Ceará é o 3º estado do Brasil com mais pedidos de refúgio de venezuelanos

Ceará é o 3º estado do Brasil com mais pedidos de refúgio de venezuelanos

Fotos de Karelys Escalona

Karelys veio ao Brasil junto com a filha de 11 anos para fugir da crise da Venezuela (Foto: Arquivo Pessoal)

Karelys Escalano passava quase 12 horas na fila de um supermercado para comprar alimentos quando ainda morava na cidade de Maracaibo, na Venezuela, em 2016. A situação caótica em que o país se encontra obrigou a médica dermatologista a tomar uma decisão difícil: morar no exterior e recomeçar a vida.

Karelys não é a única. De acordo com dados do Ministério da Justiça, o Ceará é o terceiro estado do Brasil com o maior número de pedidos de solicitação de refúgio emitidos por venezuelanos em 2018. Ao todo, foram 342 pedidos somente de janeiro a junho deste ano. Em nível nacional, esse número sobe para 23.657 solicitações.

A vinda de venezuelanos para o Brasil em circunstância da crise econômica que assola o país só aumenta. O Ministério da Justiça informa que, em 2010, foram solicitados quatro pedidos de refúgio. Sete anos depois, esse número saltou para 17.865 pedidos, representando um crescimento de 446.625%.

Para este ano, a vinda de imigrantes deve dobrar o total registrado no ano passado. No primeiro semestre deste ano, Roraima já superou sozinha a quantidade do total de pedidos no Brasil solicitados no ano passado, com 18.374 pedidos. Logo depois, vêm os estados do Amazonas (4.100), Ceará (352) e São Paulo (287) com a maior quantidade de solicitações.

Karelys Escalona

A venezuelana trabalhava como dermatologista em um hospital da cidade de Maracaibo (Foto: Arquivo Pessoal)

Cruzar a fronteira

Karelys Escalano tinha na Venezuela uma vida financeira estável. Possuía carro, imóvel e uma carreira na área da saúde. Entretanto, devido à crise econômica e ao aumento da inflação, viver no seu país ficou inviável.

“Eu não conseguia comprar comida e remédio. As filas eram enormes. Passava quase 12 horas para comprar alimentos. Quando conseguia entrar no supermercado, não tinha mais nada”, relembra.

Sem condições de sustentar a família e impossibilitada de tratar os seus pacientes pela escassez de medicamentos, a médica não teve outra alternativa a não ser migrar para outro país. “Os pacientes com câncer sofriam ainda mais. Isso me trouxe depressão e ansiedade. Não dava mais”, relembra.

Ela e a filha, de 11 anos, cruzaram a fronteira por terra em dezembro de 2016. Ficaram, a princípio, na cidade de Boa Vista, capital de Roraima. Logo depois, foram para a cidade de Manaus, onde passaram uma semana. O objetivo era vir para Fortaleza, onde seus dois irmãos estavam morando. “Fiquei em Manaus até conseguir um transporte para Fortaleza”, relata Karelys.

Recomeçar do zero

A jornalista Mirine Escalona, irmã de Karelys, veio ao Brasil em 2015 com o marido e o filho. Venderam casa, carro entre outros bens para poder recomeçar a vida em outro país. Entretanto, devido à desvalorização do bolívar venezuelano, os bens renderam apenas R$ 1.500, o suficiente para custear as passagens até Manaus, no Amazonas. Moraram lá por oito meses. Depois, seguiram para Belém, onde ficaram por uma semana. Seguiram para Fortaleza porque o irmão já estava morando e trabalhando na área de turismo.

“Não tínhamos dinheiro para a passagem. A gente veio de carona com caminhoneiros. Passamos três a quatro dias viajando porque eles faziam paradas para regularizar as mercadorias”, relembra. Ao chegar a Fortaleza, fizeram de tudo. Trabalharam em restaurantes, como vendedores, entre outros serviços.

Refugiados em praça pública de Boa Vista, no estado de Roraima

A crise obrigou milhares de venezuelanos a migrar para países vizinhos (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Hoje, a jornalista trabalha no mesmo salão que a irmã (Karelys Escalano) atua como esteticista. O marido vende pulseiras na Av. Beira Mar. Mas, apesar de ter um padrão de vida inferior, a venezuelana não se arrepende de ter emigrado. “Era impossível viver lá. A gente trabalhava para nada. Não tínhamos comida nem saúde”, frisa.

Crise na Venezuela

A crise na Venezuela teve como principal causa a queda do preço do petróleo em 2014, principal fonte de renda do País. Entretanto, na avaliação do professor do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP) Marcio Bobik Braga, essa não é a única.

O governo de Nicólas Maduro, sucessor de Hugo Cháves, também foi um dos fatores para a situação considerada grave da economia da Venezuela. Segundo o especialista, a atual gestão não se configura nem como capitalista nem socialista.

” Não há negócios no país. O risco político é muito grande. A desestruturação produtiva é absurda. A crise macroeconômica é grave. O país segue em queda livre”, ressalta.

Na última segunda-feira (23), o Fundo Monetário Internacional apontou que a inflação da Venezuela pode chegar a 1.000.000% até o fim deste ano, desvalorizando ainda mais a moeda do País. Atualmente, R$ 1 equivale a mais de 30 mil bolívares venezuelanos. Já em relação ao dólar, a desvalorização é ainda maior. Para um venezuelano conseguir um dólar americano, precisa desembolsar cerca de 110 mil bolívares.

Como solução dessa profunda crise, Marcio afirma que não há soluções milagrosas para hiperinflações. De acordo com ele, as medidas drásticas para a desvalorização da moeda são: realizar uma reforma monetária, uma série de ajustes macroeconômicos e atrair capitais internacionais para manter a taxa de câmbio estável.
“As medidas são muito duras e não necessariamente dão resultados. Não acredito muito em congelamento de preços e salários”, ressalta. Entretanto, o professor acrescenta que essas alternativas são inviáveis para a Venezuela, devido à atual situação econômica. Para sair dessa crise, Marcio aposta na escolha de um modelo econômico e mudanças políticas para que melhorias possam vir nos próximos anos.
“O país precisa escolher o modelo econômico. A Venezuela vai optar por um socialismo via Cuba ou China? Ou será um país capitalista em uma social democracia? Enquanto não houver mudanças políticas, a solução não virá. Não se trata de intervenção militar ou golpe. Penso em uma solução conciliadora. A atual elite política da Venezuela deve dialogar com a antiga elite e tentar um caminho de conciliação”, conclui.

Daniel Rocha3 de agosto de 201806:46Publicado primeiro em TRIBUNA DO CEARÁ

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*