Como ‘Pantera Negra’ reimaginou o estilo africano

Como ‘Pantera Negra’ reimaginou o estilo africano

The many shades of Wakanda. 

A última vez que vimos esse tipo de opulência, grandiosidade e puro estilo africano mostrados no blockbuster Pantera Negra, da Marvel, talvez tenha sido há 30 anos, no clássico Um Príncipe em Nova York, comédia de Eddie Murphy.

O filme transborda com imagens de africanos incríveis – em peles de leão e dourados reluzentes. Não importa que Zamunda, onde nasceu o protagonista, Prince Akeem, não seja um país real. Também não importe que as roupas que ele e os outros personagens usem sejam inspiradas no continente inteiro.

Em Pantera Negra, que se passa em outro país fictício, chamado Wakanda, a profundidade do estilo tradicional africano é ainda mais pronunciada. Em uma cena chave em Warriors Falls, vemos toda Wakanda e suas várias tribos: padrões, adereços labiais e de cabeça coloridos e intrincados, incorporando aspectos de diferentes culturas e tradições africanas, visuais que existem além da imaginação ocidental e branca.

The attire of the tribes of Wakanda incorporates aspects of different African cultures and traditions.

O que é marcante no visual e nos figurinos de Pantera Negra, ou de Um Príncipe em Nova York anteriormente, é que essa colagem de estéticas africanas já foi alvo do debate sobre a diáspora.

De vez em quando, a comunidade negra no Twitter se vê enrolada numa conversa sobre o assunto espinhoso da apropriação cultural. O debate em geral se concentra no que deveria ser uma não-questão: será que os afro-americanos podem se “apropriar” da cultura africana?

Um post intitulado Black America, Please Stop Appropriating African Clothing and Tribal Marks (América negra, por favor pare de se apropriar de roupas e pinturas tribais africanas) chamou atenção em 2017 por levantar uma dessas discussões. O autor argumenta que não-africanos (ou seja, americanos negros de famílias há muitas gerações nos Estados Unidos) que usavam coisas como dashikis e búzios estavam depreciando e desrespeitando as tradições das pessoas do continente africano.

Ignorando o fato de que os negros americanos e todos os outros negros da diáspora são literalmente descendentes de africanos e, portanto, africanos, o autor escreveu:

Só gostaria que vocês se dessem conta da hipocrisia de ver alguém usando um adereço de septo fulani, vestindo uma djellaba, pintado à moda dos iorubáse ao mesmo tempo dizendo que está sendo respeitoso. É uma mistureba, uma justaposição, uma bagunça de costumes regionais, étnicos e culturais que grita ignorância e insensibilidade cultural.

O post é mais um de vários textos que afirmam que afro-americanos e outros negros da diáspora sem os chamados laços diretos com a África estão sendo desrespeitosos por exibir estilos africanos puramente por motivos estéticos. Esses ensaios afirmam que os negros americanos são, na realidade, tão culpados quanto o menino branco usando dreadlocks ou a menina branca usando um kente.

Mas aí vem um filme como Pantera Negra, e a futilidade, o absurdo do debate ficam tão óbvios que dá vontade de chorar, ou de rir – ou as duas coisas.

Porque, esteticamente, Pantera Negra é uma mistureba, uma justaposição, uma bagunça de costumes regionais, étnicos e culturais. E isso é parte do que faz o filme brilhante.

A figurinista Ruth E. Carter, em colaboração com a designer de produção Hannah Beachler, criou a Bíblia de Wakanda no começo da produção, um tomo que define os padrões de Pantera Negra e dos habitantes daquele mundo – das Dora Milaje, às seguranças pessoais do rei T’Challa, aos Jabari, clã que vive nas montanhas de Wakanda.

Lupita Nyong'o and Letitia Wright in traditional Wakandan garb. 

“[Antes de começarem as filmagens], já vinha coletando informações sobre a tribo Maasai e me apaixonei pelos Dogon”, disse Carter ao HuffPost. “A tribo Dogon vivia em uma área montanhosa, e eles foram uns dos primeiros astrônomos. Estudavam as estrelas e faziam um ritual anual no qual criavam máscaras incríveis de madeira, que apontavam para o céu. As pessoas se vestiam de saias de ráfia e cores brilhantes. Foi essa a inspiração para a tribo Jabari.”

Carter também incorporou os robes tradicionais dos Ndebele, da África do Sul, nos lençóis (que na verdade são escudos) usados pela tribo da fronteira de Wakanda.

Em uma cena do filme, o rei T’Challa (Chadwick Boseman) se vê no plano ancestral, conversando com seu pai. T’Challa usa uma túnica com uma gola elaborada, que lembra as roupas usadas pelos iorubás da Nigéria. Quando o pai aparece para ele, está envolvido num tecido tradicional semelhante ao usado pelos homens de Gana – o tecido está coberto com o símbolo Adinkra de “força”.

Há muitos momentos estéticos como esse em Pantera Negra e muitas instâncias de anacronismo cultural que, de alguma maneira, funcionam. São várias formas de vestimentas tradicionais africanas, de partes diferentes do continente. De certa forma é nonsense. Mas, de outra, mais importante, faz todo o sentido do mundo. Wakanda não é real no sentido físico, mas é um ideal espiritual, um mundo que representa o que a diáspora é e poderia ser se tivesse a oportunidade.

Para Carter, a mistura de culturas não tem a ver com desrespeito ao significado das roupas vistas no filme.

“Olhando com olhos de hoje, é OK homenagear cultura e tradição, mas não estávamos tentando fazer um documentário”, diz ela. “Queríamos honrá-los de uma maneira futurista, e muitos detalhes das tribos autóctones africanas são facilmente traduzidos para um modelo futurista.”

Exibição de Pantera Negra em Gana para a cultura! Tambores, roupas tradicionais, DJ, dançarinos, modelos!!

Talvez o aspecto mais empolgante da visão de Carter, criada em conjunto com Beachler e o diretor, Ryan Coogler, é a maneira como ela vem ecoando além das telas, em cinemas dos Estados Unidos e do mundo.

Numa sessão de estreia em Accra, Gana, o saguão de um cinema estava cheio de ganenses vestidos com roupa de festa e percussionistas tocando.

A cena teve um paralelo no cinema Magic Johnson, no Harlem, em Nova York, onde o lobby estava cheio de rostos negros e corpos negros paramentados em kentes e dashikis.

Nos dois cinemas, era lindamente irrelevante o que ou quem veio de onde. Porque a tradição da diáspora de se arrumar, se se mostrar, transcende continentes, história, tempo. E é isso o que Pantera Negra captura tão bem.

Zeba Blay

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