Ministro revela como foram últimos dias de Hugo Chávez

Ministro revela como foram últimos dias de Hugo Chávez

VENEZUELA

Cinco anos depois da morte de Chávez, Elías Jaua revela quais eram suas preocupações, esperanças e últimos desejos

Fania Rodrigues |
Mais de um milhão de pessoas recebem Chávez no encerramento de campanha no dia 4 de outubro de 2012
Foto: Minci/Venezuela

Elías Jaua era o vice-presidente da República da Venezuela quando o ex-presidente Hugo Chávez recebeu o diagnóstico de um câncer, em junho de 2011. Homem de extrema confiança de Chávez, Jaua sempre fez parte do primeiro escalão do governo e hoje é ministro da Educação do país. Em 2013, como ministro de Relações Exteriores, visitou Chávez três vezes em Cuba, onde ele se tratava do câncer que o levou a morte em 5 de março desse mesmo ano. Cinco anos depois,  Jaua revela, com exclusividade ao Brasil de Fato, como foram os últimos dias do ex-presidente venezuelano, as conversas que tiveram e quais eram as principais preocupações de Hugo Chávez.

“Durante minha primeira visita, no início de janeiro, falamos muito sobre o futuro da Venezuela. Chávez tinha a preocupação de que os Estados Unidos tivessem a intenção de nos levar a um cenário parecido ao da Síria e da Líbia. Ele dizia que teríamos que evitar cair em provocações, fazer todos os esforços para manter o caráter pacífico e democrático da Revolução Bolivariana”, recorda.

Segundo Jaua, o ex-presidente via nos organismos regionais uma saída para fortalecer os países latino-americanos. “Chávez me pediu que trabalhasse duro para que não houvesse uma debilitação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul)”, ressalta.

Preocupação interna

No entanto, a conjuntura da Venezuela era o tema que mais preocupava o líder venezuelano em seus últimos dias. “No final de janeiro de 2013, tivemos outra conversa. Ele estava bem, porém preocupado. Fez muitas perguntas sobre a política na Venezuela. Pediu que escrevesse um resumo de como eu vinha o cenário nacional. Ele estava muito apreensivo com o tempo eleitoral uma vez que sua morte demandaria a realização de um novo pleito”, destaca Jaua.

O ministro relata que Chávez parecia estar consciente que de estava em uma situação dramática e o pior cenário era o mais provável. Na ocasião, Chávez desenhou três cenários possíveis: “Um deles é que eu supere tudo isso, fique vivo e continue a frente do governo. O outro é sobreviver, mas ficar com sequelas e incapacitado para governar. E o último é morrer”. Nesse momento, Jaua conta que o ex-presidente teria feito “uma confissão humana”.  “Creio que o terceiro é o cenário mais provável”, disse Chávez, “e vocês precisam se preparar para isso”, concluiu, segurando a mão do ministro, que o acompanhara na política desde 1996.

A ideia da morte, no entanto, não o assustava. “Se isso ocorrer, eu vou muito tranquilo. Desejaria esse final para o libertador Simon Bolívar, morrer rodeado de companheiros como vocês, com minhas filhas, morrer querido pelo meu povo. Quero morrer no meu país. Vou preparar tudo para voltar a Venezuela. Qualquer que seja o cenário que aconteça na Venezuela”, afirmou Chávez ao ministro.

“Agora é com vocês. Apoiem a Nicolás como apoiaram a mim”, pediu o ex-presidente, encerrando sua última conversa sobre política com Jaua.

O ministro voltaria a conversar com o ex-presidente, um dia antes de sua volta à Venezuela, no dia 16 de fevereiro. Entretanto, foi sobre questões práticas. “Foi uma conversa técnica, sobre uma tarefa que cumpri em outros países, vendo alguns tratamentos. Voltei e expliquei a ele”, relembra Jaua.

“O comandante se foi”

Além do câncer, o ex-presidente Hugo Chávez havia contraído uma infecção respiratória. Fumante por muitos anos, ele tinha o pulmão fragilizado. Com o tratamento agressivo contra o câncer o organismo estava ainda mais debilitado e se tornou um ambiente propício para infecções.

Em 21 de fevereiro de 2013 o então ministro da Comunicação, Ernesto Villegas, atual ministro da Cultura, informou em cadeia nacional que Chávez padecia de uma insuficiência respiratória. Depois disso, os boletins médicos lidos pelos porta-vozes do governo relatavam apenas o agravamento gradual da saúde do líder venezuelano.

Na época, a imprensa venezuelana e meios de comunicação estrangeiros publicaram versões divergentes sobre a sobre a morte de Hugo Chávez. Alguns meios afirmavam que o presidente teve uma morte cerebral dias antes – e que os aparelhos que o mantinham vivo haviam sido desligados, com a autorização da família. Essa versão foi desmentida pelo ministro Elías Jaua. “No dia em que morreu nós o vimos, mas ele já estava inconsciente, em um coma induzido. Estávamos na sala de espera quando vimos o corre-corre de médicos. Nesse momento veio o chefe e nos avisou. ‘O comandante se foi’. Assim foi, aquele 5 de março, às 16h25 da tarde”, relata.

Batalha contra o câncer

Entre o primeiro diagnóstico de câncer e a morte do ex-presidente Hugo Chávez, passaram-se menos de dois anos. Os sintomas iniciais apareceram maio de 2011, com uma inflamação do joelho. Em junho de 2011, um tumor foi detectado na região pélvica e Chávez passou pela primeira cirurgia em Cuba.

Em setembro do mesmo ano, foram feitos novos exames e o câncer havia desaparecido. No entanto, em fevereiro de 2012 aparece pela segunda vez um tumor na mesma região. “2012 foi um ano muito complexo para todos nós que trabalhamos com o comandante Hugo Chávez. Quando aparece pela segunda vez o câncer, tivemos que encarar o fato de que o comandante estava enfrentando um momento difícil”, destaca Jaua.

Começa então uma verdadeira corrida contra o tempo. Era ano eleitoral e o presidente começava um novo tratamento. Cirurgia, depois quimioterapia e radioterapia. “Teve um dia que estávamos em seu escritório e Chávez nos disse: ‘Tenho dois motivos para viver, pelo menos mais esse ano. Ficar com minhas filhas e ganhar as eleições para que a oligarquia não volte a sentar aqui”.

Seu opositor nessa época era o governador do estado de Miranda, Henrique Capriles. Um jovem, com energia para percorrer o país e fazer longos discursos. Do outro lado um Chávez doente e em tratamento. “Foi uma campanha heróica. Entre imensas dores e o tratamento de quimioterapia conseguimos coroar a vitória em outubro de 2012”.

No encerramento dessa campanha, o ex-presidente venezuelano foi recebido por uma multidão no centro de Caracas. Mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas escutar aquele que seria o derradeiro discurso público do líder da Revolução Bolivariana. Entre chuva e pétalas de flores apareceu o candidato à presidência. Ele sorriu, cantou, dançou e discursou. Parecia uma despedida. E era. Até hoje as imagens desse dia são reproduzidas na Venezuela.

Porém, poucas semanas depois, a saúde de Chávez começou a se deteriorar novamente. Em novembro de 2012 foi identificada uma terceira reincidência do câncer. Com o organismo frágil, depois de ter sido submetido à três cirurgias, já era real a possibilidade que a doença pusesse um fim à vida do comandante da Revolução Bolivariana.

No dia 8 de novembro de 2012, Chávez faz seu último pronunciamento público em cadeia nacional de rádio e televisão e indica Nicolás Maduro como seu herdeiro político. Um mês depois de sua morte, em abril de 2013, Maduro foi eleito presidente da República.

15 de Abril de 201813:00

Via Brasil de Fato

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será divulgado


*


%d blogueiros gostam disto: