Bolsonaro e Escola Sem Partido querem educação que “ensine ideologia da direita”

Bolsonaro e Escola Sem Partido querem educação que “ensine ideologia da direita”

CENSURA

Em entrevista, José Fiorin, afirma que “as pessoas não sabem o que é ideologia” e teme que educação seja silenciada

Juca Guimarães |
“Eles não sabem o que é ideologia. Não foi sem razão que eles chamaram Escola Sem Partido. Na verdade, é sem partido de esquerda”
FFLCH/USP

A radicalização proposta nos diversos projetos de lei da chamada Escola Sem Partido é um dos pilares do plano de governo do candidato Jair Bolsonaro para a educação no Brasil, que aborda de maneira vaga e denuncista a situação educacional do país, fazendo propostas contra o que qualifica de “sexualização precoce” das crianças e “ideologização do ensino”, ignorando décadas de acúmulos e demandas dos professores. Com isso, educação pública no Brasil pode sofrer um revés significativo, com a imposição de um modelo de ensino sem espaço para a solidariedade e o debate de ideias, “levando para uma formação abstratizante”.

Essa é a opinião do linguista José Luiz Fiorin, um dos maiores especialistas brasileiros em Pragmática, Semiótica e Análise do Discurso. Ele conversou com Brasil de Fato sobre as ideias da campanha de Jair Bolsonaro para a educação. Fiorin também é autor do livro “O que é ideologia”, da editora Contexto, e foi chefe do departamento de Linguística da USP. 

Confira, nesta segunda-feira (15) de Dia do Professor, a entrevista de Fiorin sobre a suposta “ideologização do ensino”.

O que tem de mais grave na ideia do Escola Sem Partido?

A Escola Sem Partido diz que tem que ensinar aquilo que está de acordo com a posição dos pais. Posição política, posição ideológica, embora eles digam que não. Significa que a escola vai deixar até de ser um espaço de aquisição de conhecimento porque se um pai acredita que o evolucionismo não é teoria científica e que o criacionismo tem que ser ensinado junto com o evolucionismo, então a escola vai desaparecer porque até o que é do conhecimento comprovado vai estar sendo posto em questão.

Existe então um silenciamento do professor?

Sem dúvida nenhuma, o professor vai estar submetido aos pais na escolha do conteúdo. Isso é um cerceamento enorme da seleção e conteúdo, da seleção de temas a ser discutido na escola. Ora, um pai pode escolher em que escola vai matricular o filho. A escola púbica tem uma orientação curricular feita pelas secretarias de educação dos estados e, no caso das municipais, pelo município. Um pai que quiser uma escola diferente que procure uma particular que ensine o conteúdo tal. Mas crecear o que o professor pode ensinar isso é um disparate.

Brasil de Fato: O que está por trás dessa proposta de Escola Sem Partido, de escola sem ideologia?

Na verdade, a palavra ideologia ganhou um sentido negativo. Ideologia é o posicionamento político do outro. Hoje a direita diz que não tem ideologia, ou seja, eles tomam a ideologia como se fosse alguma coisa não verdadeira e, em oposição a isso, existe a verdade que é a adequação do discurso à realidade. 

O que é ideologia então?

Ideologia compreende valores. Eu acho que aí está havendo uma ‘mistureira’ de coisas. A escola precisa sempre estar ao lado dos valores da igualdade, da solidariedade e da liberdade. Levar em conta estes valores e discutir esses valores não é fazer propaganda política para um candidato. Acho que essas coisas vão se misturando todas nessas discussão.

O que tem de mais grave na ideia do Escola Sem Partido?

A Escola Sem Partido diz que tem que ensinar aquilo que está de acordo com a posição dos pais. Posição política, posição ideológica, embora eles digam que não. Significa que a escola vai deixar até de ser um espaço de aquisição de conhecimento porque se um pai acredita que o evolucionismo não é teoria científica e que o criacionismo tem que ser ensinado junto com o evolucionismo, então a escola vai desaparecer porque até o que é do conhecimento comprovado vai estar sendo posto em questão.

Existe então um silenciamento do professor?

Sem dúvida nenhuma, o professor vai estar submetido aos pais na escolha do conteúdo. Isso é um cerceamento enorme da seleção e conteúdo, da seleção de temas a ser discutido na escola. Ora, um pai pode escolher em que escola vai matricular o filho. A escola púbica tem uma orientação curricular feita pelas secretarias de educação dos estados e, no caso das municipais, pelo município. Um pai que quiser uma escola diferente que procure uma particular que ensine o conteúdo tal. Mas crecear o que o professor pode ensinar isso é um disparate.

O que é a escola?

(2:16) A escola é um espaço de aquisição de conhecimento, mas também é um espaço de socialização e, portanto, de aquisição de valores. E se as pessoas [da Escola Sem Partido]  estão pensando que a escola não pode ensinar os valores da igualdade, da solidariedade e da verdade  então, a escola perdeu o sentido. 

Então o que justificaria essa proposta?

Eles têm insistido no fato de que os professores têm feito campanha política para determinado candidato. Eu nunca vi nada disso em 50 anos de magistério. Além disso, é uma inverdade quando falam a respeito disso. Agora é uma coisa gozada, porque esses são os liberais. Em economia, eles querem diminuir o Estado, mas o liberalismo teria que ter uma contraparte, o Estado não poderia se meter nas coisas relativas nas coisas particulares dos indivíduos. Ora, o que parece, no fundo, quando falam de ideologia de gênero etc. é medo de discutir a sexualidade e a política na escola. Esses são os dois grandes elementos que a Escola Sem Partido procura barrar.

Também tem a proposta de revisão dos processos curriculares. Seria possível ensinar filosofia e história sem ideologia?

Eu diria o seguinte, toda visão da história é uma maneira de contar a história e, portanto, toda visão da história é informada por uma ideologia e determinados valores. Então a história também é informada ideologicamente. O que a Escola Sem Partido pretende fazer é uma escola que ensine a ideologia da direita. 

Um aluno formado num ambiente desses vai ter dificuldade em aprender, a fazer escolhas ou se posicionar, se organizar politicamente no futuro?

Não sei se ele vai ter dificuldade ou se vai ser formado segundo os parâmetros que as pessoas estão pretendendo formar atualmente, não sei o que vai acontecer. Eu tenho preocupação com o cerceamento dos professores e com o fato de que, para mim, a escola tem que estar do lado dos valores da liberdade, da igualdade e da solidariedade.

Os apoiadores do Escola Sem Partido criticam muito o Paulo Freire, pois ele criou um modelo de ensino que respeita o aluno e o seu processo de aprendizagem.

Eles são contra o Paulo Freire porque ele criou uma educação ligada ao cotidiano do aluno. Isso é uma coisa que incomoda esse pessoal. Se pretende uma educação mais abstratizante, onde eu não remeta a discussão às condições reais de vida dos estudantes. 

Seria então um projeto para a alienação?

É…talvez pudesse dizer isso. Eu diria, não assim. Estamos numa época em que as pessoas usam as palavras para se atacar mutuamente. Eu prefiro não usar mais determinadas palavras. Eu diria que é uma visão abstratizante do mundo. Se você chama isso de alienação, é. Mas eu, acho que precisamos apaziguar um pouco o país. 

O senhor acha que deveria ser ensinado o conceito de ideologia nas escolas?

Ensinar o que é ideologia? Para mim, a escola está assentada em determinados valores. E ela tem que perseguir esses valores. Ela tem que defender esses valores, ela tem que transmitir esses valores. E é isso que estamos chamando de ideologia. Acho que está havendo uma inversão, as pessoas, na verdade, não sabem o que é ideologia. Não foi sem razão que eles chamaram Escola Sem Partido. Na verdade, é sem partido de esquerda.

15 de October de 201811:30

Via Brasil de Fato

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