Processo Condor: documentos ligam ex-tenente uruguaio a torturador argentino

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Processo Condor: documentos ligam ex-tenente uruguaio a torturador argentino

Ditadura

Papéis detalham o funcionamento da colaboração entre agências de inteligência durante ditaduras no Cone Sul

Janaina Cesar* |
A professora Elena Quinteros foi sequestrada em junho de 1976
Proyecto Memoria de la Resistencia

Documentos anexados ao processo de apelação do Caso Condor, que tramita no Tribunal de Roma, ligam o ex-tenente uruguaio Néstor Troccoli com o argentino condenado por tortura Alfredo Astiz, além de evidenciarem o possível envolvimento do Serviço de Inteligência da Marinha do Uruguai (Fusna) no sequestro da professora Elena Quinteros, uma militante anarquista que desapareceu durante a ditadura no país oriental (1973-1985). Os papéis, no geral, detalham o funcionamento da colaboração entre as agências de inteligência em Montevidéu e Buenos Aires.

A informação sobre a apresentação das provas foi dada no final da audiência de apelação, que aconteceu em dia 8 de outubro. A sessão aberta ao público, e presidida pela juíza Agatella Giuffrida, foi encerrada após pedido da defesa, que alegou ter tido problemas com o recebimento dos autos do processo, e adiada para o dia 7 de novembro.

No total, são treze documentos inéditos que foram desclassificados recentemente e por isso não puderam ser utilizados no processo de primeiro grau que, em 17 de janeiro de 2017, condenou à prisão perpétua 8 dos 33 acusados de crimes cometidos durante o período de atuação da Operação Condor. Do total dos réus, 14 são uruguaios, mas somente o ex-chanceler Juan Carlos Blanco foi condenado. Troccoli, por sua vez, era um dos militares responsáveis pelos interrogatórios do Fusna e hoje vive em Battipaglia, pequena cidade do sul da Itália.

Depositadas no tribunal dia 5 de outubro por Andrea Speranzoni, advogado do Estado do Uruguai, as provas foram recolhidas durante viagem de vinte dias que Speranzoni fez ao Uruguai e Argentina em agosto passado. Parte da documentação foi encontrada em arquivos do Fusna, arquivos do Departamento de Estado dos Estados Unidos e do Centro de Estudos Legais e Sociais, da Argentina. Com base no conteúdo da nova documentação, Speranzoni pretende chamar para depor cinco novas testemunhas contra Troccoli.

O documento produzido pelo advogado, ao qual Opera Mundi teve acesso, elenca as provas encontradas pelo advogado. Entre elas, consta um manuscrito analisado por um grafólogo com informações atribuídas a Troccoli, onde ele cita o argentino Alfredo Astiz. Conhecido como “Anjo da Morte”, era um agente infiltrado em grupos de ativistas – incluindo a associação das Mães da Praça de Maio – e foi condenado por vários crimes contra a humanidade em seu país. Segundo o documento, nesse manuscrito, Troccoli afirma que Astiz “o conhece perfeitamente”, deixando entender que o argentino estava ciente das operações uruguaias na Argentina.

O advogado ainda cita no documento a investigação aberta pela Justiça uruguaia para apurar as ameaças de morte feitas por um autoproclamado “Comando Barneix” em fevereiro de 2017 contra juízes, pesquisadores e ativistas ligados de alguma forma ao Processo Condor. Entre os ameaçados, está o brasileiro Jair Krischke, presidente da ONG Movimento de Justiça e Direitos Humanos.

Troccoli

Especificamente contra o ex-militar uruguaio, os autos em trâmite na Justiça italiana descrevem inúmeras vítimas, como a argentina Aida Celia San Fernandez, por exemplo. Grávida, foi sequestrada em Buenos Aires na antevéspera do natal de 1977. Foi torturada com o uso de cabos elétricos e uma colher nas genitais, o que provocou o parto prematuro da filha, Mercedes Carmen Galo, que nasceu na prisão. Aida é mais uma das vítimas que integram a lista de desaparecidos do continente sul-americano: foi assassinada, e seu corpo, jamais encontrado.

Em depoimento à justiça italiana, que Opera Mundi publicou com exclusividade em 2015, Troccoli declarou ser inocente e não saber da existência da Operação Condor. “Não sabia da existência do Plano Condor, fazia o que meu comandante pedia”, disse. “Eu sabia as torturas, sabia que nas Forças Armadas havia tortura. A tortura era um procedimento normal na Fusna. Consistia em manter por várias horas os prisioneiros em pé, encapuzados, sem beber e sem comer. Mas torturar sadicamente e perversamente, não. A tortura era uma condição de rigor.”

11 de October de 201817:27

Via Brasil de Fato

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