É possível consertar o Facebook? Mark Zuckerberg e a sabatina do governo americano

É possível consertar o Facebook? Mark Zuckerberg e a sabatina do governo americano

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, e bilionário aos 33 anos, foi sabatinado pelo Congresso americano na última terça-feira (10). O motivo? Entender qual será a estratégia do executivo para restaurar a confiança do público em sua rede social e questionar se a empresa estaria aberta a qualquer tipo de regulamentação.

Mas é possível consertar o Facebook?

Para Tim Wu, professor de Direito em Columbia e autor do livro Os Mercadores da Atenção: A Luta Épica para Entrar nas Nossas Cabeças, essa não é a pergunta mais correta a ser colocada diante da polêmica que a empresa de Zuckerberg se envolveu.

Para Wu, é chegada a hora de pensar em como podemos superar o Facebook.

“O que vem depois do Facebook? Sim, passamos a depender de redes sociais, mas em vez de aceitar um monopólio inerentemente defeituoso do Facebook, o que mais precisamos agora é de uma nova geração de plataformas de mídia social que sejam fundamentalmente diferentes em seus incentivos e dedicação para proteger os dados do usuário. Com exceção de uma revisão total da liderança e modelo de negócios, o Facebook nunca será essa plataforma”, argumenta o analista em texto publicado no NY Times.

Para Wu, os problemas do Facebook são “centrais e estruturais” e as consequências disso são previsíveis por conta do seu modelo de negócio.

“Desde o primeiro dia em que buscou receita, o Facebook priorizou o crescimento sobre qualquer outro objetivo possível, maximizando a coleta de dados e a atenção humana. Suas promessas aos investidores exigiram uma capacidade cada vez maior de espionar e manipular grandes populações de pessoas. O Facebook, em sua essência, é uma máquina de vigilância, e esperar que mudar é um otimismo equivocado”, defende.

Para o professor de Direito, o concorrente ideal, que poderia vir a ser o sucessor do Facebook, seria uma plataforma que realmente colocasse os objetivos de conectar pessoas e “construir uma comunidade global” em primeiro lugar.

Com isso, no entanto, os modelos de negócio baseados em publicidade e coleta de dados seriam incompatíveis com uma rede social confiável: “É difícil mesmo para os bem-intencionados resistirem”, argumenta Wu.

Zuckerberg e a Corte

Antes de ser sabatinado pelos congressistas, na terça-feira (10), Zuckerberg deixou uma mensagem em sua página na rede social reforçando que estava disposto a “a fazer de tudo para tornar o Facebook um lugar onde todos possam ficar mais próximos das pessoas com quem se preocupam e garantir que a rede social seja uma força positiva no mundo”.

No Senado, em um depoimento de quase 5 horas, ele foi questionado por 44 senadores e teve o seu depoimento transmitido ao vivo e acompanhado por milhares de pessoas.

Mark explicou como o Facebook reagiu ao vazamento de dados e afirmou que a empresa vai investir para proteger melhor os usuários.

“Foi meu erro. Não tivemos a visão completa de nossa responsabilidade com o que aconteceu na época. Eu comecei o Facebook e essa é a minha responsabilidade”, argumentou o CEO.

No depoimento, ele deixou claro que as investigações internas continuam na empresa e que qualquer aplicativo suspeito, como o teste realizado pela Analytica, será banido da plataforma. Ele explicou que o Facebook não vende dados para terceiros, mas afirmou que os desenvolvedores de aplicativos também podem coletar dados de usuários.

Zuckerberg negou que a sua empresa representava um monopólio, porém, não soube responder qual era o seu maior concorrente. Ainda, explicou aos senadores como a plataforma ganhava dinheiro e deixou no ar que, talvez, pudesse vir a existir uma versão paga da rede social.

Os principais argumentos do depoimento de Mark Zuckerberg

O Facebook não vende diretamente dados para nenhuma empresa.
Todos os usuários sabem que o Facebook permite que os desenvolvedores de apps podem usar dados coletados no Facebook ao se conectarem com a plataforma.

Ao final do depoimento, o público que acompanhava a sessão questionou a qualidade das perguntas e a falta de conhecimento sobre o funcionamento da rede social por parte dos senadores.

Em um momento, por exemplo, um senador perguntou se os algoritmos do Facebook funcionariam “se eu estivesse enviando mensagens dentro do WhatsApp” e Zuckerburg explicou: “Nós temos um aplicativo chamado Messenger para enviar mensagens para seus amigos do Facebook. Os dados do Whatsapp são criptografados.”

Nas redes sociais, a pergunta do senador republicano, Orrin Hatch, sobre como o Facebook ganhava dinheiro viralizou. “Senador, nós temos anúncios”, respondeu Zuckerberg, surpreso ao precisar ter que deixar claro o que há de mais básico em seu modelo de negócio.

Na quarta-feira (11), o CEO foi novamente sabatinado, dessa vez por uma comissão na Câmara dos Deputados. O discurso de Zuckerberg permaneceu o mesmo do dia anterior e ele continuou a dar respostas evasivas, apesar dos questionamentos mais duros dos deputados.

O presidente da comissão, Greg Walden, questionou o executivo se o Facebook havia se tornado uma empresa de mídia e de serviços financeiros, por exemplo. Mas Zuckerberg limitou-se a responder que o Facebook era uma companhia de tecnologia.

Em outro momento, o deputado Frank Pallone pediu para que o CEO respondesse “sim ou não” para a pergunta: “Você está comprometido a mudar configurações no Facebook para minimizar a coleta de dados?”. A resposta de Zuckerberg foi:”Deputado, essa é uma situação complexa que precisa de mais de uma palavra.”

Questionado, ainda, sobre o sistema de vigilância do Facebook, ele respondeu que sempre há a possibilidade de deletar o seu perfil da plataforma.

“A diferença entre vigilância e o que fazemos é que o que fazemos é diferente. Você pode escolher que nós não coletemos suas informações, e você pode deletar seu Facebook. Não há organização de vigilância que eu conheça que você pode pedir para deletar seus dados”, defendeu.

Ainda na sessão, a deputada Kathy Castor pareceu conseguir ter deixar o CEO desconcertado com a sua sequência de perguntas:

O que esperar após o depoimento de Zuckerberg à Corte

Apesar de ter mantido o discurso de que o caso da Cambridge Analytica foge à regra do funcionamento de segurança da rede social, Zuckerberg deixou alguns dos questionamentos dos deputados sem respostas, como a questão dos perfis-sombras e a grande dúvida de como realmente confiar no Facebook, já que a empresa se autorregula.

Sobre o tema, Zuckerberg demonstrou abertura para discutir como lidar com as empresas que lidam com grandes bases de dados.

“Minha posição não é a de que não deve haver regulação, mas de que forma ela vai ser aplicada”, explicou.

A expectativa é de que os Estados Unidos crie uma agência regulatória sobre privacidade e proteção de dados pessoais, como já existe na Europa.

Entenda o contexto do vazamento de dados do Facebook

Marck Zuckerberg foi chamado para depor sobre o vazamento de dados privados de pelo menos 87 milhões de usuários da plataforma para a empresa Cambridge Analytica.

Em 17 de março de 2018, os jornais The New York Times e The Observer publicaram uma reportagem em que contavam como a consultoria britânica teve acesso aos dados dos usuários do Facebook. Mas essa história começou 4 anos antes.

Em 2014, por meio de um teste de personalidade chamado “This is Your Digital Life”, a Cambridge Analytica coletou informações não só das pessoas que aceitaram responder as perguntas do jogo, mas de milhares de outros usuários relacionados aos perfis que autorizaram o teste.

A grande questão da estratégia usada pela consultoria britânica, e que chocou analistas e usuários, é que para acessar os dados não foi preciso fazer nada ilegal.

A partir das regras de segurança do próprio Facebook, a empresa conseguiu acessar os dados dos usuários e de seus amigos e os efeitos disso ultrapassaram o domínio da própria rede social.

Em posse dos dados, a consultoria britânica foi capaz de construir uma aplicação que previa e influenciava, a partir de análise do comportamento dos usuários na rede, as decisões de eleitores na campanha de Donald Trump e do Brexit, ambos em 2016.

Após as revelações dos jornais, o Facebook chegou a perder 50 bilhões de dólares em valor de mercado. A empresa de Zuckerberg afirmou que suspendeu a conta da Cambridge Analytica da plataforma e que foi notificada sobre o vazamento dos dados ainda em 2015.

Ana Beatriz Rosa

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será divulgado


*


%d blogueiros gostam disto: