Desculpe pelo inconveniente, mas isso é uma revolução

BRASIL

Desculpe pelo inconveniente, mas isso é uma revolução

coluna

O muro dessas mulheres é de liberdade,contra tradições cujo propósito é humilhar

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social |
Kerala, 2019
Foto: Sivaprasad Parinhattummuri

Por Vijay Prashad*

Havana, 1959. Foto: Burt Glinn.
“Eles transformaram Cuba em um antro de jogos de azar”, cantou o poeta Carlos Puebla, “e então chegou Fidel “. Enquanto as mulheres de Kerala se reuniam para formar seu muro, o povo de Cuba celebrava o sexagésimo aniversário de sua revolução. Nesses sessenta anos, Cuba enfrentou uma guerra econômica por parte dos Estados Unidos e das oligarquias da América Latina. O governo revolucionário e sua população altamente militante lutam para evitar a invasão, o assassinato, assim como o estrangulamento econômico. Não passou um dia sequer em que os cubanos pudessem descansar tranquilos: o ditador derrotado fugiu com o dinheiro de Cuba, o governo dos EUA iniciou sua política de desestabilização, o antigo sistema colonial baseado na plantation de cana-de-açúcar perdeu investimento e a ilha se tornou – como Puebla cantou – um antro para jogadores. A ajuda da URSS não conseguiu superar o fardo de uma longa história de escravidão colonial e dominação imperial.
Quando a URSS entrou em colapso em 1991, Cuba perdeu um pilar essencial de apoio. Entrou no Período Especial e cambaleou nos últimos 25 anos, protegendo-se das ameaças dos EUA e das armadilhas da globalização. Vinte anos atrás, em 1999, Fidel Castro falou sobre os perigos do “gigantesco cassino”, com financiamento para superar as necessidades dos seres humanos. O dinheiro é emprestado para produzir mais dinheiro, mas não para curar doenças ou para abrigar sem-teto. Não há proteção contra a ganância, apenas uma das muitas emoções humanas. Castro descreveu o imperialismo das altas finanças como “lobos, agrupados em bandos e auxiliados por programas de computador”. Esses lobos, disse ele, “sabem onde atacar, quando atacar e quem atacar”. Eles querem transformar Cuba em um antro de jogatina novamente.
Hoje, a revolução de Cuba está em grave perigo (como relato em minha coluna). O presidente dos EUA, Donald Trump, fixou o garrote no pescoço dos cubanos e ameaçou puxar com mais força. As finanças viraram as costas para a ilha, que assiste à sua aliada Venezuela debater-se sob as mesmas pressões (consulte o nosso dossiê do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social sobre a situação na Venezuela). Não existe um “mercado” que decida, por mágica, atacar Cuba e a Venezuela. Eles estão enfrentando um ataque político, a guerra do dinheiro, a corda sufocante, a luta por ar.

Poster desenhado poe Jesus Barraza do Dignidad Rebelde, baseado na fotografia de Kristen Flores.

O título desta carta vem de um comunicado divulgado pelo Subcomandante Marcos do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Marcos fez esta declaração quando o EZLN iniciou sua insurreição em Chiapas (México) há 25 anos. Tudo parecia perdido em 1994. A URSS havia desaparecido, a China havia entrado em sua era de reformas, Cuba estava em seu Período Especial, a Organização Mundial do Comércio e o Fórum Econômico Mundial de Davos pareciam dirigir o planeta e começaram a vazar notícias sobre o genocídio em Ruanda. Então, do nada, em 1º de janeiro de 1994, os zapatistas tomaram uma série de cidades em Chiapas e declararam que as forças da liberdade permaneciam vivas e bem. Marcos lançou comunicados que ofereceram uma nova visão do futuro. “Mas hoje nós dizemos: chega!”, ¡ya basta!, como diz o primeiro comunicado da Selva da Lacandona.
Um quarto de século depois, repetimos: ¡ya basta!
Assim também o diz o EZLN, que acolheu a presidência de Andres Manuel López Obrador, mas que o adverte que não pode continuar com as políticas de roubo de terras indígenas e destruição da terra. Comandante Everilda, do EZLN, tem uma mensagem forte para nós. Ela diz: “Não permitiremos nenhum projeto que destrua a vida da humanidade e a morte da nossa mãe terra – porque por trás desses projetos estão os interesses dos capitalistas nacionais e transnacionais”. Não dos povos. ¡Ya basta!

7 de January de 201911:58

Via Brasil de Fato

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