Artigo | A disputa dos símbolos nacionais nas eleições 2018

Artigo | A disputa dos símbolos nacionais nas eleições 2018

Verde e amarelo

Bandeira nacional já fez parte da campanha de Lula e Dilma e estratégia não se opõe ao suposto patriotismo de Bolsonaro

Olívia Carolino Pires* |
A candidatura de Fernando Haddad e Manuela D’Avila significa a entrada do povo na história da construção nacional
Foto: Reprodução

No segundo turno a coligação o Povo Feliz de Novo PT/PCdoB/PROS apresenta nova identidade visual da campanha com as cores e com referência aos símbolos nacionais. É importante pontuar que a referência a bandeira nacional já fez parte da identidade da campanha Lula e Dilma e essa estratégia não esta se opondo ao suposto patriotismo da candidatura de Jair Bolsonaro.

Assumir o verde, amarelo, azul e branco é um retorno ao vínculo com o povo brasileiro. Não há uma oposição entre avermelhar a campanha e assumir as cores e símbolos nacionais.

Se fascismo e questão nacional têm relação na história, a questão nacional na América Latina assume especificidades a partir das contradições de seu processo histórico de desenvolvimento capitalista que queremos brevemente tratar nesse artigo.

A nação é inviabilizada na formação social e econômica do Brasil pela inexistência de uma base material para a sua construção como destaca as interpretações de quem pensou radicalmente a economia brasileira indo à raiz dos problemas como a Teoria da Dependência e a do subdesenvolvimento. Se expressa também na política a deformação na formação do Estado Nação. Autores como Florestan Fernandes vão se referir a um Estado Nação deformado pela relação a como o capitalismo resolveu a equação Estado–povo–nação. Como consequência temos uma democracia asfixiada e restrita.

Se atualmente a crise mundial aumenta a contradição entre a necessidade de aumento da exploração e a democracia liberal burguesa, mais dramática é a situação de estreitamento das margens democráticas em países em que a política estruturalmente é um privilégio. 

A peculiaridade da questão nacional está relacionada às aspirações gerais do povo de constituir-se em nação, e que foi pano de fundo nos Movimentos de Independentistas no início do século XIX. Ao esvaziar a luta emancipatória de seu sentido nacional na medida em que o povo não participou, as tarefas não realizadas no processo de Independência reaparecem. A aldeia de Canudos (1896) e o movimento tenentista junto à semana de arte moderna de 1922 são exemplos da aspiração profunda do povo brasileiro entrar na história organizado enquanto classe e construir-se enquanto povo-nação. O povo brasileiro depositou na urna suas aspirações de se construir enquanto tal votando quatro vezes em governo popular na nossa recente democracia. Lula é uma ideia portadora dessas aspirações populares e expressa a necessidade do povo brasileiro desenvolver seu real potencial.

A candidatura de Fernando Haddad e Manuela D’Avila significa a entrada do povo na história da construção nacional. A disputa das eleições 2018 traduz a possibilidade de um desenvolvimento nacional e soberano que supere a condição de nação inacabada.

Bolsonaro não lidera um projeto nacional, sua candidatura lidera forças de extrema direita na sociedade, de uma burguesia tacanha, sem projeto, entreguista e dependente.

Se é verdade que a esquerda hegemônica educou o povo para participar por meio de processos eleitorais em detrimento de movimentos de massas, parcela da indignação popular hoje tem encontrado como forma de se manifestar a intolerância e a violência.

O que é uma nação? Esse foi o título de uma conferência pronunciada por Ernest Renan, em 1882. Na ocasião formulou a ideia de nação como uma grande solidariedade, constituída pelo sentimento dos sacrifícios que se fizeram e que ainda se fariam. O autor sintetiza da seguinte forma: a existência de uma nação é um plebiscito de todos os dias, como a existência de um indivíduo é uma afirmação continua da vida.

Resgato essa noção porque estamos diante de uma eleição plebiscitaria no Brasil: democracia versus ditadura; civilização versus barbárie. Esse é o embate inevitável, cujo resultado forjará a nação. Ou, como nos diz o poeta, “os que virão, serão povo, e saber serão lutando”.

Estamos diante da oportunidade de colocar as bandeiras dos direitos, da democracia e da soberania novamente nas mãos da esquerda, e esse é o verdadeiro conteúdo da bandeira nacional.

*Olívia Carolino Pires é economista, doutora em ciência política pela PUC-SP e militante da Consulta Popular.

17 de October de 201815:34

Via Brasil de Fato

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