou não, é sempre um tempo de ajustes, de aprimoramentos do que já se tinha. Tempo de conhecer melhor as realidades arquidiocesanas e, especificamente, paroquiais. Afinal, como arcebispo coadjutor, eu já vinha tomando pé da situação, mas, com a titularidade, a responsabilidade aumenta. O meu antecessor, Dom Lessa, fez um bom trabalho, mas há situações que requerem melhoramentos e aprimoramentos naturais, sobretudo, em face de novas necessidades. Um dos passos importantes que demos em 2017 foi a divisão da Arquidiocese em Foranias, para melhor cuidarmos das questões pastorais.

Quanto aos planos para os próximos anos, em primeiro lugar, vamos continuar implementando, paulatinamente, o Plano Arquidiocesano de Pastoral (2017/2019), que foi formatado com a participação das Paróquias, das pessoas engajadas nas Pastorais e nos Movimentos, e, a partir daí, preparar o próximo Plano com base nas carências sentidas junto aos fiéis, a fim de que o Evangelho de Jesus Cristo seja levado a todos os cantos da nossa Arquidiocese. Segundo, estamos modernizando a gestão com a aquisição de um novo sistema de controles administrativos, que dará mais segurança e agilidade aos processos. E iremos avançar no sentido de darmos condições cada vez mais dignas aos nossos presbíteros no exercício do sacerdócio. Não esquecendo, claro, uma melhor distribuição de atividades para os diáconos permanentes. Por fim, vamos reestruturar os nossos Seminários (Propedêutico e Maior), nos aspectos físicos e acadêmicos. Isso, é o que faremos a curto prazo. A médio e a longo prazo, estamos procurando planejar com os pés no chão.

No próximo dia 13 de março, o Papa Francisco completará 5 anos de papado. Nesse período, Francisco se posicionou em temas polêmicos, fez fortes críticas ao sistema socioeconômico vigente e defendeu uma igreja com atenção especial aos pobres e excluídos. Mesmo com inúmeras críticas, ao nosso olhar se transformou numa grande liderança mundial. Mas qual é a sua avaliação do papado do argentino Francisco nos últimos anos?

O Papa Francisco tem sido uma bênção para a Igreja Católica e para o mundo, embora ele enfrente algumas resistências, dentro da cúpula da Igreja e de setores ultraconservadores, notadamente no meio econômico-financeiro mundial, ditado por um capitalismo selvagem que continua a favorecer a exploração do homem pelo homem. Não se trata de ser contra o capitalismo, mas, sim, de combater a sua selvageria, que cresce com a globalização da economia. Os países ricos continuam explorando os países pobres, sugando as suas matérias primas, impondo regras que somente favorecem a um lado, ou seja, o mais forte, o mais rico. O capital não é o mal, mas pode ser um mal, quando permite o aumento das desigualdades sociais.

Eu avalio o papado de Francisco como extremamente positivo. Ele é um pastor por excelência, que quer ver o Evangelho de Cristo disseminado, não apenas em palavras, mas, sobremodo, em gestos concretos, através dos quais possam ser dados testemunhos de que Jesus veio verdadeiramente para que todos tenham vida em abundância. Devemos orar muito pelo Sumo Pontífice.

A Campanha da Fraternidade 2018 propõe uma ampla reflexão sobre o tema da campanha – Fraternidade e Superação da Violência – com religiosos e religiosas, seminaristas, e representantes de pastorais, movimentos sociais e principalmente com a sociedade. Quais são as expectativas para a campanha em Sergipe?

A escalada da violência tem assustado o povo brasileiro e sergipano. No ano passado, fizemos uma marcha pela PAZ e pela defesa da VIDA, na nossa capital, Aracaju. O tema da Campanha da Fraternidade veio no momento em que a sociedade deve discutir a situação da violência com os postulantes aos cargos eletivos, nas eleições deste ano. A sociedade deve se pronunciar de forma efetiva. “Fraternidade e Superação da Violência” é um tema forte e abrangente. Como discutir fraternidade sem procurar vencer as causas que levam à violência, quer advinda do tráfico de drogas e de armas, quer a violência no trânsito, a violência doméstica, que é um mal terrível, especialmente contra mulheres e crianças, a violência das ruas, a que gera os homicídios, que levam o Brasil a um patamar monstruoso frente a outros países, fato que nos deve envergonhar, e assim por diante. Em Sergipe, as expectativas são de um trabalho que procure engajar o clero e o laicato com ações eficazes, no ano que a CNBB dedica aos cristãos leigos e leigas. Não dá mais para a Igreja Católica brasileira ficar inerte diante da escalada da violência. Vamos discutir com as autoridades e com o povo. Vamos cobrar de quem nos deve dar a segurança que as leis nos garantem.

Em 2017, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criticou fortemente os projetos de Reforma Trabalhista e da Terceirização, afirmando ser um “grave retrocesso social”. No ano de 2018, o que está na pauta é Reforma da Previdência. Qual a sua avaliação dessas reformas que o país vem passando?

A CNBB criticou os excessos das reformas que o atual governo federal trouxe à legislação trabalhista. Reformas são sempre necessárias. O que deve ser rejeitado e combatido é o excesso, quando são retirados direitos e conquistas que beneficiam os trabalhadores, que são, sem falsa retórica, a parte frágil da relação entre o capital e o trabalho. Às vezes, setores da sociedade querem trazer exemplos de fora, de países nos quais os trabalhadores são bem estruturados em suas representações. Tais exemplos não nos servem. Não dá para comparar a situação do Brasil com a de outros países, que estão num patamar mais alto. Não se compara desiguais.

A reforma da previdência, em parte, deve ser necessária. Vamos admitir que sim. Mas, estaremos falando de qual reforma? Da que faz ajustes, impedindo que alguns ganhem altos valores em proventos e pensões, ou da que impõe perdas aos que ganham menos? A CNBB deve continuar se pronunciando contra tudo que possa aviltar o povo brasileiro. Aviltar o povo, não é uma atitude cristã. Depõe contra o ensinamento do Filho de Deus.

Primeiro secretário-geral e idealizador do projeto da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Helder Pessoa Câmara foi declarado Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos. Em artigo recente, o arcebispo de Olinda e Recife, dom Antônio Fernando Saburido, declarou-se surpreendido pela ambiguidade do texto presidencial. Segundo ele, por “essa medida vir de um governo que justamente esvaziou a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República”. Como você avalia essa questão?

Dom Hélder Câmara foi um dos ícones da Igreja Católica na luta contra a ditadura militar (1964-1985). A Lei nº 13.581, de 26 de dezembro de 2017, que declara Dom Hélder como Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos, originou-se de um projeto de lei de 2014, de autoria do deputado federal Arnaldo Jordy (PPS-PA). Não foi, portanto, uma iniciativa do governo atual. Logo, a medida não veio desse governo que esvaziou a Secretaria de Direitos Humanos, isto é, não veio da Presidência da República. O presidente fez o que tinha que fazer, na forma da Constituição Federal, ou seja, sancionou e fez publicar a Lei, aprovada nas duas Casas Legislativas. O título conferido a Dom Hélder pode não ter vindo no melhor momento, mas, é inegável que é mais do que merecido. E que o governo federal aproveite esse momento de homenagem a um grande, senão, o maior defensor dos direitos humanos nos tempos de chumbo, para repensar e realinhar o aparelhamento estatal que defende os direitos humanos no nosso país. Que isso, no mínimo, lhe sirva de inspiração.

Como presidente da Cáritas Brasileira, quais são os principais desafios da entidade diante da grave realidade político-social vivida pelo país?

A CARITAS brasileira tem, sim, muitos desafios, sobretudo, neste momento tão difícil para o nosso país e para o nosso povo, diante de uma realidade política e econômica que tem feito sofrer as camadas menos favorecidas da nossa população, mas, que tem atingido quase todas as camadas sociais, exceto, provavelmente, a camada mais alta, ou seja, os 10% da população que detém 90% da riqueza nacional.

Precisamos dar ênfase a projetos que possam atender as necessidades de irmãos e irmãs que sofrem muitas vezes sem ter o básico para levar uma vida digna. A nossa luta deve voltar-se para a afirmação da cidadania e da dignidade da pessoa humana, que são sustentáculos da vida democrática. A Igreja Católica, através da CARITAS, deve envolver-se muito mais com as questões sociais, dentro dos princípios que norteiam a Doutrina Social da Igreja, que faz parte do próprio Magistério da Igreja de Jesus Cristo e que, por seu turno, está alicerçado na Palavra de Deus.

Temos trabalhado com projetos voltados para ajudar refugiados que aportam no nosso país, para atender necessidades de idosos, crianças, adolescentes e jovens. Projetos inclusivos em vários segmentos sociais. Projetos bem estruturados e muito bem avaliados no semi-árido, a fim de propiciar uma vida menos sofrida para os beneficiados. Continuaremos nesse trabalho, nesse ritmo, nessa caminhada em prol do social. A CARITAS não fugirá do seu compromisso social à luz da Boa Nova, que o Nazareno veio nos ensinar

Qual mensagem o senhor gostaria de passar para o povo sergipano e brasileiro nesse início de ano?

Minha mensagem final ao povo brasileiro e ao povo sergipano é esta: Amai-vos uns aos outros, como o Cristo nos amou e nos ensinou a amar. Não esmoreçam por mais difíceis que as realidades da vida possam parecer. Jesus jamais esmoreceu. Os cristãos primitivos jamais esmoreceram. Do sangue dos mártires brotaram novos cristãos. Nós não podemos esmorecer nem desistir. Os tempos passam. As duras realidades de hoje um dia passarão. As tempestades serão dissipadas. Mas, a Palavra de Deus não passará jamais. Continuemos lutando com a força que nos vem do Santo Espírito.

Que Deus conceda a todos um ano em que a coragem para a luta não falte; em que a busca da felicidade não seja interrompida; em que o amor floresça em cada coração; em que a Igreja Católica permaneça em constante estado de missão: Igreja viva, em saída, por Cristo, com Cristo e em Cristo.

Este conteúdo foi originalmente publicado na versão impressa (Edição 0) da Expressão Sergipana. Confira a edição completa

5 de Fevereiro de 201808:01

Via Brasil de Fato

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Seja o primeiro a comentar

Deixe um comentário