Há 60 anos, estudante dava a própria vida para salvar vítimas de incêndio em hospital de Fortaleza

GERAL

Há 60 anos, estudante dava a própria vida para salvar vítimas de incêndio em hospital de Fortaleza   

Em homenagem a João, a Praça da Lagoinha recebeu um busto produzido pelos escultores Angélica e Honor Torres (FOTO: Tribuna do Ceará / William Barros)

11 de agosto é o Dia do Estudante. Mas, em especial para muitos cearenses, esse também é o dia de relembrar um estudante em particular. Trata-se de João Nogueira Jucá, aluno do antigo Colégio São João.

Há exatos 60 anos, ele foi responsável por salvar inúmeras vítimas de um incêndio na então Casa de Saúde Dr. César Calls. Num ato digno de um herói ou de um mártir, João deixou sua própria vida pelo caminho.

Para recontar essa história, Tribuna do Ceará conversou com a família Jucá e seus amigos. A partir de agora, convidamos você a relembrar como um jovem e corajoso estudante cearense se tornou herói.

Herói forjado no fogo

Para o futuro, João Nogueira Jucá desejava ingressar na Marinha do Brasil. Por isso, quase todos os livros lidos pelo estudante tinham um tema em comum: o mar. No entanto, foi em meio ao fogo que o jovem de 17 anos deu a maior prova de seu heroísmo. E desde a tarde do dia 4 de agosto de 1959, o rapaz habita a memória de muitos cearenses.


Às 14h, João voltava de uma aula de halterofilismo. Quando chegou à Praça da Lagoinha, no Centro, uma aglomeração de pessoas no entorno da Casa de Saúde Dr. César Cals lhe chamou a atenção. Não demorou para que entendesse do que se tratava. Um incêndio atingia o prédio onde hoje funciona o Hospital Geral Dr. César Calls (HGCC).

A então Casa de Saúde César Cals foi o cenário do heroísmo de João Nogueira Jucá (FOTO: Reprodução / Fortaleza Nobre)

As chamas tiveram início após uma explosão no depósito de tubos de éter, oxigênio e outros produtos inflamáveis. Funcionários lutavam para retirar dali substâncias que poderiam agravar a situação. Aos nervos, pacientes e seus respectivos acompanhantes saíam da Casa e imediatamente lembravam de quem ainda estava no interior da unidade.

Diante daquela situação, João não hesitou. “Vou entrar. Se quiserem ajudar também, me sigam”, anunciou aos amigos que o acompanhavam. Advertiram-lhe sobre os perigos, mas não bastou. Do interior da Casa, o estudante retirou inúmeros tubos de éter. Mas acima de tudo, salvou as vidas de recém-nascidos e parturientes.

Salvador incessante

Mesmo quando o Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE) já havia iniciado seus trabalhos, João não abandonou a missão que tomara para si naquela tarde. “Por favor, meu filho, não entre mais aí”, pedia uma das enfermeiras. “Mas ainda tem gente lá dentro”, justificava o obstinado garoto, referindo-se à chamada “ala dos indigentes”, setor onde ficavam os pacientes mais pobres ou sem documentos de identificação.

Na porta do hospital, João se deparou com uma mulher que chorava copiosamente. “O que você tem? Você já não está salva?”, questionou-a. “Mas não tive tempo de pegar o meu bebezinho”, lamentou a moça. Sem pensar muito, João retornou ao interior da Casa de Saúde e seguiu para o quarto indicado pela jovem. Ao sair, entregou o recém-nascido nos braços da mãe.

A pedido de uma das freiras que trabalhavam na Casa, João adentrou mais uma vez, para retirar um tubo de oxigênio. Enquanto o estudante transportava o objeto, ocorreu a segunda explosão. Dessa vez, o herói não saiu ileso. Sofreu queimaduras de primeiro, segundo e terceiro graus. Até mesmo seus órgãos internos foram atingidos.

Depois disso, João já não tinha mais condições de salvar outras vidas. Dali em diante, começava a lutar para salvar a sua própria. Lutava em silêncio. Sem reclamar das dores, aguardou pelo atendimento junto aos demais sobreviventes. Em momento algum valeu-se do fato de que seu pai era o desembargador José Jucá Filho e foi um dos últimos a receber socorro.

Sete dias

Nos primeiros dias que se seguiram ao incêndio, João ocupou um leito na Assistência Municipal de Fortaleza (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Inicialmente, o garoto ficou internado na Unidade de Queimados da Assistência Municipal, atual Instituto Dr. José Frota (IJF). Dias depois, foi encaminhado para a Casa de Saúde César Cals, cenário de sua heróica atitude. Dia a dia, sua internação foi alvo de intensa cobertura jornalística. Até mesmo o então governador Parsifal Barroso chegou a visitá-lo.


No quarto 42, foi ininterruptamente acompanhado pelo pai e pela mãe, a professora Maria Nogueira de Menezes, conhecida como Dona Nenen. “Dói muito, meu filho?”, questionava a genitora, apontando para as queimaduras. “É uma brasa, mamãe”, respondia João. “Você não se arrepende do que fez?”, indagava o pai. “O que fiz ainda foi pouco. Se pudesse, teria feito mais”, rebatia o menino.

Os pais de João estiveram perto do filho até o fim dos dias do menino (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Durante o período na Casa de Saúde, João nem sempre esteve consciente. Em delírio, imaginava-se oficial da Marinha e chegava a bater continência. Numa tarde, recebeu o perdão do pai. “Agora, eu morro satisfeito”, disse. E assim o fez às 5h20 da manhã do dia 11 de agosto. Devido às complicações decorrentes das queimaduras internas, o jovem partiu.

Parsifal Barroso, então governador estadual, liderou o cortejo que seguiu para o enterro de João (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Parsifal Barroso, então governador estadual, liderou o cortejo que seguiu para o enterro de João (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Seu enterro gerou comoção a boa parte da população fortalezense, que acompanhou o corpo de João em cortejo até o Cemitério São João Batista. O menino, que ali já era herói, agora revelava-se mártir. Para salvar tantas outras vidas, João Nogueira Jucá perdeu a sua.



Anos de lembranças e choro

Terezinha foi casada com o irmão de João por 48 anos (FOTO: Tribuna do Ceará / Fábio Rabelo)

Terezinha Ponte Jucá começou seu namoro com José Jucá Neto, irmão mais velho de João, em dezembro de 1958. A convivência com o cunhado-herói durou apenas 10 meses. No entanto, pelo resto de sua vida, Terezinha assistiu de perto o sofrimento da família pela ausência do ente tão querido.

“Foram anos de lembranças e choros. A morte do João trouxe um vazio muito grande para a família. Eu via o sofrimento do meu marido e sofria junto com ele. Meu sogro não saía mais para canto nenhum, nunca mais assistiu à televisão. Minha sogra teve mais força. Acho que toda mãe é mais forte. Ela foi quem conseguiu ajudar mais a família”, relembra.

Os pais de João vestiram luto até o fim de suas vidas (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

 

Aos 80 anos, Terezinha é uma das poucas pessoas da família que chegaram a conviver com João e ainda estão vivas. Segundo ela, a aceitação da morte demorou a chegar. “A gente sabia que não era vontade nossa. A vontade era de Deus. Se Ele tinha levado o João, era porque tinha certeza que ele estava preparado para ir”, reflete.

Hoje viúva, ela foi casada por 48 anos com José Jucá Neto, advogado e professor do Departamento de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC). Segundo ela, o marido e o irmão eram “muito unidos, se queriam muito bem”.

Terezinha e os filhos, João e Danielle, guardam com orgulho os exemplares da biografia do tio (FOTO: Tribuna do Ceará / Fábio Rabelo)

 

José chegou a narrar a trajetória do irmão no livro Herói e Mártir (2002, Editora ABC). Além disso, o primeiro dos cinco filhos com Terezinha foi escolhido para receber o nome do que consideram “o maior exemplo de coragem” na família: João.

Um nome, uma história a repassar

José escolheu o primeiro filho (à esquerda) para homenagear o irmão já falecido (FOTO: Tribuna do Ceará / Fábio Rabelo)

 

“Eu me orgulho muito do nome que eu tenho, porque relembra uma pessoa que foi importante para a sociedade cearense. É um exemplo de um tio que eu queria muito ter conhecido”, revela João Nogueira Ponte Jucá, o sobrinho mais velho de João Nogueira Jucá.

Já aposentado, o funcionário público cresceu ouvindo a história do tio e preocupou-se em repassá-la aos que nasceram depois. “Meus filhos têm 32 e 30 anos. Sempre ouviram a história do meu tio. Já tenho uma neta de dois aninhos, que logo, logo, passará também a entender que teve um herói na família”, assegura.

O sobrinho se orgulha do nome que carrega, mas lamenta não ter conhecido o tio (FOTO: Tribuna do Ceará / Fábio Rabelo)

A todo instante, a religiosidade da família Jucá fica mais clara. Para o sobrinho, João seguiu o exemplo de Jesus Cristo. “Ele é exemplo de vida, doação, amor, caridade. Sem conhecer ninguém, entrou nas chamas ardentes e salvou desconhecidos. Ele deu a prova maior do amor ao próximo”, orgulha-se.

Segundo ele, é importante manter a história de João viva. “Ele dá um exemplo de doação aos nossos jovens e – por que não dizer – à sociedade, de um modo geral. A sociedade é composta de pessoas boas e pessoas más. João Nogueira Jucá é o exemplo de uma pessoa boa”, reflete o aposentado.

30 anos de uma homenagem ininterrupta

Barreira Nanan é o mobilizador oficial da solenidade que anualmente homenageia o estudante João Nogueira (FOTO:Tribuna do Ceará / Fábio Rabelo)

Barreira Nanan é o mobilizador oficial da solenidade que anualmente homenageia o estudante João Nogueira (FOTO:Tribuna do Ceará / Fábio Rabelo)

 

Luiz Carlos Aires Barreira Nanan também não conheceu João Nogueira Jucá. O que sabe é que o menino foi seu contemporâneo no Colégio São João, onde estudava à época do incidente na Casa de Saúde Dr. César Cals. No entanto, uma cena fez com que o heroísmo de João jamais saísse da cabeça de Luiz.

“Lembro do professor Odilon Braveza contando do acontecido para o estudantes. O Braveza era muito duro, nunca tínhamos o visto tão comovido. Foi um choque para mim e para todos os colegas. Nunca esqueci disso”, relembra o aposentado do Ministério da Saúde.

O professor Odilon Gonzaga Braveza era o diretor da escola onde João Nogueira Jucá estudava (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

O professor Odilon Gonzaga Braveza era o diretor da escola onde João Nogueira Jucá estudava (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Há quase 30 anos, quando estava à frente da Associação de Ex-alunos do Colégio São João, ele sugeriu a homenagem a João Nogueira Jucá. Segundo ele, o colega de escola é “o aluno mais importante da instituição”.

“O colégio teve grandes alunos, mas o João é o mais importante, porque ele é estudante até hoje. Nós já estamos velhos e ele continua sendo estudante, garoto, de 17 anos. E assim vai ficar eternamente”, reflete Nanan, que, desde a década de 1990, organiza homenagens a João Nogueira.

Quando o dia 11 de agosto se aproxima, Barreira começa a telefonar para os participantes da solenidade: a família Jucá; colegas de João; o Corpo de Bombeiros Militar do Ceará; a Organização Educacional Farias Brito, que hoje ocupa o prédio onde funcionava o Colégio São João; o Hospital Geral Dr. César Cals.


A celebração começa com uma missa na capela do hospital. Em seguida, um café da manhã é servido para os convidados. Logo após, seguem para a Praça da Lagoinha, próximo ao busto de bronze que homenageia João. Luiz garante que a celebração será feita sempre que possível. Para ele, a cerimônia tem servido de alerta para evitar outras mortes.

“Existem outros gestos bonitos como os dele, mas eu acho que ele merece ser lembrado com carinho. A juventude geralmente é espontânea e solidária, mas o João foi além disso. Nós não queremos mais que morra outro João Nogueira. Queremos que esse aí baste e sirva de exemplo para que se tenha mais cuidado com acidentes”, adverte Nanan.

Honorário colega

Para Luciano Viana, tenente do Corpo de Bombeiros, João Nogueira é uma inspiração (FOTO: Tribuna do Ceará / Fábio Rabelo)

“João Nogueira Jucá não foi bombeiro por profissão, mas foi bombeiro de coração”, acredita o tenente Luciano Viana, do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará. O historiador é autor de um livro que conta a história da corporação no estado desde os seus primórdios. Na obra, há um capítulo dedicado aos heróis do CBMCE. Jucá não poderia faltar, é um dos destaques.

“O João consegue mostrar a bravura que é preciso ter no trabalho de bombeiro. O ato dele inspira muito a mim e aos meus colegas como profissionais de bombeiros”, define o autor de História do Corpo de Bombeiros Militar do Ceará – Dos seus primórdios aos dias atuais (2018, Editora RDS).

Luciano acredita que a autoescada mecânica datada de 1957 possa ter sido utilizada durante os trabalhos de resgate no incêndio da Casa de Saúde (FOTO: Tribuna do Ceará / Fábio Rabelo)

 

Por esse motivo, o Corpo de Bombeiros e o Governo do Estado do Ceará instituíram a Medalha de Bravura João Nogueira Jucá, concedida a quem pratica atos heróicos. “O Corpo de Bombeiros tem esse trabalho de reconhecer quem colabora com o Estado ou com a instituição nessa parte operacional”, explica Viana.

Nogueira recebeu o título de bombeiro honorário, por ocasião dos 28 anos do falecimento de João (FOTO: Arquivo pessoal da família Jucá)

Em 1987, João Nogueira Jucá foi reconhecido como o primeiro bombeiro honorário cearense. O título atenta para uma ironia da vida: o menino que sonhava com o mar provou mesmo seu heroísmo em meio ao fogo.

    William Barros  8 de August de 2019  10:52  

Publicado Primeiro em Tribuna do Ceará

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