Rescaldos da onda e os caminhos para virá-la

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Redação |
Resumo traz indicações de leituras e informações selecionadas para o leitor do Brasil de Fato
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Reproduzimos abaixo a edição mais recente do Ponto, enviada em 12 de outubro de 2018.

Olá,

Nesta semana, analisamos as estratégias de Haddad e Bolsonaro para o segundo turno, mas não deixamos de olhar mais detalhadamente para alguns protagonistas do primeiro turno: fake news, WhatsApp e violência. Também falamos sobre o pacote de retrocessos que está no Congresso esperando votação e, no Boa Leitura, selecionamos algumas sugestões de como virar o voto e dialogar com os eleitores de Bolsonaro. Vamos lá!

Contra o relógio. O segundo turno será a eleição entre um candidato que se apresenta como antissistema contra o candidato que representa a antiexploração, na análise de Alberto Carlos Almeida. Mais do que defensor dos direitos, a candidatura Haddad quer se apresentar como defensora da democracia e construir uma frente mais ampla em torno dela. Só que isto não significa apenas a adesão (prevista) do PDT e PSOL. Significa também alterar pontos da campanha petista e acenos para outros setores, mais moderados e até fora do espectro tradicional do partido, como o PSDB ou os evangélicosCatólicos e praticantes de outras religiões também são um terreno a ser conquistado pela campanha. E, numa eleição que parece ter sido decidida pelo WhatsApp, os petistas devem dar mais atenção às redes sociais a partir de agora.

Na prática, a recomendação é que Haddad vai ter que ser “menos PT” e mais “frente democrática”. Para o professor de Filosofia Marcos Nobre, “o partido de Lula tem agora o ainda mais raro privilégio de renascer pela segunda vez. Só que desta vez vai sobreviver apenas se se mostrar maior do que é”. Mais duro, Antônio Martins diz que a hora não é de focar no passado, mas de apresentar propostas de mudanças reais na vida das pessoas.

Trocando em miúdos, Lula terá menos espaço na campanha e o partido vai ter que entrar com mais convicção em temas como a segurança pública e corrupção. Haddad, inclusive, manteve uma reunião com Joaquim Barbosa. O desafio de Haddad é duro, mas não impossível. A Folha lembra que movimentos de virada no segundo turno são raros, mas existentes. Para o jornal paulista, o petista precisaria reconquistar segmentos da classe média, principalmente no Sudeste, que se mostram pendulares, especialmente os setores intermediários que cresceram com o lulismo. As classes altas já seriam uma causa perdida.

Retranca. Bolsonaro está jogando na retranca. Não vai a debates, por suposta recomendação médica, embora participe de atos públicos. Sua campanha tenta se consolidar nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde foi bem no primeiro turno, e avançar para o Nordeste. Seu primeiro programa de TV deste segundo turno segue as linhas mestras da campanha: discurso moralista sobre corrupção, medo do comunismo e uma tentativa de suavizar a imagem tradicionalmente grosseira.

Discurso sobre violência. Falando em suavizar a imagem, é interessante observar as declarações erráticas de Bolsonaro sobre a escalada de violência praticada por seus apoiadores. De acordo com levantamento da Agência Pública, já seriam mais de 50 casos em todo o País. O Opera Mundi chegou a publicar um mapa das agressões com motivação política, a grande maioria praticada por seus eleitores. Diante da morte do mestre de capoeira em Salvador, Bolsonaro disse que lamentava o que chamou de “excesso” e disse não ter controle sobre seus apoiadores, mas depois mudou o discurso e disse dispensar votos de quem pratica violência.

Fim de Feira. Alckmin e Marina. No futuro, poucos lembrarão que estes dois já foram considerados presidenciáveis com chances de vencerem as eleições. A onda de tornar o primeiro em segundo turno desidratou rapidamente os dois candidatos. A carreira política de Marina deve ter terminado por aqui, pelo menos nacionalmente. Não se sabe o que será do seu partido, já que ele não atingiu a cláusula de barreira e não terá direito ao fundo partidário. Já o PSDB viu o PSL assumir seu lugar no espectro da direita e como porta-voz do antipetismo. O partido venceu em 98,7% dos municípios que foram dominados pelo PSDB nas eleições para presidente de 2006, 2010 e 2014. Além do fracasso eleitoral, os tucanos também estão em guerra civil aberta, com direito a lavar roupa suja em público. Independente de quem ganhe a queda de braço do comando, o PSDB vai ter que se reposicionar nos próximos anos: ou avança ainda mais seu discurso de direita para reconquistar o território perdido ou vai ter que retroceder para achar um espaço ao centro. Já o PSL deixa a estatura de nanico para assumir a segunda maior bancada da Câmara. Entre eles, estão desde militares, que chegaram a 70 eleitos no total, e figurinhas carimbadas do impeachment. Mas o The Intercept lembra que a bancada conservadora não se restringe ao PSL. Entre as pautas dos eleitos estão classificação de movimentos sociais como terroristas, redução de maioridade penal (em alguns casos, até para 14 anos), adoção da prisão perpétua no país e proibição de partidos políticos de esquerda.

RADAR

A nova fronteira das fake news. A revista Vice fez uma boa reportagem sobre o fenômeno do “firehosing”, algo como o efeito de uma mangueira de bombeiro, em que mentiras são espalhadas continuamente e em grande volume, tática executada pela extrema-direita em todos as disputas recentes em todo mundo. Mas isso não é novidade. A novidade, para se ficar de olho, é que o PSL já tem conta em uma plataforma que reúne a extrema-direita mundial, fora das redes sociais mais conhecidas, chamada pela mesma Vice de “paraíso de neonazistas e supremacistas brancos” dos EUA. A campanha do deputado também está publicando seus vídeos em um aplicativo quase particular, que segundo relatos virou uma máquina de produzir fake news.

O jogo foi pesado. Como dissemos no título da edição anterior, o jogo foi pesado mesmo. Coação de empresários sobre funcionários, entrevistas amistosas em emissoras de TV, com o TSE fazendo cara de paisagemfarta distribuição de notícias falsas e, principalmente, uma “ordem unida” no WhatsApp nos últimos dias do primeiro turno criaram a onda. O TSE, que anunciou com pompa e circunstância que combateria as fake news, falhou: apenas no dia 6 de outubro, véspera do primeiro turno das eleições, determinou a retirada de 35 informações falsas de sites e do Facebook. Só agora, também, o tribunal descobriu que é difícil controlar a boataria pelo WhatsApp. E, apesar de Fux ter dito lá atrás que as eleições poderiam ser até canceladas se fruto de notícias falsas, hoje os ministros minimizam a influência das mentiras nesta eleição. Esta seção tem como objetivo apontar tendências, mas essa retrospectiva é importante porque, já está bem claro após uma semana de segundo turno, que tudo está se repetindo e tende a se agravar.

Normalizar o fascismo. Um processo que já vem de antes, mas se acentuou na reta final do primeiro turno e cresceu no segundo turno, é a normalização de Bolsonaro por parte da imprensa, como aponta a newsletter da Ponte, site sobre direitos humanos e segurança: “veículos de imprensa aos poucos começam a se mostrar mais condescendentes em relação ao capitão, como se sua candidatura fosse igual a qualquer outra”, diz o texto. Uma prova é a pouca cobertura dos grandes jornais sobre a escalada de violência. Apenas nesta sexta (12) a Folha publicou uma reportagem sobre o assunto. Parte da imprensa já discute formação de ministério e medidas econômicas, e o discurso de Bolsonaro contra as minorias e contra o próprio processo democrático vai ficando na conta da “polarização”, como se o deputado do PSL fosse o oposto de Haddad, critica Jânio de Freitas na Folha. Mas muitas vozes também se levantam contra essa normalização, e um dos bons textos que circularam nesta semana é o do jornalista Denis Burgierman: “Isso que está acontecendo no Brasil é fascismo, não tem outro nome”.

Que las hay, las hay. As Forças Armadas receberam nesta semana uma doação do exército dos Estados Unidos de 96 blindados usados. Segundo o Ministério da Defesa, eles “reforçam o poder de fogo e do combate terrestre do Exército”. Essa não é a primeira vez que o Brasil recebe equipamentos do exército americano, que periodicamente faz doações a nações amigas ao renovar seu arsenal.

Fissuras. As elites parecem fechadas com Bolsonaro, mas há sinais de fissura e controvérsia. O presidente da Associação de Fabricantes de Veículos se queixou que o candidato procura mais o mercado financeiro que o setor produtivo. Na Folha desta sexta, o colunista de agronegócio aponta preocupações no setor diante do radicalismo do candidato e de suas propostas pouco claras e um tanto aleatórias.

RETROCESSO DIÁRIO

O golpe continua. Terminada as eleições parlamentares, o atual Congresso ainda tem um pacote de maldades em pauta que devem ser retomadas após o segundo turno. O The Intercept elencou todos os retrocessos que estão prontos para serem votados: privatização da Eletrobrás, mega-leilão de blocos do pré-sal, liberação dos agrotóxicos, etc. E, claro, a Reforma da Previdência. Há pressão do capital financeiro para que a Previdência volte à pauta ainda este ano e, como informamos em edições passadas, emissários de Temer já teriam conversado desta possibilidade com a equipe de Bolsonaro, caso o deputado vença o segundo turno, para tirar este peso do início de um hipotético mandato. Por hora, o presidente do Senado, Eunício Oliveira, diz que nada irá a pauta antes de se definir quem será o próximo presidente da República. Eunício inclusive defende que o próximo eleito é que apresente a sua própria proposta de reforma e que a reforma de Temer não seja votada.

Queda. O FMI rebaixou novamente a expectativa de crescimento da economia brasileirapara este ano e o seguinte. Em abril, o Fundo previa que o Brasil cresceria 2,3% em 2018 e 2,5% em 2019. Agora, a estimativa é de que o PIB brasileiro cresça apenas 1,4% neste ano e 2,4% no próximo. O FMI estima ainda que a taxa de expansão do Brasil deve ser de 2,2%, mas somente a partir de 2023.

VOCÊ VIU?

Quarta-feira de Cinzas. Nesta quinta (11), Jair Bolsonaro comparou o número de mortos na ditadura com o de vítimas do Carnaval. Em entrevista à CBN, o candidato disse que “comparar o que aconteceu entre 1964 e 1985 a uma ditadura é o fim da picada. Desapareceram 400. Morreram pessoas em que circunstâncias? Hoje morre isso no Carnaval e não se fala nada”.

Lama. A Quarta Turma do TRF-1 atenuou a acusação contra um executivo da Samarco e trancou a ação penal em relação a outro. A medida poderá se estender aos outros 19 funcionários da Samarco acusados de homicídio com dolo eventual pela morte de 19 pessoas na tragédia de Mariana (MG).

É BOATO

As 10 mais. Jogos da Copa que viraram atos pró-Bolsonaro, urnas fraudadas e absurdos envolvendo crianças estão entre as notícias falsas mais compartilhadas do primeiro turno. Um bom antídoto contra as fake news é usar o site do projeto Comprova, consórcio de jornais que tenta correr atrás da torrente de notícias falsas.

BOA LEITURA

Virar votos? Reflexões e manuais práticos. A avalanche Bolsonaro no primeiro turno fez aumentar o número de textos tentando explicar as estratégias discursivas e, por que não, psicológicas da extrema-direita. Um dos mais compartilhados foi “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada”, no qual o autor explica as relações da campanha Bolsonaro com Steve Bannon, o homem que arquitetou o discurso que se impregnou na sociedade norte-americana e acabou elegendo Donald Trump. O autor aprofunda suas ideias em entrevista ao Brasil de Fato. A questão é fundamentalmente psicológica: “a história de que as emoções, especialmente o medo e o ódio, mobilizam mais que qualquer programa político”,escreve um articulista do jornal El País sobre como Bolsonaro é parte de uma onda mundial da extrema-direita. “A pessoa o está escolhendo pelo ‘não’. O que vem depois do ‘não’, não importa a este ponto. Se não for o PT, então tem que ser melhor que o PT”, reflete o professor de Comunicação da UFBA, Wilson Gomes. No site do Nexo, a pesquisadora Esther Solano sistematiza o perfil do eleitor de Bolsonaro que foge ao estereótipo do fascista, dando pistas de como dialogar com estas pessoas. Entender a pessoa e respondê-la sem confronto, é o que propõe este “manual prático”. Na mesma linha, um jornalista e cientista político questiona algumas das estratégias discursivas na internet adotadas até agora pelos progressistas, entre elas não mencionar o nome do candidato.

Por que votamos em Hitler. “Hitler não chegou ao poder porque todos os alemães eram nazistas ou anti-semitas, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo, disseminando-se entre os alemães porque o povo estava disposto a minimizá-lo. Antes de muitos perceberem o que a maquinaria fascista do partido governista estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais.” Artigo no site do El País.

Ainda o discurso. Limitações e deficiências do discurso do deputado são, na verdade, sua maior vantagem para unificar eleitorado, analisa Rafael Tatemoto no Brasil de Fato.

Corrupção. “A luta contra a corrupção tem sido deturpada pelo discurso moralizante conservador, que trata o fenômeno por meio de interpretações essencialistas, como o ‘caráter’ de um povo, uma classe ou um partido. Em grande medida, a causa para que isso ocorra é o vácuo narrativo deixado pela própria esquerda, que não faz autocrítica e não se apropria da discussão para recolocá-la no rumo correto”, escreve a cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado.

Cortina de fumaça. Para o filósofo Vladimir Safatle, enquanto a sociedade discutia os temas morais e identitários das declarações de Bolsonaro, o seu programa econômico passava propositadamente despercebido. Para Safatle, o debate com Bolsonaro não passa por argumentação, mas de “mobilização de afetos (…) você não argumenta contra afetos, mas os desconstitui. É um processo diferente. Afetos não são irracionais, no entanto. Eles têm uma dinâmica própria, e devem ser compreendidos na sua especificidade”.

Covardia. Cientista político do CEBRAP Fernando Limongi não poupou o ex-colega FHC pela posição de neutralidade no segundo turno. Para Limongi, “Isso é uma covardia inadmissível”. Na entrevista ao El País, o cientista também analisa o crescimento da direita e a incapacidade das instituições para lidar com a escalada do autoritarismo.

Gabarito. Em edições anteriores já trouxemos indicações de leitura sobre o livro “Como as democracias morrem”, de Steven Levitsky. O jornalista Breno Costa, em seu Facebook, resumiu o questionário feito pelo autor para apontar se um candidato representa ou não perigo à democracia. Bolsonaro gabaritou. Há um vídeo em que o próprio autor expõe seus argumentos. E na frente de FHC, que até o momento se mantém neutro no segundo turno.

Obrigado por nos acompanhar até aqui. Voltamos na próxima semana! Não esqueça de recomendar aos amigos, encaminhando este e-mail ou sugerindo a inscrição na newsletter.

13 de October de 201810:43

Via Brasil de Fato

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