GERAL

Das ‘pin-ups’ às ‘Suicide Girls’: Qual é o teu padrão?

Das ‘pin-ups’ às ‘Suicide Girls’: Qual é o teu padrão?

*Artigo escrito por Jusciane Matos, jornalista pós-graduanda em Jornalismo Digital e Produção Multimídia.

Quem nunca viu um pôster de moças pendurado em uma parede que atire a primeira pedra. Mesmo que em filmes e seriados, já nos deparamos com essa cena. Do final do século 19 para o início do século 20, mulheres ousaram infringir as regras sociais e “colocar o corpo para jogo” fotografando para publicidade e cinema em uma época em que mostrar as pernas era considerado altamente ofensivo.

As famosas pin-ups, que significa “pendurar” em inglês, foram mulheres voluptuosas, com estilo clássico e muito femininas. Um estilo clássico, cabelo vintage, pele clara, batons vermelhos e, obviamente, com poses sensuais. Elas ainda são copiadas até hoje.

Suicide Girls, quem são vocês?

Um século depois do fenômeno pin-up, eis que surgem as “suicidas sociais” com suas tatuagens, cabelos coloridos, piercings, corpos magros, malhados, gordos, negros, ruivos, loiros: são as Suicide Girls. Meninas que aceitam e amam seus corpos do jeito que são. Se sentem bonitas e sensuais independente do padrão estipulado pela sociedade.

O site suicidegirls.com, criado em 2001, apresenta centenas de ensaios sensuais com mulheres de diversas partes do mundo. O diferencial do espaço é que as modelos são livres para aceitar o corpo delas como é de fato, e para fotografar da maneira como se sentem mais à vontade.

Luiza Azul conta que para se tornar uma Suicide Girl é necessário fazer um cadastro e enviar ensaios fotográficos que podem ser feito tanto por profissionais quanto pela própria garota. As fotos são votadas pelos assinantes e a equipe do site decide se irá comprar as fotos e tornar a candidata uma SG. Cada ensaio vale US$ 500, cerca de R$ 162 reais.

Quando o corpo é realmente seu?

Tanto Pin-ups quanto SG são mulheres que não aceitaram a máxima imposta pela sociedade de bela, recatada e do lar. Donas de seus corpos, essas mulheres desafiam os padrões de beleza, de feminilidade e se tornam autoras do seu caminho.

Mas, até onde isso é protagonismo feminino e até onde existem outros interesses por trás desse ideário de quebra de paradigma social? Esse é o questionamento da professora da Universidade Católica de Brasília (UCB), Isabel Clavelin.

Clavelin destaca que a hipersexualização e a liberdade de sexualidade das mulheres é uma linha muito tênue.

“O patriarcado centra sua forma de dominação a partir dos corpos das mulheres definindo como devem circular, se comportar, como devem se relacionar, como — os corpos — devem ser expostos ou não”.

A exposição do corpo da mulher, especialmente quando é por vontade própria, é duramente criticado por grande parte da sociedade.

“O caminho mais objetivo é quando as mulheres se apropriam dos seus corpos e decidem fazer o que quiserem. Isso não é novo, o que muda é a forma de apresentação e uma determinada plataforma tecnológica. Mas, faz parte da história das mulheres registrar e afirmar o corpo feminino”.

Coisas de puta

A sensualidade, para o professor Giovane, é a força vital. É o que nos faz levantar todos os dias e ter energia para fazer coisas que nos dão prazer. Isso, segundo ele, não está necessariamente relacionado à sexualidade. Porém, ser sensual ainda é uma tarefa difícil para as mulheres, pois esse ato está sempre relacionado à impureza, à falta de vergonha e a ser puta.

Giovane dá aulas de dança sensual há bastante tempo e conta que 80% das mulheres que o procura chega com problemas de autoimagem.

Giovane Aguiar, professor de dança sensual e diretor do Nostalgique Cabaret

“Eu ensino que deixem essa voz que está dentro delas sempre te falando o que está certo ou errado, o que é permitido e o que não é. Deixar essa voz quieta para que tenham a experiência e que a experiência diga o que é seu, o que é da cultura, ou o que está apenas sendo repetido porque faz parte da sua religião, cultura ou da sua educação”.

Sou vulgar? E daí?

A seguir, você lê a íntegra da entrevista com a fotógrafa Raissa Azeredo, que clica o nu de mulheres.

A mulher que gosta do próprio corpo e, por conta disso, gosta de mostrá-lo, ainda é vista como uma pessoa vulgar, provocadora, sem noção.Raissa Azeredo, fotógrafa de nu

Jusciane Matos: Na sua percepção de mulher e fotógrafa, como a mulher que gosta de mostrar seu corpo é vista?

Raissa  Azeredo: A mulher que gosta do próprio corpo e, por conta disso, gosta de mostrá-lo, ainda é vista como uma pessoa vulgar, provocadora, sem noção.

Começa porque temos a crença muito antiga de que o corpo da mulher só poderia ser mostrado depois de casadas, para os ditos maridos, e, se mostrado antes, seria considerado “sem-vergonhice”.

O tempo evoluiu, hoje podemos usar shorts, saias, pernas de fora, biquínis, decote, vestidos, roupas com transparência… e por aí vai. Mas, mesmo assim, se uma mulher usar um decote, por exemplo, quando não “for apropriado”, ela é julgada. E por que isso? Quem dita onde e quando e por que é apropriado usar, ou deixar de usar, uma roupa?

E quando o assunto é a nudez?

Isso tudo piora quando entramos no nu, quando é a pele que é mostrada, quando é o corpo que é escancarado. Por que ter vergonha do nosso corpo? E se não temos, por que não mostrá-lo?

Existem mil e um motivos por trás da escolha de uma mulher de mostrar o corpo, seja ele mostrado na rua, na praia, em casa, ou em fotos na internet. E por ser um assunto tão polêmico podemos inferir logo que esses motivos foram todos muito bem ponderados e escolhidos pela mulher. E quem somos nós para julgá-la?

Mas, infelizmente, essas mulheres que mostram seus corpos ainda são vistas como atrevidas, como ousadas, como promíscuas. São vistas como mulheres que estão ali botando os peitos na internet para afrontar alguém. Como mulheres que estão postando essas fotos para seduzir e provocar os maridos alheios. Como mulheres que querem usar do corpo para ter uma vida mais fácil, para ganhar likes, para ganhar seguidores, para conseguir coisas.

 E sobre estar fora dos padrões socialmente aceitos: magra, sarada, com uma “pele boa”?

Pior ainda. Se mostrar seu corpo “de modelo” é visto como vulgaridade, mostrar um corpo acima do peso (e que peso seria esse ideal?), um corpo com marcas, um corpo mutilado, um corpo deformado, aí piorou. No mínimo irão julgar a mulher de sem noção, de feia. No mínimo surgirão mais comentários negativos do que positivos. Ninguém quer saber, ninguém busca a beleza que isso representa. Ninguém liga praquela cicatriz — que mostra uma mulher que pegou os filhos e fugiu do marido que a violentava -, ninguém quer saber a história daquela barriguinha — que gerou um bebê -, ninguém quer saber do seu problema de saúde que faz ganhar — ou perder, também — quilos tão rápido.

Nós: eu, você, as mulheres que eu fotografo nuas todos os dias, minha mãe, as suicides, as modelos de nu, todas nós estamos aqui mostrando nossos corpos simplesmente porque são bonitos — do jeito que são — e porque gostamos dele e amamos ele. Nossa nudez não deveria ser tabu. Nossa “falta de padrão” não deveria ser feia. Nossa coragem de quebrar um tabu tão idiota — tendo em vista que todos temos corpos, todos nascemos nus, todos já vimos alguém nu — deveria ser vista como não mais que isso: um ato de amor. Amor com nós mesmas, amor com o próximo. Amor.

Você sente que ainda é difícil a aceitação do próprio corpo e se sentir bonita ao fotografar para um ensaio nu?

Acho que isso ainda é muito difícil para TODAS as mulheres: se olhar e se sentir bonita. Independente se elas têm um corpo dentro do padrão social ou não, todas as mulheres sempre queixam-se de 1 ou mais defeitos. Sempre tem um peito que podia ser maior, umas estrias que podiam sumir, uma cicatriz pra esconder, um nariz torto, uma falta de bronzeamento. Mesmo para mulheres realizadas, ou mulheres padronizadas, ou modelos, ou senhoras de idade.

E num ensaio nu isso se torna visível. Ali, nua, além de estar quebrando esse tabu de tirar todas as roupas — muitas vezes na frente de alguém desconhecido -, ainda tem a questão de se preocupar com o corpo. Ali não há blusa larga para esconder barriguinha ou costelas aparentes, não tem calça jeans pra não mostrar celulite, não tem gola alta pra esconder marca no pescoço. Não há nada. É se olhar diante de um espelho, só que sem poder mudar de posição porque tal ângulo não te agradou. É uma experiência que não pode ser descrita, não tem como eu dizer — apesar de já ter passado por isso também -, ela só pode ser sentida, e será sentida por cada uma de uma forma. Muitas mulheres se emocionam, choram. Algumas mulheres já se gostam o suficiente para ficarem confortáveis e ousarem nas poses na frente da câmera. É diverso em muitos sentidos como é essa relação da mulher — nu — câmera.

Você conhece as Suicide Girls? O que pensa a respeito?

Eu nunca tinha ouvido falar das suicides até fazer meu primeiro workshop de fotografia, com um fotógrafo que sempre fotografava essas meninas. Nunca conheci nenhuma pessoalmente. Acho as fotos delas incríveis. São mulheres muito bonitas, com fotos de ótimas qualidades, e não digo bonitas porque estão dentro dos padrões, a começar pelas tatuagens — que é unanimidade entre todas. Não posso te dizer o que penso a respeito cem por cento, pois nunca conheci nenhuma nem fui uma.

Quais motivos levam uma mulher a querer fazer um ensaio nu. Raissa Azeredo elege alguns:

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

Jornalismo Digital IESB

RELACIONADO

Deixe um comentário