Artigo | Resistir ao ódio e construir Democracia no Brasil

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Cruzadas Morais

Apesar do governo Bolsonaro (PSL) e do golpismo, LGBT’s resistem

Maria Medeiros* |
Articulista Maria Medeiros.
Arquivo Pessoal

As elites brasileiras perpetuaram a moral patriarcal e o ideal patriótico colonial como forma de fazer política no Brasil, de maneira que os projetos de nação que foram impostos ao país por estes grupos, formados por latifundiários, banqueiros e grandes empresários, sempre prezaram pela exclusão sistemática do povo brasileiro do centro da nossa política.

As elites brasileiras sempre foram taxativas na defesa de um padrão de sociabilidade que garantisse a perpetuação de poder para estes grupos, e assim sendo, lutas históricas de grupos marginalizados da sociedade como mulheres, povos originários e LGBT’s sempre foram fortemente repreendidas por ideologias sustentadas em mitos e pânicos sociais como clichês homofóbicos do tipo: “planos da esquerda para a destruição da família” e “proteção às criancinhas indefesas contra os comunistas e a gays”.

Apesar de as elites brasileiras sempre intervirem contra a vida de LGBT’s, o tempo presente revela demandas específicas, como aponta o escritor e jornalista brasileiro João Silvério Trevisan, demandas que não podem ser negligenciadas quando pensamos a atual conjuntura política do Brasil, onde o ódio cada vez mais se institucionaliza como política de estado, o ridículo político e a retirada de direitos tomam lugar de políticas públicas eficientes para o nosso povo.

Trevisan nos alerta que a partir do final do século XX, o vácuo político-ideológico, a crise do capitalismo e a intensificação do surgimento de credos religiosos institucionalizados, alinhadas ao pensamento neoliberal, expressas em ideias como a teologia da prosperidade e a renovação carismática católica, possibilitaram o surgimento de um cenário de ódio e novas cruzadas morais.

As identidades de gênero e orientações sexuais desviantes da norma, bem como a luta pelos direitos reprodutivos das mulheres se tornaram alvo fácil de um novo fundamentalismo político-empresarial que, segundo Trevisan, as tornou bode expiatório da generalizada crise de esgotamento moral, e assim, uniu bancadas políticas de diferentes polos de atuação como evangélicos, ruralistas e católicos contra a suposta decadência moral.

A consolidação deste cenário fantasmagórico de combate à “decadência moral” forjado pela direita para tentar desviar a atenção da forma cruel como as mazelas sociais realmente são produzidas pelo estado avançado do capitalismo, onde diversos setores do conservadorismo brasileiro se mobilizaram, foi o que viabilizou o surgimento e a permanência, no seio da política brasileira, de políticos do tipo do atual presidente da república, Jair Bolsonaro.

A trajetória política medíocre marcada por atuação escassa em 27 anos de vida parlamentar de Bolsonaro fizeram, do próprio, apenas um propagandeador de jargões sensacionalistas contra as vidas e liberdades de mulheres, LGBT’s e povo negro, além de entusiasta melancólico da ditadura militar e do seu legado de miséria para o povo brasileiro. Exemplo clássico do entulho político da direita militarista brasileira, que sobrevive de forma parasitária aos tabus nacionais.

O projeto de ultra-direita que Bolsonaro representa não apresenta saldo político consistente nenhum para a vida do povo brasileiro, mesmo assim, tem protagonizado processos significativos nos últimos anos, processos como o golpe de estado que retirou Dilma Roussef, a primeira mulher eleita presidente da república de seu cargo, a prisão política do Lula, líder mais popular da história do Brasil e a consequente vitória em uma eleição com fortes indícios de fraude como foi a de 2018.

Apesar de não apresentar soluções e melhorias para a vida da maioria do povo, é notável o uso do pânico moral em todos estes processos, como por exemplo, a forte carga machista que sustentou o golpe contra o governo Dilma, onde setores da grande mídia buscaram a todo custo construir a imagem da presidente como descontrolada e histérica, ou ainda a complexa rede de fake news envolvendo a candidatura de Fernando Haddad e Manuela d’Ávila, que centravam-se especificamente sobre questões de gênero e sexualidade como a farsa do Kit Gay e do ensino de sexualidade nas escolas.

A mobilização do pânico social contra a vida e os corpos de pessoas LGBT’s gerou traumas inenarráveis para esta população, traumas que implicam diretamente na inviabilização das vidas destes sujeitos, pois o país ostenta o vergonhoso título de maior número de assassinatos no mundo. Além de que, serviços básicos necessários a existência humana lhes são negados.

Para se ter uma ideia, segundo pesquisa realizada pela Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), estima-se que o país concentre 82% de evasão escolar de travestis e transexuais, fato que justifica a prostituição compulsória que assola cerca de 90% das travestis e mulheres trans brasileiras, dada a exclusão no mercado de trabalho formal por falta de qualificação profissional e pela transfobia constante.

Diante da realidade destes fatos somos levados a pensar sobre a relevância da discussão em torno de assuntos como gênero, identidade de gênero, sexo e sexualidade para a política brasileira, caso queiramos construir alternativas que realmente tenham eficiência para a melhoria de vida de toda a classe trabalhadora, em sua multiplicidade de existências. Assim sendo, voltar o olhar para a construção de resistência de movimentos que agiram em contrapartida aos ataques dos últimos governos que tomaram o poder no Brasil, é um exercício de esperança e aspiração de dignidade por todos que acreditam na democracia.

A primavera feminista que em 2015 respondeu nas ruas ao projeto nefasto do então deputado Eduardo Cunha, que procurava enrijecer ainda mais as possibilidades de aborto no Brasil, mesmo em caso de estupro e anencefalia do feto; as mobilizações pelo “Ele Não”, que levaram milhões às ruas e avenidas brasileiras em defesa da democracia e contra o machismo, o racismo e a lgbtfobia que Bolsonaro representa; a forte mobilização nas redes sociais são exemplos de como o retrocesso encontrará forte resistência que apenas o povo organizado pode promover.

Apesar do governo Bolsonaro e do circo de horrores que o seu ministério representa, a resistência está sendo construída. Em apenas um mês de governo escândalos de corrupção e a evidente ineficiência da atual gestão, que tem constrangido o Brasil diante do mundo, revelam o contraste com o que pode ser o nosso país, quando priorizamos valores democráticos como o direito à vida e segurança para todas as pessoas. Está claro que a resposta está nas ruas, está na força e no afeto de cada brasileira e brasileiro que clama à vida e à educação ao invés da violência e da política de morte.

*Maria Medeiros, graduanda em Letras- UFPB

2 de Fevereiro de 201919:15

Via Brasil de Fato

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