A rebelião das ovelhas

A rebelião das ovelhas   

O álcool ainda circula no sangue do pastor Carlos Montano. A noite cai e ele sabe que não adianta atrasar a punição à qual a gangue o condenou. Vai em direção a ela como um filho pródigo caído em desgraça, sem nenhuma esperança de receber perdão pelo seu pecado.

O cachecol esconde as tatuagens da gangue e o medo quase sólido no corpo; porque no céu há um Deus a quem ele jurou servir sem cerimônia, e na terra está a Revolucionários do Barrio 18, gangue salvadorenha à qual fez uma promessa semelhante quando tinha apenas 13 anos de idade.

Não há uma maneira boa de fazer isso, então o pastor Carlos Montano se apresenta diante daquela que foi a célula de sua gangue – as gangues em El Salvador são compostas de células que têm seus próprios nomes, um líder e um número variável de integrantes – e todos entendem que chegou a hora de cobrar dele por “brincar” com os dois poderes aos quais anteriormente prometera sua vida. As promessas que se fazem a Deus e as que se fazem à gangue perseguem os homens para sempre.

O pastor Carlos Montano é levado a um campo de futebol e vai se imaginando como uma ovelha entre lobos. Espera, resignado, que sua sorte seja lançada. A gangue nomeia os carrascos e anuncia a sentença. Quando está tudo pronto, Carlos se põe de joelhos para abandonar seu destino nas mãos de toda a fúria “do mundão”.

Os primeiros rebeldes

Na prisão de San Francisco Gotera, a gangue, ou pandilla, como dizem em El Salvador, rachou.

Em abril de 2015, essa prisão foi destinada exclusivamente a membros da facção Revolucionários do Barrio 18. Ali há cerca de mil internos. Entre eles, poderosos líderes da organização criminosa.

Fred Ramos

Julio, membro do Barrio 18, dá seu testemunho durante uma vigília

Em outubro de 2016, quase metade dos integrantes da gangue presos nessa penitenciária tomou uma decisão inédita: decidiu deixar a gangue sem mais nem menos. Não formaram outra banda criminal, não se converteram em informantes do governo, apenas saíram, deixaram de participar da pandilla, de obedecer aos seus líderes de células, às normas internas dos Revolucionários. Eram 400 soldados dizendo um até então impensável “adeus”.

Para que a decisão se tornasse oficial, eles convenceram o diretor da prisão a permitir que vivessem separados dos integrantes ativos da gangue. Pegaram seus colchonetes e suas redes e saíram, cansados de viver misturados aos pecados do “mundão”. Dos seis setores que dividiam a prisão de Gotera, três seriam então destinados às “ovelhas”.

Aquele rebanho era conduzido por um jovem pastor evangélico que se tornou uma liderança na igreja criada por integrantes da gangue quando tinha apenas 20 anos. Aos 24 ele já era a pedra angular do movimento dos criminosos cristãos da prisão de Gotera. Seu nome era Carlos Montano.

Mas o compromisso feito com a gangue é para a vida toda, e não bastam alguns versículos bíblicos para dizer “adeus”. Os líderes dos Revolucionários não engoliram a ideia de que aqueles que conheciam desde meninos como os rudeboys da gangue 18 tenham se tornado de repente cristãos mansinhos – e que a única explicação para tamanha indisciplina seja um misterioso “chamado de Deus”. Os Revolucionários levam em seu DNA a memória da conspiração: a gangue nasceu de um grupo de descontentes que se rebelaram contra os líderes da gangue Barrio 18 na década anterior, e acabaram rachando em duas facções que lutaram até a morte. Então eles consideraram esse novo racha altamente suspeito.

Os rumores começaram a correr, soltos e perigosos, por aquelas masmorras vingativas, repletas de homens acostumados a resolver os problemas no chumbo e na faca. A atmosfera no cárcere se tornou tensa e o ódio acumulado pelo desprezo dos ex-colegas apontou para o pastor daquele rebanho rebelde. Eles o chamavam de covarde para insultá-lo, mas também de traidor, o que equivale a uma condenação à morte no mundo das gangues.

A perigosa missão da Igreja da Trombeta Final

Um mês depois da separação dos cristãos, enquanto a ferida ainda estava aberta e as dúvidas ainda pairavam no ar, o pastor Carlos Montano propôs aos líderes da igreja levar a cabo uma missão que acabaria com os rumores. Deveriam sair do resguardo seguro dos três setores cristãos da cadeia para fazer uma visita aos membros da gangue ativos, em suas celas. E pregar a palavra de Deus.

“Não chegamos a verbalizar”, lembra um dos líderes da igreja, “só nossos olhares mostravam nosso medo. Mas depois pensei que, se estivesse disposto a morrer por nada, por que não estaria disposto a morrer pelas coisas de Deus?” Assim se preparou a missão: 35 ovelhas visitariam os setores dos membros ativos da gangue na esperança de voltar inteiros, ou simplesmente voltar. Propuseram a loucura ao diretor da penitenciária, Óscar Benavides, esperando que ele autorizasse. E ele autorizou.

“Eu tomei essa decisão” – explica o diretor – “porque conheço os princípios cristãos e disse a eles: ‘Não vou permitir que estejam em uma situação de hipocrisia com Deus’. Não sou cristão, mas sei como funciona. E disse que tinham que falar a verdade, sem andar com tanto medo, porque, se confiassem em Deus, nada lhes aconteceria”, diz.

Benavides é um homem bonito, e é impossível diferenciá-lo de qualquer agente carcerário: usa botas militares e uma camiseta manchada pelas tarefas diárias de manutenção.

Ele está convencido de que o movimento das ovelhas é genuíno e fala da Igreja da Trombeta Final com o orgulho com que fala do próprio filho: “Era uma situação complicada. Me pareceu correto que falassem claramente com os [criminosos] ativos. Eles tremiam um pouco, e com razão. Eu disse a eles que iriam agarrar o diabo pelos cornos e não deveriam andar com tanto medo porque se fossem mortos já saberiam para onde iriam: para o céu, e isso é lucro”.

Os agentes carcerários abriram as portas do setor escolhido e os missionários entraram naquele lugar superlotado, cheio de rostos incrédulos e rudes. E as portas se fecharam atrás deles. Estavam à mercê de sua fé e do poder terreno da gangue. Os 35 começaram imediatamente a cantar louvores e a aplaudir a glória do Deus crucificado, a gritar sobre as bondades de Deus e de sua proverbial misericórdia.

Terminado o culto, o pastor Carlos Montano, como se já não houvesse dinamite o suficiente, perguntou quantos deles queriam abraçar o caminho de Deus e regressar com eles aos setores das ovelhas. Pouco a pouco, os integrantes da gangue foram levantando a mão: primeiro dois, depois três, dez, 20, 30, e por fim 40 homens disseram ter sentido o chamado espiritual do Senhor e por isso – e por sabe-se lá quais outros motivos – estavam dispostos a ir com os missionários. O pastor Carlos Montano supôs que não havia tempo a perder e mandou pegarem tudo o que tinham: um colchonete, uns pratos, uns trapos. E que saíssem de lá rapidamente, antes que aquilo terminasse mal. Pouco a pouco se formou uma chuva de insultos contra os novos convertidos: era a gangue perdendo membros de novo e amaldiçoando o momento em que aceitaram que aqueles loucos religiosos viessem agitar o rebanho.

Os missionários saíram de lá fazendo um corredor para os novos membros do rebanho, enquanto o coro dos palavrões tornou-se cada vez mais violento e ameaçador. “O Senhor não permitiu que a boca dos leões se fechasse e pudemos tirar a presa de dentro dela”, descreve um missionário.

A missão retornou triunfante para os setores das ovelhas: não apenas haviam retornado intactos, mas também roubado da gangue novas almas, com os respectivos corpos, para a glória de Deus. E suspiraram aliviados e agradecidos por não terem seus crânios e pescoços esmagados, porque conheciam bem os atos de horror daqueles homens.

Mas algo no pastor Carlos Montano pedia mais. Talvez fosse o espírito faminto que ardia dentro dele; ou a necessidade de deixar as coisas claras com a gangue. Talvez fosse somente o vício de adrenalina ou pura loucura; mas o pastor não sentia que havia concluído aquela missão. Assim, anunciou ao rebanho a próxima missão: voltariam no dia seguinte, mas dessa vez não cantariam louvores e não realizariam nenhum culto. Apenas ficariam frente a frente com os líderes da gangue.

Igrejas nascidas nas prisões de El Salvador

Carlos Montano não é o fundador da Igreja da Trombeta Final, e é impossível escutar uma explicação terrena do porquê uma igreja de ex-membros de gangues acabou por ter o nome de um instrumento musical tão dramático. A única história que se repete entre as ovelhas é que foi o próprio Deus que foi aos sonhos de uma mulher para sussurrar o destino de seu marido.

Em 2009, a mulher fora visitar o marido preso na cadeia de Izalco, no oeste do país, onde cumpria uma pena longa. E disse a ele que o Senhor havia lhe enviado uma mensagem: ele seria pastor e fundaria uma igreja que batizaria segundo o versículo que diz: “[…] em um momento, num piscar de olhos, a última trombeta; porque a trombeta será tocada, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados”. E aquele homem, chamado Nilson e conhecido como Kilo de Quezalte, assim fez: ele fundou uma igreja com esse nome, da qual era o pastor, e esperava que outros membros de gangues o seguissem. Seis fizeram isso.

A Igreja da Trombeta Final não foi o único empreendimento religioso fundado em uma prisão salvadorenha, e não é o único dirigido e frequentado exclusivamente por membros de gangues. Existe uma longa lista de igrejas – principalmente evangélicas – que surgiram no sistema penitenciário. As gangues, todas, têm tolerado e convivido com religiosos que entram em suas prisões e com seus próprios membros que abraçam ou dizem abraçar a fé.

A facção Revolucionários do Barrio 18 tinha em 2019 ao menos duas igrejas prosperando nas cadeias destinadas aos seus membros: “A Trombeta Final”, conduzida por Kilo e criada na prisão de Izalco, e “Ariel, Leão de Judá”, fundada por William Galindo na prisão de Quezaltepeque, ao norte da capital do país, São Salvador.

Ser cristão – ovelha – em uma prisão é uma declaração de intenções. Em geral, as ovelhas avisam à gangue que preferem ficar longe de questões criminais. E normalmente a gangue os aceita da forma zombeteira, que é reservada aos covardes, sujeitando-os a uma observação rigorosa e medindo milimetricamente seu comportamento: se você fumou um cigarro, fez piadas ou fala palavrão, é candidato a um castigo por tentar enganar a gangue e por jogar com Deus e com o diabo.

Para Raúl, por exemplo, a vida na gangue deixou marcado um enorme 18 tatuado no rosto e sete balas no corpo; uma delas quebrou sua perna no meio de um tiroteio espetacular contra membros da gangue rival MS-13, quando cumpria uma missão. Aquela velha ferida o deixou manco. Esteve preso em cinco cadeias diferentes e em uma delas conheceu integrantes de gangues cristãos, quando a Igreja da Trombeta Final estava ainda em seus primeiros dias.

“Quando me tornei cristão, não foi tão agradável, houve uma grande perseguição verbal, me insultavam, me davam apelidos como ‘Aleluia’. Mas me dei conta de que perdi toda a vida na rua, toda a minha vida”, conta Raúl com a entonação de voz de menino sofrido e com as tatuagens meio apagadas.

Raúl deve ficar livre em cinco anos e quer se manter no caminho cristão. Conseguiu permissão da gangue para se inscrever em um programa para apagar suas tatuagens. A cada 15 dias, ele se submete a um doloroso e lento procedimento em que lhe queimam a pele com laser, e pouco a pouco os números que estão desenhados em seu rosto vão cedendo espaço a uma pele morena. “Nunca soube o que era viver com mãe e pai… Perdi toda a minha juventude com a pandilla, desde menino andava pelas ruas. Mas agora tenho uma mulher. Aceitei ser cristão e começaram as perseguições. Me diziam: ‘Por que não se tornou cristão lá fora?’. Todos querendo me destruir mentalmente.”

Raúl explica que um cristão perde todos os direitos junto à gangue na prisão: “Mas são direitos insignificantes, besteiras! Por exemplo, tem filas grandes para pegar comida, e as pessoas brigam por seus lugares. É preciso lutar pela comida. Quando alguém é ovelha, não tem o direito a brigar nem reclamar, tem que ficar calado. ‘Ovelha, vai pra lá!’. Não temos direito a xingar, essas coisas”.

Raúl se casou na prisão. E apenas um dia depois a gangue rival baleou sua nova esposa na testa, fora da prisão. Seu matrimônio durou apenas 24 horas. Sua gangue se ofereceu para vingar a morte da moça: “Eles disseram que colocariam carros, armas e pessoas que estavam fora da prisão [para fazer vingança]. E que nós não iríamos perder. E eu queria que eles fizessem isso, mas não pude dizer sim. E isso mudou tudo. Eles passaram a se dirigir a mim de outra forma. Já não me chamavam ‘Shadow’, e sim de Raúl, e para os novos que se assustavam ao entrar na cadeia e se tornavam cristãos, gritavam: ‘Vocês não são cristãos, Raúl sim, nós o vimos resistir’. A gangue, ou seja, Satanás, reconhece os filhos de Deus”, diz cheio de orgulho.

Nesse ambiente nasceu a Igreja da Trombeta Final, dirigida pelo Kilo de Quezalte, crescendo à sombra da pandilla, mas em tolerância mútua. Embora a pregação de Kilo os tenha exortado a não cometer atos ilícitos, ele optou por não entrar em conflito com a gangue, que por sua vez fazia vista grossa para sua congregação, que depois de dois anos – em 2011 – já tinha quase 70 membros.

Foi então que Carlos Montano chegou à penitenciaria de Izalco. Era um menino de 19 anos, sem nenhuma experiência na vida carcerária, condenado a cinco anos por um desses delitos que não trazem prestígio nem crédito diante da gangue: tentativa de extorsão. Um membro da igreja se lembra bem: “Era um bicho tímido, calado, um banana, um joão-ninguém”.

Mas sua dedicação e sua eloquência o colocaram em posição de destaque sobre os companheiros mais experientes, com mais tatuagens, com mais moral e com cargos mais importantes na hierarquia. Quando foi necessário nomear um pastor adjunto, se tornou óbvio que aquele “lugar de honra” deveria ser do devoto menino que recém-começava a entender a vida na prisão.

Mas se manter na linha diante dos olhos de toda a prisão não é tarefa fácil nem para os pastores eleitos pelo próprio Deus. Em 2011 Kilo cometeu um erro – um pecado, diriam alguns – que o fez perder o respeito da Igreja da Trombeta Final e, em consequência, seu cargo de pastor.

Ninguém se atreve a mencionar o erro, e os que mais se aventuram a falar asseguram que o pastor voltou a atuar como membro de gangue ativo, e que seus atos resultaram em consequências fatais. Os detalhes são guardados com zelo. Atualmente, Kilo é membro da Igreja da Trombeta Final; mas é só mais um.

As provações do novo pastor

O caso é que era necessário buscar um novo pastor-geral e, por direito de sucessão, o cargo correspondia ao pastor adjunto Carlos Montano. O garoto que fazia apenas um ano na prisão era um tímido joão-ninguém e terminou à frente da Igreja da Trombeta Final. Rapidamente deixou claro que chegou para botar fogo em tudo.

A primeira regra do pastor Carlos Montano foi que ninguém que recebesse um centavo proveniente de extorsão poderia fazer parte da Igreja da Trombeta Final. E o rebanho ficou incomodado, acostumado com a flexibilidade do pastor Kilo com esses temas. Aí se somou mais uma regra: ninguém poderia aceitar dinheiro de alguém que praticava extorsão. Uma das ovelhas diz o que teve de fazer: “Eu disse ao Bairro que não queria nenhuma renda, que o que eu tinha deixava a tal e tal e tal e não queria ter nada a ver com isso”. E a igreja – o que restou dela – começou a andar farrapenta e pobre. Mas a decisão deu credibilidade ao novo pastor e o número de fiéis cresceu.

Carlos Montano deu então outro passo: decretou que estava proibida a fornicação, e que as ovelhas só poderiam ter conjunção carnal com suas legítimas esposas e com ninguém mais. Logo, começou a endurecer ainda mais as regras, decretando dias inteiros de jejum. Foram dias em que o temperamento dos membros da igreja era posto à prova com a privação de alimentos. “Você imagina a reação da igreja? A comida é algo sagrado no cárcere e te dizem: ‘Não há comida e vocês querem jejuar’?”, conta uma das ovelhas. Mas a Igreja da Trombeta Final seguiu resistindo e crescendo.

Assim chegou o ano de 2015, em que as autoridades castigaram as gangues restringindo as visitas conjugais e os presos construíram champas: quartinhos feitos com tecido que os casais usavam para fazer sexo nos dias de visita regular. O pastor Carlos Montano os considerou pecaminosos por não honrarem a decência do matrimônio. Então proibiu os membros da sua igreja de usar as champas com as esposas – o que na prática significava simplesmente não fazer mais sexo. Considerando que a masturbação era proibida havia vários anos, é fácil imaginar o terremoto que a decisão do pastor causou naqueles homens. Uma coisa era andar com pouco dinheiro e morto de fome; outra, muito diferente, era morrer desse outro tipo de fome corrosiva, e ainda ter que se explicar como um bom cristão para a esposa. Para muitos, aquele encontro furtivo era o único símbolo de que seu matrimônio ainda existia, e renunciar a isso implicava renunciar a tudo que os vinculava a um mundo livre.

Wilfredo Gómez é membro da Igreja da Trombeta Final quase desde a fundação e se lembra daquela terrível prova: “Mesmo se você fosse casado, era ilegal ir às champas porque o casamento deve ser com decoro, sem defeito, não se deve ir com sua esposa a uma champa onde há uma cortina no meio com outro casal e onde há papéis sujos, sangue e mesmo excremento. Eu passei por esse processo. Deus estava procurando por força. ‘Sua esposa ou a obra de Deus?’ Muitos renunciaram à obra de Deus, pensando: ‘Se eu não der à minha esposa, outro dará’. E foram à champa e caíram em pecado. Enquanto nós escolhemos Deus e dissemos não à carne, e por causa disso Deus nos honrou”.

Wilfredo Gómez se converteu em um dos líderes da Trombeta Final, e sua esposa apareceu um dia na prisão para dizer que não estava disposta a continuar com aquele matrimônio sem poder exercê-lo, e que o estava abandonando.

Assim o pastor Carlos Montano acabou levando boa parte dos membros da Trombeta Final para uma das condições mais temíveis dentro da prisão: ser um “russo”, um homem miserável que nem vê a esposa nem tem um centavo no bolso para comprar uma guloseima. Um prisioneiro que não tem mais nada. Mas a igreja, novamente, cresceu.

Em abril de 2015 o governo de El Salvador decidiu transferir todos os membros da Barrio 18 que habitavam a prisão de Izalco para a prisão de São Francisco Gotera. Com a gangue viajou também a Igreja da Trombeta Final e seus mais de 300 membros.

Na nova prisão, o pastor Carlos Montano considerou que precisava acelerar a separação entre as ovelhas e a gangue, e pediu ao diretor que sua igreja fosse fisicamente separada do resto dos internos para fazer uma declaração formal: “Nós, as ovelhas, renunciamos à gangue e nos negamos a viver debaixo de seu poder”. Nessa altura já eram mais de 400.

A ameaça do silêncio

Voltar aos setores de integrantes ativos da gangue um dia depois de ter-lhes roubado mais de 40 soldados? Para isso é preciso uma dose de loucura, ou de fé, ou um bom cálculo. O pastor Carlos Montano havia juntado um pouco de tudo isso antes de tomar aquela decisão aparentemente suicida. Sobre sua loucura e sua fé já se disse o bastante –e, sobre seu cálculo, digamos que não se baseou em conhecimentos da Bíblia, mas da própria gangue.

Carlos Montano nunca foi um dos grandes nomes dentro da Barrio 18. Começou a caminhar com a gangue quando tinha apenas 12 anos e entrou na Barrio 18 aos 13, nos arredores da praça Libertad, na capital, San Salvador. Ele jura que chegou a conduzir a célula de uma comunidade na cidade. Fez uma carreira breve na estrutura, e por isso assassiná-lo não requeria muitos trâmites. Mas as coisas haviam se complicado: a Igreja da Trombeta Final não apenas havia seduzido os soldados de baixo escalão da gangue, mas também homeboys – como são chamados os membros – da mais alta hierarquia, com poderes muito maiores do que o pastor Carlos Montano, e de estatura similar à dos líderes que ele estava enfrentando. Matar esses homens exigia que se pensasse duas vezes, e por isso o pastor Carlos Montano se cercou dessas influentes ovelhas naquelas missões perigosas.

Por outro lado, um cálculo é só um cálculo; nessas condições, se o cálculo é correto, você vive, mas, se você calculou mal, morre a facadas e navalhadas.

De novo o diretor do presídio aprovou a visita, de novo a cela se fechou às costas dos missionários e os líderes das gangues saíram ao seu encontro. A adrenalina era como a de um cavalo bravo, e os cavalos bravos não são muito aconselháveis para ter em meio a uma delicada cirurgia de coração aberto.

“Estávamos parados e começamos a falar sobre o que havia acontecido. Nos acusavam de ter dedurado e rachado a gangue. E Carlos Montano disse a eles: ‘Não viemos pedir permissão nem negociar com vocês, viemos para dizer o que vamos fazer’”, se lembra Wilfredo Gómez, um dos personagens em cuja influência na alta hierarquia da gangue o pastor Carlos Montano havia baseado seus cálculos.

A cela se encheu de rumores e de acusações. De ameaças. O pastor Carlos Montano anunciou que as ovelhas da Trombeta Final se declaravam fora da gangue e que haviam decidido viver segundo suas próprias regras. E os rumores cresceram, e apareceram os primeiros metais revelando seu mau augúrio. O pastor seguiu com as decisões já tomadas. “Quando tivermos a oportunidade, também vamos apagar as tatuagens. E, se houver a oportunidade, vamos nos juntar com os irmãos cristãos da Mara Salvatrucha.” Então a cela veio abaixo, enfartada, ouvindo aquela seleção de disparates. Na linguagem das gangues urbanas, apagar as tatuagens equivale a mudar seu sobrenome, a renunciar à sua família… E chamar os membros ou ex-membros – dá no mesmo – da gangue rival Mara Salvatrucha de “irmãos” é esquecer todo o sangue que já correu entre eles. Uma e outra coisa devem ter um só destino: a sepultura.

O pastor Carlos Montano tinha escolhido as palavras perfeitas para invocar um linchamento: “O ambiente se alterou e Montano lhes disse que, se queriam ‘cobrar’ pela decisão, ali estávamos, que começassem conosco. Muita adrenalina: nós vimos facões, punhais, foi uma coisa tremenda”. Ao relembrar, Wilfredo Gómez ainda hoje se encolhe, como que esperando o primeiro golpe.

Alguns quiseram cortar o mal pela raiz, ou seja, matá-los naquele mesmo momento: “Aproveitemos, é dar neles agora”, se escutava, e outras vozes concordavam. “Mas veja como é poderoso o Senhor” – agradece Wilfredo Gómez, apontando para o céu enquanto conta –, “outros diziam que não, que não nos matassem, e declaravam que não deviam se meter com as coisas de Deus… E aqui estamos”.

Ninguém se atreveu naquele dia a dar a primeira facada ou desferir o primeiro soco. O que tinha que ser dito já fora dito, e o que tinha que acontecer já acontecera. Fez-se um silêncio, e os missionários saíram da cela perfurados apenas pelos olhos da gangue.

“Já não havia palavras” – conta Wilfredo Gómez –, “e se fez o silêncio”.

Desse silêncio obscuro foram nascendo rumores que subiram pelas paredes da cadeia e se espalharam pelas ruas. E o silêncio da pandilla pode significar, em igual medida, um indulto ou uma sentença de morte.

O pastor Carlos Montano cumpriu a sua condenação no dia 26 de outubro de 2016, umas semanas depois de ter declarado a independência da Trombeta Final perante os líderes da gangue. O diretor da cadeia lembra que Montano solicitou autorização para permanecer mais uns meses ali para consolidar a sua obra, mas foi impossível conceder esse tempo. A igreja despediu-se dele como um ungido de Deus para expandir a obra nas ruas, e o pastor saiu com a ideia de que, ao tornar pública a conversão de um rebanho tão grande, muitas igrejas, ONGs, ou, com sorte, a sociedade salvadorenha correriam para abraçar o projeto.

Mas isso não aconteceu.

Fora das grades

Duas meninas quase mocinhas fazem danças improvisadas, enfurnadas em vestidos de cores brilhantes, com saias que chegam até o chão e cujas mangas cobrem até os pulsos. Elas não dançam à toa, explica o diácono, mas “bailam para a glória de Deus” com os olhos fechados e o rosto contorcido, quase chorando. De repente a música muda e o louvor tem um ritmo contagiante: a igreja se enche de aplausos e os rapazes mais jovens pulam até o fundo da igreja e giram com os braços para o alto, gritando a letra de louvor, cheios de alegria.

Isso acontece no coração do bairro Dina, de São Salvador, que o ex-presidente salvadorenho Francisco Flores converteu em 2003 no símbolo dos bairros controlados por gangues. Naquele ano ele anunciou seu plano para acabar de uma vez por todas com as gangues: diante de um enorme grafite em homenagem de um dos patriarcas da gangue Barrio 18 no qual se lia, em letras góticas, “Rip, Tio Barba”, ele anunciou o seu Plano Mão Firme. Naquele dia, o bairro havia sido tomado por soldados e policiais que revistavam as casas por bem ou por mal e remexiam cada gaveta e cada armário, enquanto vários helicópteros militares sobrevoavam o perímetro para garantir que nenhum criminoso fosse estragar o espetáculo armado pelo governo.

Hoje, quatro anos depois, as pandillas se multiplicaram com uma loucura febril e controlam cada favela do país. O ex-presidente Flores morreu e no lugar do grafite que celebrava o assassinato do Tio Barba hoje há um mural artístico de um galo colorido. Mas, claro, o bairro Dina continua vivendo sob a punho de ferro da gangue Barrio 18.

Entre os rapazes que vão ao culto, há sete que trazem no corpo a tinta da Barrio 18: tatuagens no crânio, no pescoço, nos braços e no peito. Mas esta noite todos se vestem com muita formalidade, como vendedores de seguros com sapatos bem engraxados. Todos foram membros de gangues, todos cometeram crimes que os fizeram passar longas temporadas na prisão. E todos se converteram ao cristianismo.

A Igreja da Trombeta Final não abriu uma fenda para que criminosos saiam das gangues: simplesmente – simplesmente – arrombou essa fenda e a fez gigante. Desde algumas décadas as igrejas evangélicas têm recebido ex-criminosos e se converteram em aval de sua conversão.

Segundo um estudo publicado em março do 2017, realizado pela Universidade da Flórida a pedido da embaixada dos Estados Unidos, o evangelismo é a principal porta de saída das gangues. Há algumas décadas existem ex-criminosos convertidos ao evangelho, lutando sozinhos para deixarem de ser o que já foram. Tem aqueles que decidiram apagar as suas tatuagens, jogando um jogo de roleta-russa com a tolerância das pandillas, ou então as cobrem com cachecóis ou com as mangas da camisa para poder conseguir algum trabalho. Aqueles que tiveram um posto maior na gangue intercedem pelos novos convertidos. Outros dão testemunho em público sobre a maneira em que Deus os mudou. Alguns conseguem se manter nesse caminho e conseguem bicos para alimentar a família. Outros não.

Embora se converter em ovelha possa permitir que se abra uma fendinha por onde escapar das gangues, é impossível perfurar o muro sólido e impermeável do Estado salvadorenho. Não existe nenhuma política pública para receber, proteger ou reerguer os pandilleros que decidem abandonar as estruturas do crime. Não importa se os tatuados estão com uma pistola ou com uma Bíblia nas mãos: a polícia de El Salvador os considerará inimigos e os perseguirá. Algumas vezes, autoridades já repetiram que somente os tontos acreditam que existe tal coisa como um criminoso arrependido.

Neste dia, no grupo de ex-pandilleros na igreja, estão dois que recuperaram a liberdade nas últimas semanas: Jorge e Arnoldo, que não atendem mais pelos seus apelidos da gangue, Quinta e Blacky. Ambos pagaram uma pena de dez anos por homicídio. Jorge é um homem pequeno, silencioso e tímido, magro como um ramo de goiaba. Seu apelido ficou famoso nas ruas, e quando entrou na cadeia já era o chefe da sua célula. Arnoldo chegou à cadeia com um vício corrosivo em crack e sem a mínima vontade de viver. Eles são hoje o ponto alto do culto. Ambos darão seu testemunho.

O pastor Nelson Moz, líder da igreja Eben Ezer, chama-os pelo nome e sobrenome. Os dois pulam de suas cadeiras para contar como suas vidas saíram da escuridão. O primeiro é Arnoldo, moreno e baixinho. Morto de vontade de tomar o microfone e contar a todos o que ele foi e o que é agora. Arnoldo aprendeu a pregar e está cheio de manhas:

– Quem vive, igreja?, grita logo de entrada.

– Cristo!, respondem todos em coro.

– E em seu nome?

– Glóriaaaaaa…!

O rapaz surge, iluminado, para contar uma infância atroz e uma juventude cheia de ódio, a sensação do crack correndo a galope pelo sangue, como se fosse estourar as veias; o cheiro da pólvora, do vazio. “Desperdicei meu tempo na gangue”, diz, com um microfone conectado a um alto-falante, em meio ao bairro Dina, onde a pandilla é a lei. Pede incessantemente que “Deus repreenda o diabo” e se despede dizendo que Deus é real, que falou com ele e que ele acreditou no que ouviu.

Em seguida, Jorge toma o microfone. Com sua imensa timidez e seu arsenal escasso de palavras, tenta falar de uma maravilha que é maior do que a sua boca, e pede desculpas por não saber falar bem. Diz que ele só tem a própria história para dar: “O inimigo me roubou minha infância e a minha juventude”, diz, “assim como eu menti na minha vida para tantos jovens, para que entrassem na gangue.” Ele reconta a sua vida como pode e em voz baixa vai costurando, em meio a saltos, o criminoso que ele foi e o seu encontro inexplicável com Deus.

A igreja os aplaude e dá as boas-vindas.

O pastor-geral, Nelson Moz, nunca foi pandillero. É um homem chegando aos 50, com um bigode robusto e muito distante da estridência que geralmente se associa aos pastores evangélicos. Não grita durante sua pregação e é muito comedido ao falar, elege suas palavras com calma e, embora essa comparação seguramente lhe parecerá odiosa, tem a postura de um sacerdote católico. Mas Nelson Moz é o oposto de um pregador acomodado: não foram poucas as vezes que a polícia deixou claro que o considera um homem suspeito por abrir as portas da sua igreja às gangues. Também não foram poucas as vezes que a polícia entrou no meio da noite no seu templo, sem nenhuma ordem judicial, para buscar homens tatuados – que invariavelmente encontrou.

Em 2012, o pastor Nelson Moz conheceu um pandillero recém-saído da cadeia que dizia ser cristão e estar desamparado. Moz acreditou nele e permitiu que ficasse dormindo no seu escritório durante três dias, que acabaram se tornando cinco anos; seu templo se converteu em um refúgio improvisado para os homeboys convertidos em ovelhas na prisão que, ao cumprirem a sua pena, escolhiam não voltar ao abrigo das gangues. Essa decisão lhe custou boa parte dos seus fiéis e seus dízimos. Mas Moz está convencido de que essa é a missão que Deus pôs no seu caminho.

Quando Jorge e Arnoldo terminaram de dar seu testemunho, Nelson Moz toma o microfone e explica, uma vez mais, a história da igreja Eben Ezer: “A igreja estava na comunidade, mas não era da comunidade. Passou uma parte da história dentro de uma bolha enquanto os malandros estavam botando fogo nas ruas. Não era bem-visto que um pandillero se sentasse na igreja.

A igreja só mantinha a parte ritual. Não é possível que nós tenhamos que esconder os templos”, diz, com uma ligeira alteração na voz normalmente calma. “Antes pensávamos que as missões cristãs deviam estar na África em busca dos que ainda não foram tocados pela palavra de Deus. Mas os não tocados estão na esquina, são os membros da Barrio 18, e é nosso dever levar a eles a palavra de Deus”, ruge, em um país onde ninguém pronuncia em voz alta o nome das gangues e em uma comunidade onde elas são a linha que separa a vida da morte.

“As pandillas foram missionários antes de nós, chegaram a todas as comunidades. Mas não podemos seguir assim, nós temos que ir a esses lugares e ganhar os territórios para Cristo”, diz, e os jovens que o escutam – meninos devotos que cresceram no meio das gangues – gritam em coro: “Amém!”.

Antes de terminar o culto, o pastor Nelson Moz pede aos fiéis que rezem pelo pastor Carlos Montano, para que ele volte a encontrar o caminho do Senhor. Porque há um segredo que algumas vozes murmuram entre as ovelhas: Carlos Montano, a pedra angular do rebanho da Trombeta Final, pastor de mais de 400 ex-homeboys que acreditaram em sua pregação e decidiram desafiar o poder da Barrio 18, voltou a se enterrar na escuridão.

Te amamos, papito

Faz umas semanas que o pastor Carlos Montano deixou a cadeia de San Francisco Gotera. Wilfredo Gómez, como um dos pastores da Igreja da Trombeta Final, tornou-se um dos sustentáculos do rebanho depois que o pastor-geral saiu da prisão. Na cadeia, Wilfredo Gómez manteve a seu cargo a condução de mais de 200 ovelhas. Depois da esposa tê-lo abandonado quando decidiu cumprir as rigorosas normas sobre conduta sexual, faz um ano que não sabe nada sobre ela. Ele não teve maneira de saber se a esposa fez uma nova vida. Até hoje. Enquanto se cumpre a papelada que permitirá que saia como um homem livre, Wilfredo Gómez a vê atrás das grades da cadeia, abre os olhos grandes e olha para ela como a uma lua cheia, sem conseguir dizer mais palavras que “meu amor”.

Quando um interno sai da cadeia em El Salvador, sai apenas com a roupa íntima, mas o diretor teve a deferência de permitir a ele sair com o seu uniforme de prisioneiro: shorts brancos, uma camiseta da mesma cor e umas sandálias de borracha. As algemas são removidas e uns soldados o colocam em um quarto para fotografar o seu rosto. Fazem-no tirar a camisa e fotografam o seu peito cheio de tatuagens da gangue. Depois deixam-no ir embora.

Fred Ramos

Carlos Montano antes da festa em sua homenagem

Ele sobe apressadamente na picape onde o esperamos e pede que parta o mais rápido possível. O bairro de San Francisco Gotera é propriedade da Mara Salvatrucha-13 e não é recomendável perder tempo.

Na prisão se escutam aplausos e gritos: a Trombeta Final está tendo uma sessão de batismos.

No carro, Wilfredo Gómez ri como um menino romântico olhando a sua esposa e a sua liberdade, e nenhuma das duas cabe no seu olhar nem em seu sorriso. Ele passou uma década na prisão, condenado por assalto à mão armada. Não conhece El Salvador. Foi deportado dos Estados Unidos em 2007 e, três meses depois de ter chegado ao país, foi preso.

“Tudo está tenso, irmão” – diz ele enquanto avançamos –, “as gangues nos veem como inimigos. Se nos agarram, nos matam. Nos declararam pesetas e enviam ameaças aos membros da igreja.” No mundo das gangues, ser chamado de peseta é uma das cargas mais pesadas: é viver como um traidor, que é o mesmo que viver como um condenado à morte.

Na metade do caminho, Wilfredo Gómez faz a pergunta que lhe aperta a garganta: “Bom, e o que aconteceu com Montano?”. Faz-se um silêncio. Ricardo, membro da igreja Eben Ezer, tenta mudar de assunto. Na cadeia correu a notícia de que o pastor Montano voltou ao pecado “do mundão”, e isso caiu como uma bomba que a princípio só chegou aos ouvidos dos líderes religiosos, mas logo se espalhou como fumaça. Tentam ligar para ele, mas ele não atende o telefone, e Wilfredo Gómez grava uma mensagem de voz: “Alô, pastor Montano, eu ainda te chamo de pastor porque você ganhou esse posto, mas você é um covarde”.

Chegamos à igreja Eben Ezer ao meio-dia, no bairro Dina, e um punhado de ovelhas o abraça e o bendiz. Riem e se voltam a abraçar, e Wilfredo Gómez desaparece no quintal para tomar uma ducha longa e tirar a roupa da prisão. Improvisa-se um almoço ao qual comparece o pastor Nelson Moz, e Wilfredo fica maravilhado com o prato humilde de um restaurante do bairro. Aquele pedaço de frango torna-se um manjar na sua boca. Ele comenta com os demais como é difícil acostumar-se de novo aos sapatos e a falar ao telefone sem olhar sobre os ombros. Riem. E o assunto volta à tona: o que aconteceu com o pastor Carlos Montano?

Aos 25 anos, o pastor Montano cedeu às tentações com que “o mundão” o tentou seduzir: sendo um rapaz jovem, se deixou tentar, dizem que se embebeda e se droga com os seus ex-companheiros da célula. Alguns acreditam que ele voltou a ser ativo na gangue, e todos sabem que se afastou da igreja, que não aparece há várias semanas, que não atende os telefonemas, que abandonou a missão.

Ricardo volta a ligar sem nenhuma esperança, para provar a Wilfredo Gómez que seus temores estão certos, que não há maneira de o pastor Montano atender. O telefone toca uma vez e outra e… “Alô, pastor Montano? Que bom falar com você, te ligamos porque o Wilfredo acaba de sair e… em uma hora? Sim, claro, claro, aqui estaremos”. De novo faz-se silêncio.

Depois, a igreja se converte em uma panela em ebulição e os telefones soltam fumaça propagando a notícia de que o pastor desaparecido foi encontrado. Logo aparece um irmão, e depois outro e mais outro.

Carlos Montano entra no lugar com o rosto desconcertado, sem saber o que dizer perante a festa que se organizou em sua honra: não o alcançam braços para abraçar nem palavras nem o sorriso. Wilfredo Gómez o abraça forte e diz no seu ouvido palavras que ninguém escuta. Carlos Montano não sabe o que dizer e tenta manter o sorriso enquanto recebe as boas-vindas que nunca acabam. É difícil notar, mas o pastor está bêbado.

O momento inicial acaba e então chega a hora de prestar contas. Seus irmãos o fazem subir ao segundo andar. Há muita gente em um quarto pequeno e os rostos alegres do início agora se põem sérios e severos. Logo Carlos Montano se encontra no centro de um círculo e começa a perguntar com timidez: “O que vocês estão inventando?”. Roberto dá um passo adiante, com seu pescoço largo, cheio de tatuagens, com todas as suas juntas cheias de tinturas indecifráveis, e aponta para ele com gravidade no meio do silêncio: “Olha, o que queremos te dizer é que te amamos, papito”.

Carlos Montano tenta manter a pose enquanto Roberto prossegue: “Qualquer coisa que tenha acontecido tem concerto, Deus tem grandes planos para você…”. E logo Wilfredo: “Não é a nós que você deve se explicar”; e Arnoldo, baixinho e humilde: “Quando eu estava na cadeia, você me deu forças para perseverar e agora eu vim te dar forças também”; e o pastor Nelson Moz: “Eu gosto de você como a um filho”; e de novo Roberto: “Voltou a trabalhar para a gangue? Conte, na verdade, que tudo tem concerto, podemos falar com quem seja para arrumar as coisas”. E Carlos Montano, oprimido, explica que não, que ofereceram, mas ele disse que não. E todos na roda respiram aliviados.

Carlos Montano se põe de joelhos entre seus irmãos e todos oram a gritos por ele, para que recupere o caminho, para que volte a ser a pedra angular que foi. Wilfredo Gómez é arrebatado pelo seu espírito e começa a falar línguas que não são compreensíveis aos homens. Ao final, quando as vozes terminam, Montano está de joelhos, emocionado e vencido, rodeado de homens rudes com lágrimas nos olhos. O pastor se reconciliou com a sua igreja.

Mas haver fraquejado é um pecado não apenas diante de Deus, mas também diante do Barrio 18. A gangue sabe como fazer respeitar a norma que dita que não se pode brincar nem com Deus nem com a pandilla. Os devaneios do pastor Carlos Montano pareceriam apenas um sopro de vento ou a consequência natural de uma missão tão pesada sobre ombros tão jovens, não fosse porque no meio disso está a vida e a morte: para a gangue é inadmissível que quem se afasta argumentando devoção cristã apareça bêbado logo depois. É uma piada e uma ofensa, uma prova de que somente se usou a religião como desculpa para encobrir covardia e traição. E a isso se soma sem dúvida o agravante de que quem cometeu a falta tenha retirado 460 pessoas do poder do Barrio.

Nessa mesma noite, Carlos Montano se comprometeu a “ir pagar” o que deve à gangue, e quando comenta ninguém tenta dissuadi-lo, ninguém toma isso com alarme. Para que serve se alarmar com o inevitável? Enquanto abraça seus irmãos e enquanto os escuta falar de perdão e de amor, Carlos Montano tem na cabeça a inexorável vingança da Barrio 18.

A grande batalha

A norma das gangues para aplicar corretivos é um espancamento de 18 segundos. Quando a falta é muito grave, se aplica o castigo que antecede o assassinato: 36 segundos de tortura. Carlos Montano sobreviveu ao espancamento. A gangue permitiu que respirasse. O que salvou a vida do pastor foi o fato de que os Revolucionários do Barrio 18 atravessam um momento disperso: não há quem assuma a autoridade nacional com o poder, ou o respeito, necessários para absolver ou condenar os líderes da Trombeta Final e as suas ovelhas rebeldes.

O pastor Carlos Montano levantou o que restou dele depois do espancamento e caminhou sozinho para fora daquele campo de futebol. Percorreu a comunidade onde foi pandillero arrastando o corpo por aquelas vielas, deformado, dolorido, humilhado. Conseguiu chegar à sua casa e se jogou na cama. Nos dias seguintes, parte do corpo mudariam de cor e se inflamariam até virar uma corcunda roxa que lhe recordava, apesar de tudo, que estava vivo.

Fred Ramos

Carlos Montano ajoelha-se entre os seus irmãos e todos gritam por ele

Por todo o país se soube da existência de 460 presos na cadeia de Gotera que haviam decidido renunciar à gangue. O diretor de Centros Penais confirmou a conversão de tantos pandilleros de uma vez. Um mês depois, o escritório que ele dirige garantiu que esses criminosos de duvidosa credibilidade tinham mudado suas vidas graças ao programa penitenciário Eu Mudo. E o gabinete de segurança atribuiu a transformação daqueles réus ao efeito aterrorizante das medidas extraordinárias que pesam sobre as gangues. Ninguém mencionou o pastor Carlos Montano, ninguém sabia o nome da Trombeta Final e, se o sabiam, jamais chegaram a pronunciá-lo durante as coletivas de imprensa nas quais apresentaram as ovelhas como seu próprio êxito.

Nas ruas corre à boca pequena que, diante da falta de uma decisão nacional da gangue, algumas células estão tomando as próprias decisões. Algumas ovelhas escutaram que as “tribos” de Zacatecoluca e Quezaltepeque proibiram os seus membros de se converter ao cristianismo e prometeram assassinar os líderes da revolução das ovelhas. Outros ouviram o mesmo sobre as “tribos” de Apopa e Lourdes. Outros dizem saber que, desde a prisão de segurança máxima de Zacatecoluca, os líderes nacionais da gangue ordenaram que se deixem em paz os cristãos e as igrejas que os acolhem. Por fim, ninguém sabe com precisão se neste momento a Igreja da Trombeta Final está ou não ameaçada de morte.

O pastor Carlos Montano se recuperou das suas feridas e escolheu manter um baixo perfil enquanto consegue recuperar a confiança e a credibilidade perante o seu rebanho. Segue sonhando em criar um albergue grande onde aqueles que saem da cadeia possam ser alojados enquanto não conseguem trabalho. Um santuário onde tenham a opção de não voltar ao “mundão”. Segue sonhando que um dia igrejas e ONGs entenderão a importância de que o seu sonho exista. Isso ainda não aconteceu.

Enquanto isso, o pastor Nelson Moz e os irmãos da igreja Eben Ezer organizaram um evento massivo em um bairro controlado pela Mara Salvatrucha-13 ao qual vieram os pregadores e ovelhas que pertenceram à gague inimiga, Barrio 18. O pastor Moz pode ser um homem sombrio nos modos, mas naquela tarde, vendo pandilleros inimigos se abraçarem e confessarem o seu arrependimento, sorria sem parar e, em um arrebatamento visionário, anunciou: “Agora mesmo nos céus uma grande batalha entre anjos e demônios é travada”. Quem sabe ele está certo, e a única coisa que não se sabe ainda é quando essa batalha ancestral se derramará sobre a terra.

    Carlos Martínez  6 de March de 2019  12:00  Publicado Primeiro em Pública – Dados

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