Resistência trans: a arte de quem ousa existir além das aparências

Resistência trans: a arte de quem ousa existir além das aparências

Diversidade

Artistas trans vem ocupando espaços cada vez maiores no mundo da música, da dramaturgia e da literatura

Michele Carvalho |
A rapper Alice Guél
Jefferson Lucas

Olhar no espelho e não se reconhecer nas feições, curvas ou cabelos refletidos. Habitar um corpo que não corresponde aos desejos e as aspirações do existir e do fazer.

“Para mim eu estava fantasiada de menino até 9 anos. 
Nove anos com uma fantasia quente, pinicante. 
A maquiagem não é para reforçar isso? Eu sou uma menina!!
Não! Eu sempre me senti menina, independente de maquiagem”

Alice no País que mais Mata Travestis – Alice Guél

Como transbordar quem se é de verdade? Emergir das várias e várias camadas de regras e comportamentos esperados e aceitos pela sociedade? Esse parece ser o sentido dado à vida por pessoas que se descobriram ser de um sexo diferente daquele que nasceu.

Pessoas como a rapper Alice Guél! Quando criança, decidiram que ela, ainda em um corpo que não era seu, devia jogar futebol, mas foi o balé que fez seu coração bater. A cantora diz, que a dança cumpriu um papel importante na sua formação, mas ela sentia que precisava extrapolar os limites que lhe foram dados.

“Eu sentia a necessidade de expressar meu corpo fora do que me davam no balé, fora do que me davam no contemporâneo, para fora disso, eu queria mais, sabe? E outra, acho que essas minhas inquietações vieram junto com o meu processo de se assumir travesti socialmente”.

“Cês nem tão ligado que eu passei no deserto
Sem apoio de amigos, ou Estado, certo?
Agora destruo padrão sem dó, nem piedade
Niguém segura as travas, [?], sociedade”

Trecho da canção “As coisas vão mudar “ – Alice Guél

Foi nas rimas e na batida do rap, que Alice encontrou uma forma de falar sobre as dores que sempre foram caladas.“Mas eu sinto que o rap é o grito da periferia, o grito do movimento negro e é o grito dessas pessoas que sempre quiseram dizer e sempre foram bloqueadas, caladas. E agora, eu sou apaixonada, muito, muito, muito mais apaixonada pelo rap, faz muito sentido para mim agora, tudo isso”, explica.

“Pela Deusa Travesti
A deusa dos corpos que querem resistir
Deus é travesti
A deusa dos corpos que querem existir”

Trecho da música Deus é Travesti – Alice Guél

Alice quer resistir, tem sede de se superar cada vez mais. Talvez, isso explique de onde vem a força para encarar com firmeza a tarefa de ser uma mulher trans nos microfones do rap, de se mostrar do jeito que ela é, mesmo a sociedade esperando alguém diferente.

“Eu quero superar a estatística, eu quero superar a ideia de que mulher não pode cantar, eu quero superar a ideia de que a mulher não pode ter força, eu quero superar a ideia de que travesti não pode cantar, eu quero superar que travesti não pode gerar conteúdo, gerar educação, gerar arte, gerar falas”, afirma.

Já o lugar de resistência de Bárbara Aires é o universo da dramaturgia. No currículo, a atriz e produtora coleciona trabalhos em peças de teatro, em novelas, programas de auditório e até uma menção honrosa por sua participação no curta metragem Mercadoria, do Coletivo Carne e Osso.

Bárbara explica que não é possível separar a militância da sua arte. Apesar de sentir que as portas vêm se abrindo cada vez mais para o trabalho dela, sabe que nem todos os artistas têm o reconhecimento necessário.

“A gente tem pessoas trans que são produtoras de teatro, pessoas trans que são figurinistas, pessoas trans que são musicistas. Para que em todas as áreas artísticas, que a gente tenha esse olhar de tentar incluir a diversidade, para que a gente consiga quebrar essa barreira do trabalho, do emprego para as pessoas trans.”

“Mas não se esqueça
Levante a cabeça
Aconteça o que aconteça
Continue a navegar”

Trecho da música Serei A – Linn da Quebrada

Abrir brechas e espaços para que a sociedade aprenda a respeitar as pessoas trans. Era esse o desejo de Amara Moira, mulher trans e escritora, quando iniciou sua tese de doutorado, na Unicamp, a Universidade Estadual de Campinas, ao mesmo tempo em que ela começa a se descobrir como outra pessoa.

“E a partir do momento que eu começo a transição, eu começo a sentir a necessidade de que exista esse diálogo. Eu queria produzir algo que dialogasse com a sociedade, que transformasse a sociedade, que tensionasse as suas resistências, as suas práticas discriminatórias”, lembra.

Então nasce “E se eu fosse puta”, um livro com as memórias e experiências de Amara como prostituta. Como resultado, ela recebeu respostas de alguns de seus leitores e leitoras. Pessoas que, por meio dos relatos do livro, conseguiram enxergar aqueles que vivem às margens da sociedade, de uma maneira diferente.

Mas como Amara não quer mais ser colocada em caixinhas pré-definidas, ela explica que os seus relatos também buscam alcançar diferentes públicos.“Não é uma obra apenas militante! Eu me esforcei muito para tentar casar o propósito militante, junto com o propósito literário, estético. “É como se juntasse um pouco do que eu fui, com um pouco do que eu me tornei”.

Além de Alice, Bárbara e Amara, outras e outros também vem superando as barreiras, ocupando lugares e marcando presença. A lista é grande: As Bahias e a Cozinha Mineira, Liniker, Lin da Quebrada, Maria Clara Spinelli, Gabriela Loran, Danna Lisboa, Carol Marra…

“No chão de pista, apareço de salto
Frenetic, feito tigresa braga
Meto na cara maquiagem brega
Canto de galo à luz da madrugada”

Trecho da música “Dama da Night – As Bahias e a Cozinha Mineira

12 de October de 201807:30

Via Brasil de Fato

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