Gringoview: Chega de Bullshit (B.S.)

Gringoview: Chega de Bullshit (B.S.)

Escola reabrirá na Flória na quinta-feira (28), duas semanas após assassinato de 17 pessoas, baleadas pelo ex-aluno Nikolas Cruz.

Como é que um gringo como eu pode explicar aos seus amigos e colegas a violência assassina que deixou 17 mortos, entre alunos e professores, além de muitos outros feridos numa escola da Flórida, o mais recente episódio do que aparenta ser uma praga interminável de acessos de matança em escolas e espaços públicos nos Estados Unidos?

Como explicar o culto desenfreado às armas de fogo, o predomínio e uso de armas de assalto numa nação que prega sem cessar a paz e a civilidade, onde semanalmente uma média de 25 crianças abaixo dos 17 anos é morta a tiros?

Segundo os cálculos do American Journal of Medicine, entre os 12 países mais ricos do mundo, os Estados Unidos respondem por 91% das mortes a tiro entre as crianças de até 14 anos. E isso são só as crianças. Mais de 13 mil adultos foram mortos por armas de fogo em 2016.

O que na cultura americana faz do culto às armas de fogo uma espécie de religião nacional consagrada pela segunda emenda da Constituição que “protege os direitos naturais de autodefesa e resistência à opressão e o dever cívico de agir em conjunto em defesa do Estado”.

Verdade, a fronteira americana era um lugar perigoso, e a arma de fogo era necessária à caça e à defesa da familia. Mas isso foi há muito tempo. Defensores das armas de fogo expressam um medo paranóico de que qualquer infração a esses direitos seja, segundo Wayne LaPierre, presidente da American Rifle Association, o primeiro passo de uma conspiração socialista que visa a “erradicar toda liberdade do indivíduo”.

Os Estados Unidos são o único país que permite a qualquer maior de 18 anos entrar numa loja e sair minutos depois com uma arma, após, no máximo, uma verificação superficial de antecedentes. Após um massacre em 1996, a Austrália baniu as armas de fogo e comprou as armas existentes dos seus donos. Não é mera coincidência que não aconteceu mais nenhum massacre por lá desde então.

Isso deveria ter ensinado uma lição aos meus compatriotas. Infelizmente, não foi o caso. Banalidades e promessas de mudança nas leis americanas que regulam o porte de armas nunca são cumpridas, o que não é de se espantar — dados a cultura da “independência” e os legisladores que foram generosamente financiados pela NRA, o todo-poderoso lobby das armas.

“Armas não matam pessoas”, dizem eles. “Pessoas matam pessoas,” Isso é verdade, mas, assim como as notícias falsas que inundam nossos canais de mídia mundo afora, é também enganoso, simplista e totalmente fora de contexto. Que o presidente Trump tenha recomendado a sério armar os professores ao invés de banir as armas de assalto soa como uma página extraída do plano de jogo do NRA.

Foi numa reunião de pessoas de luto, alunos e professors na Douglas, a escola que sofreu a tragédia recente, que Emma González, aluna do último ano, deu o veredito severo a todos aqueles que poderiam ter, porém não impediram a violencia. Ela forjou um grito de guerra que viralizou e não será esquecido tão cedo: “Isso é B.S.”:

“Politicos sentados em suas cadeiras douradas patrocinadas pelo NRA na Assembléia e no Senado nos dizem que nada poderia ter sido feito para evitar o ocorrido: chamamos isso de B.S.”

“Dizem eles que nenhuma lei poderia impedir as centenas de tragédias sem sentido que acontecem: isso é B.S.”

“Que nós filhos não sabemos do que estamos falando e que somos jovens demais para enteder como funciona o governo: isso é B.S..”

Conforme Emily Witt do New Yorker descreveu a cena: “A multidão entrou num frenesi de ódio e tristeza, as pessoas à minha volta com lágrimas nos olhos a gritar: “isso é B.S”. E então, em uníssono, entoaram juntos: “Expulsem-nos, expulsem-nos, expulsem-nos”.

Seja em nossas ruas ou nos Estados Unidos e na Europa, quase em toda a parte, é difícil não sentir o ódio crescente, a indignacão e a frustração com a bagunça generalizada na qual nos encontramos. No dia 14 de março, acontecerão manifestações nacionais de “Walk Out of School”, e dez dias mais tarde, um dia de ação nacional.

Está começando a soar como se as vozes desses jovens que, contra todas as probabilidades, se reuniram para por um fim à guerra do Vietnã estivessem se erguendo novamente, dessa vez contra a descontrolada cultura das armas. Eles já aturaram B.S. suficiente, disse a cantora e ativista Joan Baez em admiração ao movimento. “É espantoso.”

O New York Times citou uma aluna do último ano que disse: “Essa é uma cultura onde as pessoas dizem ‘Ah, vamos mandar nossas preces e pensamentos’ por três dias e depois esquecem o assunto. Estou cansada disso”. Ela e aparentemente milhões de jovens da sua geração.

Talvez as redes sociais deurama eles um senso de poder exacerbado, uma crença em que, por serem capazes de difundir livremente suas paixões, suas vozes surtirão algum efeito positivo no sentido de provocar mudanças.

Ouvindo os estudantes e pais reunidos na Casa Branca, olhando nos olhos do president e exigindo que ele “conserte isso agora” e lendo como outros atacaram ruidosamente o senador sem espinha Marco Rubio, da Flórida, pelo cinismo de sua recusa de se comprometer a não aceitar mais nenhuma contribuição do NRA fica claro que eles não estão deixando o assunto de lado nem relutantes em identificar e delatar B.S.

Se chegamos ao ápice de um movimento popular significativo, existe esperança que esses eventos possam ajudar a restaurar alguma ordem a um mundo severamente desordenado.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

Peter Rosenwald

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