Nem artista, nem cientista. Quem era, de fato, Leonardo da Vinci?

Nem artista, nem cientista. Quem era, de fato, Leonardo da Vinci?

Faz 566 anos que Leonardo da Vinci nasceu.

Neste domingo (16), celebra-se o aniversário de nascimento de uma das figuras mais importantes para a História da arte e da humanidade. Leonardo da Vinci nasceu há exatos 566 anos.

Leonardo di Ser Piero da Vinci nasceu na Itália e se destacou por sua obra que transita por conhecimentos científicos, anatômicos, gráficos e matemáticos.

O “Homem do Renascimento”, contudo, está bem distante do mito sobre-humano que muitas vezes lhe é atribuído de modo idealizado. Talvez, a grande genialidade de Leonardo seja, sobretudo, a sua curiosidade infinita sobre o mundo.

Para tentar refletir um pouco mais sobre as características desse homem tão singular que marcou uma era, os professores e pesquisadores em História da Arte Eduardo Kickhofel e Luciano Migliaccio se debruçaram sobre os mais de 7 mil manuscritos deixados por da Vinci.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a dupla de pesquisadores destaca algumas das mais importantes passagens da vida e da obra do artista.​​​​​​

Leonardo da Vinci.

  • Eduardo Kickhofel é professor de História da Filosofia da Renascença na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unifesp.
  • Luciano Migliaccio é professor do Departamento de História da Arquitetura e Estética do Projeto da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade de São Paulo (USP) e curador adjunto do Museu de Arte de São Paulo (MASP).

Quem era, de fato, Leonardo da Vinci?

A pergunta segue sendo difícil de responder, mesmo para quem se dedica a pesquisar a vida e obra do artista por longos períodos. Apesar de extraordinária, pouco se sabe da vida mais íntima de Leonardo da Vinci.

“Ele era um homem muito fechado, apesar de ter escrito milhares de anotações em meio aos 7 mil manuscritos que chegaram até nós. Mas em nenhum momento ele conta nada sobre si próprio. Ele anota tudo, até coisas banais da sua vida, mas não sabemos nada de suas relações afetivas, por exemplo”, explica o professor Luciano Migliaccio.

A relação com a sua mãe é algo desconhecido. Ele era filho ilegítimo de um tabelião, um homem muito rico da cidade de Vinci, mas ele não chegou a conhecer a mãe ou conviver com ela. Porém, aparentemente ele a hospedou em sua casa quando morava em Milão, já mais para o fim da vida da mulher.

“No entanto, nunca achamos nenhuma memória sobre a mãe, a não ser uma conta, uma espécie de cálculo matemático que aparece em um de seus manuscritos e que foi atribuído ao pagamento do funeral dela”, destaca Migliaccio.

Nem artista, nem cientista, mas um artífice

Leonardo da Vinci não foi um artista, nem um cientista, como muitos estudiosos o classificam. Ele foi um artífice, para usar o termo da época. O artífice fazia esculturas e pinturas seguindo encomendas e contratos. Em poucas palavras, ele era um prestador de serviços.

“E não era o único. Não pense que o Michelângelo pintou o teto da Capela Sistina porque ele estava a fim. Ele o fez porque o Papa mandou e pagou a ele. Para nós, um artista é um sujeito que faz obras expressando a sua subjetividade. E isso não estava em jogo no Renascimento. Talvez o primeiro artista tenha sido o Francisco de Goya, no começo do século 19”, explica o professor Eduardo Kickhöfel.

Para o pesquisador, fala-se muito sobre Leonardo da Vinci e a sua relação com arte e ciência, mas nunca definiu-se o que era arte e o que era ciência no contexto da época.

“Para Leonardo, a arte se referia à ideia de conhecimento. Nos textos da época, a arte significava o conhecimento racional para produzir coisas. Para nós, arte é a obra de arte”, argumenta.

A ideia de obra de arte como entendemos hoje é recente, tem cerca de 200 anos e surgiu no final do Romantismo. “Na época de Leonardo da Vinci não havia a concepção de obra de arte, já que a arte tinha funções religiosas e cívicas”, defende o pesquisador.

Um exímio desenhista

“Leonardo da Vinci adota o desenho, a representação gráfica, que vem do seu saber de artista, como formalização também de um saber científico. Ele usa a representação gráfica como a formalização de uma experiência visual em favor da ciência.”

A definição do professor de História da Arte Luciano Migliaccio destaca que na época do Leonardo, graças ao estudo da perspectiva, se começava a entender que a representação gráfica também poderia ser submetida a uma razão matemática.

“O Leonardo era realmente um gênio, não há como negar que ele era fora do ordinário, e ele se aprofundou nesse método novo para contribuir com o saber científico. Ele colocou a experiência visual como centro também do conhecimento humano”, explica Migliaccio.

De acordo com ele, o desenhista não tem apenas uma habilidade manual. A graça da perspectiva é que ele pôde colocar um critério de verdade em sua representação.

“Isso revoluciona porque era muito diferente da concepção científica que se tinha anteriormente, em que os sentidos eram considerados enganosos”, destaca.

Estudos sobre as águas, Leonardo da Vinci (1473).

A curiosidade sem preconceitos

Talvez, Leonardo da Vinci nos surpreenda tanto porque a forma como vemos o conhecimento hoje é bastante especializada. Arte e ciência, por exemplo, são coisas muito distintas. Porém, no Renascimento, a divisão dos saberes era mínima, como explica Eduardo Kickhöfel.

“Naquela época, usava-se a palavra filosofia para qualquer conhecimento baseado em princípios e causas. Eu digo isso porque as artes faziam parte da parte prática da filosofia. As artes, no sentido da época, como conhecimentos, eram organizadas em princípios e causas tanto quanto a física, por exemplo. Então, era ‘fácil’ para uma pessoa transitar da arte para a ciência, e vice-versa.”

Para o pesquisador, Leonardo da Vinci destacou-se por seus interesses amplos, como a pintura e, sobretudo, o desenho, mas também um pouco da escultura, da anatomia óptica e física, e também das matemáticas.

“Mas ele não teve interesses em questões metafísicas ou práticas, como a ética. Uma personalidade como o Leon Batista Albertti, que também viveu no século 15, por exemplo, foi mais universal que o Leonardo. Mas o Leonardo tem algo de especial: ele é o nosso homem universal porque juntou a arte e a ciência do jeito como pensamos hoje”, destaca Kickhöfel.

O interesse genuíno pela anatomia

Para pensarmos nos desenhos de Leonardo da Vinci, sobretudo acerca da anatomia humana, é preciso fazer um retorno histórico. Não era proibido fazer dissecações de cadáveres no século 15, mas também não era uma coisa tão fácil. Desde o século 14, esse tipo de procedimento em espaços como a universidade está bem documentado em textos históricos.

Porém, as dissecações seguiam uma espécie de ritual. Lia-se um texto escrito por um médico de Bologna que orientava o processo. Quem tocava no corpo, por exemplo, era uma pessoa mais baixa da cátedra, considerado “o indigno”. Os médicos, por exemplo, não se aproximavam do cadáver.

“Naquele momento, não havia a ideia da pesquisa, não existia dissecar um corpo para descobrir alguma coisa. Era um ritual”, explica Eduardo Kickhöfel.

Por isso, o conhecimento anatômico da época era transmitido, sobretudo, por meio de textos. Não havia ilustrações anatômicas. E foi o Leonardo da Vinci que, no fim do século 15, começou a desenhar os corpos. Pode-se dizer que ele “inventou” a ilustração cientifica.

O crânio seccionado, Leonardo da Vinci (1489).

“Leonardo não tinha medo ou preconceito de sujar as mãos. Ele investiu sua curiosidade na anatomia, dissecou mais de 100 corpos e descobriu coisas novas ao expressar o seu conhecimento por meio de figuras. Depois, ele se dedicou a estudar o desenho das rochas e dos movimentos das águas, também”, destaca Kickhöfel.

Esquema do corpo humando (esquerda), desenho de 1501. Crânio seccionado (direita), desenho de 1489 de Leonardo da Vinci.

Para Leonardo, observar o mundo era sempre uma oportunidade de aprender.

“Em certa anotação em seus manuscritos, ele conta ter conhecido um senhor mais velho que vivia no hospital de Florença e que dizia ter mais de 100 anos. Ele esperou a morte desse idoso para verificar o efeito da velhice na anatomia humana. Isso nos deixa maravilhados e espantados ao mesmo tempo. Ele tinha uma relação com esse idoso, mas ainda assim ele vê o homem como uma fonte para aprender algo que até então ele não poderia ter aprendido. É uma curiosidade imensa”, compartilha Luciano Migliaccio.

Sobre Mona Lisa e Santa Ana…

Talvez, se um dia você teve a oportunidade de visitar o Museu do Louvre, em Paris, você tenha ficado preso à imagem da Mona Lisa, como tantos outros turistas, em busca da selfie perfeita.

Porém, para Kickhöfel, uma das pinturas mais significativas de Leonardo da Vinci encontra-se no mesmo museu, mas não tem a mesma popularidade que a Mona Lisa.

Preste atenção na imagem A Virgem, o Menino e Santa Ana.

A Virgem, o Menino e Santa Ana, Leonardo da Vinci (1513).

Gosto dela porque é uma bela síntese da obra de Leonardo, apesar de ser uma pintura ainda incompleta. Nela, Leonardo colocou de modo pintado, o que pode parecer estranho, as suas concepções acerca da luz, das camadas, das rochas, da anatomia e dos seus estudos de plantas. É muito mais completa do que a Mona Lisa, na minha opinião.

Ana Beatriz Rosa

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