Irã celebra 40 anos da Revolução Islâmica com protestos contra os EUA

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Irã celebra 40 anos da Revolução Islâmica com protestos contra os EUA

Persas

O feriado lembra a derrubada, em 1979, do regime autoritário e pró-Ocidente do xá Mohammad Reza Pahlavi

Redação* |
Ruas iranianas foram tomadas por mulheres usando chador, crianças com balões, homens de roupas escuras, milícias uniformizadas e clérigos
Foto: Reprodução

Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas de diversas cidades do Irã, nessa segunda-feira (11), para celebrar o 40º aniversário da Revolução Islâmica. O feriado de 22 bahman (no calendário iraniano) lembra a derrubada, em 1979, do regime autoritário e pró-Ocidente do xá Mohammad Reza Pahlavi, apenas dez dias depois do triunfal retorno do aiatolá Ruhollah Khomeini do exílio. Com a queda de Pahlavi, Khomeini fundou a República Islâmica do Irã, baseada numa teocracia xiita.

A efeméride serviu de combustível para denunciar o fracasso dos “planos diabólicos dos inimigos” do país, sobretudo dos Estados Unidos. Na icônica Praça Azadi (Liberdade), em Teerã, símbolo da revolta de 1979, manifestantes entoaram o slogan “morte à América”.

Diante do enorme público, o presidente Hassan Rohani discursou sob uma incessante chuva – o que, no árido país, é considerado uma bênção. “A presença do povo nas ruas de toda a República Islâmica do Irã prova que os complôs de nossos inimigos foram desmantelados. Não permitiremos que os Estados Unidos vençam essa guerra”, afirmou Rohani. 

Segundo o presidente, os complôs contra o Irã partem não só dos norte-americanos, mas também dos “sionistas” e dos Estados “reacionários” do Oriente Médio. Os cartazes refletiam o discurso com palavras de ordem como “Abaixo à Inglaterra”, “Morte a Israel”, “Pisoteamos os Estados Unidos”, “40 anos de desafios”, “40 anos de derrotas dos Estados Unidos”, “Israel não viverá mais de 25 anos”, entre outras.

A multidão também agitava bandeiras com as cores nacionais (verde, branco e vermelho). As mesmas cores adornavam a torre Azadi, monumento emblemático de Teerã inaugurado por Reza Pahlavi em 1971, por ocasião dos festejos dos 2.500 anos do nascimento do império persa. Em meio aos guarda-chuvas, viam-se, ainda, cartazes do guia supremo, Khamenei, e do aiatolá Khomeini.

O comparecimento à Praça Azadi, em especial, aumentou de hora em hora durante toda a manhã. Mulheres usando chador, crianças com balões, homens de roupas escuras, basijs (milícias islâmicas) uniformizadas e clérigos com turbantes desfilavam pela praça. Duas réplicas de mísseis balísticos, de fabricação local, eram exibidas em uma rua. Não muito longe, também era possível ver réplicas de mísseis de cruzeiro.

Como nos anos anteriores, as comemorações da Praça Azadi incluíram flores lançadas de helicópteros, uma aterrissagem de paraquedas e orações. A televisão estatal transmitia imagens da multidão reunida em Teerã e em várias cidades iranianas, advertindo sobre a desinformação “de alguns meios de comunicação estrangeiros hostis”.

Recessão

Para o Irã, a comemoração ocorre em um período de dificuldades, com aumento dos preços e insuficiência ocasional de alimentos, que levaram a protestos. Num deles, houve slogans contra as intervenções estrangeiras: “Não por Gaza, não pelo Líbano, só dou a minha vida pelo Irã”.

Os benefícios comerciais e financeiros esperados com o acordo sobre o programa nuclear, assinado em 2015 com as grandes potências, não se concretizaram. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia iraniana entrou em recessão em 2018 e o PIB do país cairá 3,6% em 2019.

Com o tratado – que foi implantado na gestão de Barack Obama na Casa Branca –, as potências suspenderam as sanções contra Teerã. Em troca, o Irã concordou em reduzir suas atividades nucleares, aumentando o tempo que precisaria para produzir uma bomba atômica, se assim desejasse. Mas em 2018, sob o governo Donald Trump, os EUA abandonaram o acordo, restabeleceram sanções e passaram a pressionar seus aliados ocidentais a não fazerem negócios com o Irã. 

Ao mesmo tempo, é o momento em que o Irã vive seu maior protagonismo no cenário internacional, em contraponto ao poderio da Arábia Saudita (principal potência sunita do Oriente Médio) e de Israel. “Os EUA anunciaram repetidamente que o Irã cairia, mas não serviu de nada. Ao contrário, o Irã assumiu uma posição mais forte”, provocou Rohani. “Graças à sua resistência e união, o Irã superará os problemas e as barreiras.”

História

O marco dos 40 anos, sinônimo de maturidade, é simbólico no mundo muçulmano: é a idade que, segundo a tradição, Maomé recebeu a revelação divina e começou a transmitir o Alcorão. As festividades do 40º aniversário da Revolução começaram em 1º de fevereiro – data em que Khomeini retornou a seu país depois de 14 anos no exílio. 

No auge da sublevação, em 11 de fevereiro de 1979, as Forças Armadas do xá se renderam e permitiram que Khomeini, líder da revolta, assumisse o poder e declarasse o Irã uma República Islâmica. Caía o regime apoiado pelos Estados Unidos.

Sobreveio, então, o sistema Nezam, formulado pelo próprio Khomeini durante o exílio: a “governança por estudiosos jurídicos islâmicos qualificados” se tornou o elemento central da Constituição iraniana, em oposição às ideias concorrentes das forças moderadas e esquerdistas. 

Após perdas significativas devido à guerra Irã-Iraque (1980-1988), iniciada pelo então ditador iraquiano Saddam Hussein, o Nezam, sustentado pelos principais pilares do clero conservador e pela Guarda Revolucionária, se consolidou. O aiatolá Khomeini foi o líder supremo do Irã por mais de dez anos, até sua morte, em 3 de junho de 1989. Seu sucessor, Ali Khamenei, está no poder até hoje.

Mulheres

A Revolução Islâmica não tirou os direitos de voto das mulheres, mas como o Estado é liderado por eruditos religiosos, as mulheres estão automaticamente em desvantagem na arena política. Mesmo dentro da família, de acordo com as regras da sharia, todas as decisões importantes são tomadas por pais ou maridos.

Em contrapartida, houve um incomparável sucesso educacional das mulheres no Irã. Elas representam um número desproporcional de graduados em universidades e estão fortemente presentes em cargos qualificados do setor público em comparação com outros países islâmicos.

Outro desafio para o Irã é conter a fuga de cérebros. Segundo o diário francês Le Monde, 125 mil jovens licenciados saem todos os anos do país.

*Com informações de agências de notícias.

12 de February de 201909:40

Via Brasil de Fato

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