Caruru de Cosme e Damião: tradição, agradecimento e fé

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Caruru de Cosme e Damião: tradição, agradecimento e fé

Oferta de caruru e doces durante o mês de setembro é manifestação da cultura popular

Jamile Araújo |
Além do caruru, doces também são oferecidos para as crianças.
Cáritas Regional Nordeste

“Cosme e Damião vem comer seu caruru. Cosme e Damião, vem que tem caruru pra tu”
O mês de setembro chega e se inicia a agenda de ofertas de carurus e doces para Cosme e Damião. 26 de setembro é o dia dos santos gêmeos médicos na Igreja Católica, conhecidos por serem protetores das crianças, que teriam vivido na Ásia e cuidavam da saúde das crianças gratuitamente. Já na Umbanda e no Candomblé, é no dia 27 de setembro que são oferecidos carurus para as crianças em forma de agradecimento e de novos pedidos.
O caruru, comida feita com quiabo cortado, camarão seco, azeite de dendê entre outros temperos, é oferecido para homenagear diversos santos e santas tanto dentro da religião católica e dos orixás no Candomblé e na Umbanda ao longo do ano. A exemplo do Caruru de Santa Bárbara no dia 4 de dezembro ou da Festa da Boa Morte, que ocorre no mês de agosto em Cachoeira, no Recôncavo Baiano. O Caruru de sete meninos, oferecido em setembro, tem acompanhamentos no prato que variam de feijão fradinho, arroz, farofa de dendê, ovos cozidos, frango cozido, banana da terra frita, rapadura, cana-de-açúcar e pipoca.
Segundo Diogo Linhares Fernandes, estudante de Licenciatura em Ciências Sociais da UFRB, São Cosme e Damião no Candomblé é associado ao orixá Ibeji, que significa gêmeos na cultura Iorubá, mas há outras divindades associadas a crianças a depender da nação. O nascimento de gêmeos, na cultura Iorubá, é considerado como um fenômeno divino e sagrado, e a simbologia do caruru vem daí.
“Há uma diferença entre o orixá Ibeji e os erês. Os erês representam espíritos de crianças que foram escravizadas, viveram em situação de fome e abandono. Por isso geralmente estão associados a comida. Como o 27 de setembro é dia de São Cosme e Damião, setembro é o mês associado aos erês, às crianças. Como se eles fossem “padroeiros” ou “patronos” delas, das crianças abandonadas e das que sofreram durante a escravização ou no pós escravização”, pontua Diogo.
Diogo conta que há algo bem interessante nessa data: uma inversão em termos da hierarquia que há no Candomblé. Se em outros momentos quem se serve primeiro são os mais velhos, com maior idade ou maior tempo de iniciação, desta vez são as sete crianças, ou sete meninos(as), que comem primeiro. “Tem o momento que as crianças vão comer primeiro. Mas todo mundo vai comer e se alimentar. Também tem a questão de comer com as mãos e limpar as mãos na saia de quem ofertou o caruru”, conclui.

Ofertar o Caruru de 7 meninos a São Cosme e Damião: uma missão de vida

Ariadne Santos, que nasceu no dia 27 de setembro e que a família por parte de mãe tem como base religiosa a Umbanda, conta que sua história com o dia de Cosme e Damião vem desde quando estava na barriga de sua mãe. Antes mesmo de seu nascimento. “Uma senhora, que vendia lanches próximo da clínica onde minha mãe ia para a consulta com o Obstetra, falou que ela ia ter uma filha que ia nascer no dia 27 de setembro. Eu nasci no dia 27. E a senhora disse a minha mãe que ela ia ter a missão de todo dia 27 honrar São Cosme e Damião com o Caruru”, complementa.
Ela ressalta que a mãe e a avó já faziam caruru, mas com o seu nascimento esse compromisso se reforçou. “Um ano era caruru e outro mesa de doces, e alguns anos, os de ‘vacas gordas’, eram os dois. Desde criança que venho todos os anos, até a vida adulta, dando o caruru”. Ariadne comenta ainda que, no último ano, teve muita dificuldade para realizar o caruru, por vários imprevistos, mas conseguiu fazer e foi muito bonito. Apesar da dificuldade maior que há, hoje em dia, para encontrar crianças para participar do caruru. “Por conta do preconceito das pessoas, e devido à grande inserção das Igrejas evangélicas”, pontua.
Mas mesmo assim, a fé e a tradição se mantiveram. Seus pedidos, escritos na carta que vai junto com a oferenda do caruru, se concretizaram. “Os pedidos foram acontecendo e eu fiquei admirada com o poder e a força que eles têm. Claro que abaixo de Deus, de realmente cuidar e fortalecer, e atender aos pedidos das pessoas que têm fé e acreditam. Dar o caruru é uma forma de honrar, agradecer e de pedir também. E quando as coisas acontecem, você acredita naquilo cada vez mais, você começa a ter a fé como algo que move montanhas mesmo”, finaliza.

24 de setembro de 201809:46

Via Brasil de Fato

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