José Comblin: A força da palavra

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José Comblin: A força da palavra

Resumo da introdução e do capítulo I

Força da Palavra dá sequência ao conjunto de estudos sobre a missão do Espírito Santo no mundo. Projeto arquitetado pelo autor, sobretudo a partir do seu livro-esboço publicado em 1978, O Espírito no Mundo, onde se acham as palavras-geradoras (“Ação”, “Palavra”, “Liberdade”, “Povo”, “Vida” “Profecia”…), que ele vai convertendo sucessivamente em livros, durante três décadas.

A Força da Palavra é, portanto, sua terceira obra de seus estudos pneumatológicos, contanto com o mencionado livro-esboço (ou a segunda dentro do plano geral da obra). O presente estudo perfaz 406 páginas. Consta de sete capítulos, além da introdução e de um alentado anexo, em cinco tópicos, acerca da tarefa dos teólogos latino-americanos. Na Introdução, o autor reflete sobre a impotência das teologias (católicas e protestantes) de compreender os desafios da evangelização, e, em seguida, busca situar de que modo a Palavra vai sendo revelada pela ação do Espírito Santo, no meio dos pobres.

O primeiro capítulo aborda o sentido da Palavra, por meio da qual Deus age. Palavra incarnada, feita pobreza, no meio do povo dos pobres. Donde sua força e sua fraqueza. Palavra do Pai que o Espírito vai infundindo em Jesus e em seus discípulos. Palavra que provoca divisões entre ricos e pobres, e entre verdadeiros e falsos pastores. Palavra cuja recepção se dá de diferentes modos, através dos tempos. Palavra que comporta força, mas também fraqueza.

No capítulo II, o autor mergulha na história do Cristianismo, a perscrutar a ação da Palavra diante da realidade da civilização greco-romana, apontando seus principais desafios. Segue-se um passeio pela Cristandade confrontada pela Palavra (cap. III). No capítulo IV, a atenção do autor se volta a relatar os percalços da Reforma diante da Palavra, enquanto a Modernidade é, por sua vez, confrontada pela Palavra, no cap. V. Já no capítulo VI, o autor destaca os impactos do discurso revolucionário, à luz da Palavra, destinando o último capítulo a refletir sobre como são enfrentados atualmente os desafios, diante do que inspira a Palavra.

Vamos, em seguida, destacar os principais pontos analisados pelo autor, em cada capitulo, iniciando pela Introdução.

Introdução (pp. 9-23)

– Deus é ação e é palavra. Ele age pela palavra. Os patriarcas e os apóstolos dão, todos, testemunho de que a Palavra de Deus é forte. Mas, parece que isto faz pouco efeito em nós. Por que será? Até que ponto não tem a ver com o fato de tudo esperarmos do que dizem as instâncias eclesiásticas das quais, não raro, se ouve uma palavra pouco compreensível, e em dissintonia com as inquietações do presente. Talvez se fale muito e se diga pouco. Talvez porque se teime em falar-se em evangelização, sem maior sensibilidade ao que diz o Evangelho: “Faz 50 anos que falamos em evangelização, mas não conseguimos descobrir o que é. Por quê? Porque não sabemos o que é o Evangelho, o que é a palavra que o mundo espera.” (p.10). Evangelizar supõe interlocutores que se comunicam, supõe diálogo. A Palavra de Deus toma em conta as particularidades dos destinatários da Palavra, bem como a diversidade de situações e circunstâncias concretas. (pp. 11 e 12).

– Digno de observação é o alerta que o autor faz, já na introdução, de que não tem qualquer pretensão de dizer “qual” é a Palavra de Deus. Seu propósito é de buscar identificar sinais da Palavra de Deus, partindo do contexto latino-americano, especialmente daqueles cristãos inseridos nas lutas de libertação desses povos. (cf. p. 11).

– A introdução está dividida em duas partes: na primeira (que vai da p. 12 à 20), o autor trata de situar como anda o que ele chama de teologia da evangelização; enquanto a segunda parte da introdução vai da p. 20 à p. 23, e trata da relação entre a Palavra e o Espírito Santo.

– Um primeiro desafio destacado pelo autor: o fato de as teologias cristãs (católicas e protestantes) terem sido afetadas pelo intelectualismo, por influência da filosofia grega. Teólogos que pretendiam que seu discurso representasse a Palavra de Deus, ainda quando fundado num de inspiração da dialética medieval tiveram a reação de outros que passaram a basear-se nos textos bíblicos, como se assim agindo, de forma também racionalista, tivessem encontrado “a” resposta. Assim fizeram teólogos tais como K. Barth, F. Brunner, E. Bogarten, R. Multmann, ao pretenderem restabelecer a verdadeira mensagem evangélica, esquecendo-se de que também isto não se faz de forma direta, pois implica os limites humanos também dos teólogos que a interpretam. (cf. p. 13). Essa tendência da teologia protestante durou até por volta de 1960, enquanto a teologia católica se manteve na redoma neotomista, fincados em suas elucubrações escolásticas e resistente a dialogar com os contemporâneos, até o Concílio Vaticano II. (pp. 13-14).

– Com a queda das teses levantadas seja pela escolástica, seja pelas formulações dos teólogos da dialética (desde o séc. XIII), o que caiu mesmo foi a possibilidade de uma teologia saber definir qual o núcleo central da Palavra de Deus para todos os tempos. Isto foi colocado, em 1961, por jovens teólogos alemães, a exemplo de Käsemann. Não dá para se definir o núcleo da fé válido para todos os tempos. Nenhuma teologia é capaz de estabelecer um núcleo universal. (p. 15).

– A própria Bíblia foi composta de diferentes evangelhos, expressando distintos contextos históricos, o que põe um problema a quem pretenda deter “a” verdade sobre a Palavra de Deus. Deus se dá a conhecer nos acontecimentos. A Palavra, mais do que palavra, é acontecimento, sendo Jesus de Nazaré o grande acontecimento: “O evangelho de Jesus não foi um discurso, mas sua própria vida, e ele próprio. Para descobrir a revelação de Deus, a teologia há de estudar a história, perscrutar os acontecimentos. Somente acompanhando o desenrolar dos acontecimentos é que ela poderá descobrir a presença de Deus no mundo. (…) Por fim, constatam esses teólogos, de acordo com a própria Bíblia, que Deus não se conhece por meio de atos intelectuais, mas pela ação. Deus está no fim da história. Caminhando para esse fim é que o conhecemos. Buscar a Deus é caminhar pela história deste mundo, participar da esperança da história, trabalhar e lutar para um mundo diferente. Deus revela-se na esperança ativa da ação transformadora do mundo.” (p. 16).

– A importância da ação de Deus na história não prescinde da palavra. Deus também se mostra ao seu povo por meio da palavra, pela boca dos seus profetas. São dimensões complementares. O desafio é discernir as condições em que a comunicação humana reflete, com fidelidade, a palavra de Deus. (p. 17)

– No pontificado de Pio XII, se dá o auge do movimento missionário conhecido como “Missões” (Missão de Paris, Missão da França, Missão de Marselha, padres operários), cujos protagonistas estavam convictos de que bastaria inculturar-se no mundo dos seus contemporâneos, armados apenas do método da revisão de vida, sem atentar para o fato de que, se é verdade que Deus se manifesta na vida, também é certo que é preciso perscrutar a Palavra de Deus, que por vezes vem escondida. Não foi bem sucedida essa experiência. Com o Vaticano II, o cardeal Lercaro clama pela opção pelos pobres, mas a Igreja do Primeiro Mundo aferrou-se mais à opção pela “classe média” (expressão com que os norte-americanos designam a burguesia). Foi somente a partir de Medellín que se dá, na América Latina, essa escuta da Palavra de Deus, a partir dos pobres. (pp. 17-18)

– É também pela leitura renovada da Bíblia, feita a partir do povo dos pobres, que estes vão descobrindo sua vocação de destinatários privilegiados das promessas da Palavra de Deus. Na Bíblia, os pobres descobrem seu passado e seu futuro. (pp. 19-20).

-No segundo tópico da Introdução, trata o autor da relação entre a Bíblia e o Espírito Santo. A Bíblia recolhe a palavra de Jesus, tal como a tradição a percebeu. Essa Palavra fala a cada um, numa diversidade de situações. Saber interpretar o sentido dessa palavra é um dom do Espírito, a iluminar os cristãos a comunicarem o que vem da Palavra: “A palavra é para ser falada, não para ser possuída. Ela não é objeto de propriedade, mas canal de comunicação. O sentido existe na comunicação.” (p. 22).

Apesar de, e para além das limitações humanas, presentes na própria composição dos evangelhos, subsiste a presença do Espírito Santo que é preciso discernir, como o fizeram os apóstolos, como o fez Paulo, pela fidelidade à voz do Espírito do Ressuscitado. (p. 23)

Nesse sentido, a teologia não pode reivindicar uma condição privilegiada de identificação da Palavra. O teólogo pode ser inspirado, não como teólogo, mas como cristão, embora disponha de uma ferramenta que facilita tal leitura, à medida que ajude a ler o passado da história da Igreja e à medida que ajude a discernir a inspiração do Espírito Santo. (p. 23)

Cap. I: “E a Palavra se fez carne” (Jo 1, 14) – constitui o título do capítulo I (pp. 25-68), em que o autor explicita o modelo por ele adotado para refletir sobre como se dá a história da Palavra de Deus, nos entrechoques de nossa história.

– Na perspectiva assumida pelo autor, “carne” é interpretada como pobreza, como o mundo dos pobres. Deus se fez pobreza, ouviu o clamor dos oprimidos e anunciou-lhes a libertação. Portanto, dois pontos nucleares: ouvir o clamor dos pobres e o anúncio aos mesmos da boa nova. (p. 25).

O cap. I vem distribuído em três parágrafos: 1) A Palavra da Pobreza (pp. 25-47); 2) A recepção da Palavra (47-58); e 3) Força e fraqueza da Palavra (48-58), sendo que cada um dos três parágrafos se distribui, por sua vez, entre tópicos e sub-itens. No caso do primeiro parágrafo, o autor o aborda em dois momentos: primeiro, explicita a dimensão profética da Palavra, ou seja, em que consiste a posição de Jesus diante do grito dos pobres; em seguida, enfatiza a dimensão evangelizadora da Palavra: o anúncio da Boa Nova da libertação aos pobres.

– A respeito de Jesus, os evangelhos realçam o anúncio da Boa Nova e sua paixão e crucifixão. Realçam Sua ação e Sua Palavra. Do sentido da Ação, o autor tratou no livro anterior (“O Tempo da Ação”); ao sentido da Palavra dedica este livro. Fundado na tradição neotestamentária mais antiga (Mc, Hb, Fp), o autor recupera a dimensão mais humana de Jesus, diante do grito, diante da dor, Ele próprio tendo experimentado situação de abandono e impotência. Ou seja: sua experiência quenótica torna ainda mais compreensível sua solidariedade radical à dor dos pobres, ao grito dos pobres. (pp. 25-27).

– Por conta da teologia tradicional, o catolicismo popular também tem dificuldade de assimilar um Jesus tão humano, que tenha tido dificuldade de acolher o desfecho de sua paixão e morte numa cruz, de um Jesus que tenha expresso um grito de agonia e de abandono. Há uma tendência de aliviar a expressão desse sofrimento em Jesus, tornando-o alguém mais sereno, mais resignado, sem aceitar sua resistência tão humana à tortura, à crucifixão. Mas, é aí que reside o lado profundamente humano de Jesus, que O faz também profundamente solidário com o grito dos oprimidos, sementes do Novo Israel (cf. pp. 27-30).

– Importa não perder de vista, no mistério da paixão de Jesus, um duplo aspecto profundamente interligado: como o lembra a Carta aos Hebreus, há em Jesus o grito de agonia, de impotência até, mas, por outro lado, de profunda entrega e confiança na ressurreição. O grito de amargura não ressoa surdamente pelo universo, é escutado pelo Pai. (cf. p. 30)

Jesus é a Palavra do Pai. O Pai também quis expressar-se na paixão do Filho, eis por que Jesus “se fez carne e sangue até à cruz como enviado pelo Pai.” (p. 30)

– Diferentemente do discurso ou dos oráculos pronunciados pelos profetas antigos, numa espécie de penumbra, Jesus vem como a própria Palava do Pai, revelada em sua plenitude, não mais como um discurso, como uma aproximação. (cf. p. 31)

– Assim como Jesus deu sequência à ação dos profetas do Antigo Testamento, inspirados e assistidos pelo Pai e pelo Espírito Santo, assim também o novo Povo de Deus (o do Novo Testamento) também dá continuidade à obra do Ressuscitado, com a presença e atuação do Seu Espírito. (cf. p. 31)

– O grito de angústia de Jesus continua no grito do povo dos pobres, hoje, em seu sofrimento, em sua humilhação e suas perseguições, com a impactante presença e intervenção do Espírito Santo: “O Pai fala por meio do seu Espírito que infunde a sua palavra em Jesus, e essa palavra pronunciada por Jesus se prolonga nos discípulos.” (p. 33).

– O grito procede de uma imensa multidão, a quem a boa nova é anunciada, mas são poucos os que vão anunciar essa palavra, por meio de um ministério para o qual Deus chama: trata-se do ministério das palavras. (p. 34)

-Esses “ministros das palavras” não são chamados para pronunciarem palavras suas ou do povo ou mesmo da cultura. Não são professores a transmitir ensinamentos culturais. São chamados a pronunciarem palavras especiais que os profetas atribuem a Deus: “Os profetas não recebem revelações para si próprios. Tudo o que são, têm e sabem, existe em função do povo de Deus. Eles são os condutores. Em geral, o povo não os reconhece como tais, sobretudo as autoridades. Porém, eles recebem esta autoridade de condutores do próprio Deus. As famosas narrações das vocações de Moisés, Samuel, Elias, Isaías, Amós, Oséias, Jeremias, Ezequiel, enfim de quase todos os profetas conhecidos, procuram destacar que não são eles os autores das suas palavras. Eles não escolheram a sua missão. Foi imposta, de certo modo, à revelia deles” (p. 35).

Os profetas são pobres ou foram reduzidos à pobreza, como Moisés a peregrinar pelo deserto. Não são figuras do templo, das sinagogas, das assembléias de privilegiados. São missionários itinerantes. (p. 35)

– Os evangelhos dividem o universo em que Jesus atuou em três categorias: os discípulos, as multidões e os adversários. Os discípulos são os que ouvem e entendem a palavra, como aprendizes, como futuros profetas. As multidões ouvem a palavra sem entendê-la. Os adversários são os falsos pastores. É nesse cenário profético que Jesus também atua como um profeta, sendo assim reconhecido pelo povo, por suas palavras e pelo seu comportamento. (p. 36)

Nas palavras de Comblin, o conteúdo da mensagem dos profetas “sempre foi, é e será uma mensagem de libertação para os pobres, os perseguidos, os oprimidos.” Mensagem que eles anunciam, por palavras pronunciadas por humanos, portanto com seus condicionamentos, afinal quando Deus assume enviar seu Filho, encarnando-se na história, Ele assume também a humanidade com suas limitações. Donde não se deve retirar as palavras dos profetas do seu contexto, tomando-as como palavras saídas diretamente da boca de Deus. (p. 36)

– Algo semelhante se dá em relação à figura de Jesus. Embora o credo de Calcedônia assuma Jesus em sua divindade e em sua humanidade, a tendência é a de atenuar sua humanidade, como se esta reduzisse a divindade de Jesus. E tal interpretação implica uma certa desfiguração da humanidade de Jesus, evitando um assumir pleno dessa condição, com muitas conseqüências de caráter fantasioso e idealista da figura de Jesus. Conforme Comblin, “o conteúdo que dão à humanidade de Cristo é aquém daquilo que realmente é humano.” (…) Entendemos que a fórmula de fé de Calcedônia significa que a divindade não prejudica a humanidade de Cristo, nem a humanidade prejudica sua divindade.” Contra tal tendência têm investido, a justo título, os teólogos latino-americanos (Juan L. Segundo, G. Gutiérrez) (p. 37)

– “Ora, o que é ser humano no sentido completo da palavra? Não é somente ser dotado de órgãos e faculdades: inteligência, vontade, sensibilidade, etc. A soma dessas faculdades não faz um ser humano vivo e ativo. O que faz um homem é um projeto de vida, uma obra imaginada por ele pacientemente prosseguida, com constância, inteligência e até teimosia” (p. 37)

Isto implica entender melhor o modo como Jesus se fez obediente à vontade do Pai, sem perder sua identidade de homem, não se reduzindo a um objeto, a um papel carbono do Pai, mas cumprindo a vontade do Pai com os condicionamentos humanos. (p. 38)

– Os evangelhos contêm narrações importantes da vida de Jesus, às quais os exegetas antigos não deram atenção, por seu zelo de distinguir apenas sinais da divindade de Jesus, desligados de sua humanidade (p. 39)

Interessante observar a diferença entre a mensagem pregada por João Batista e a pregada por Jesus. João Batista fazia questão de incluir os ricos e poderosos como alvo de seu apelo de conversão. Por sua vez, o anúncio de Jesus dirigia-se aos pobres, sem muita confiança na conversão dos ricos (ver, por ex., narrativa do banquete do rico e do pobre Lázaro.). (p. 39)

– João se surpreendeu com Jesus: esperava que ele retomasse o alvo predileto de sua pregação: pregar a conversão para os poderosos. Jesus tratou de aproximar-se dos pobres, lá onde eles se encontravam mais abandonados: na Galiléia, e onde encontrou condições mais favoráveis de ser escutado, sem o controle tão forte dos poderosos em lugares menos pobres. (p. 39)

– Ao realizar sua missão profética, o projeto de Jesus consiste, de um lado, em denunciar e desmascarar os falsos pastores, os chefes religiosos e políticos de seu tempo (fariseus, escribas, sacerdotes, anciãos), e, por outro, ir em busca dos pobres, das ovelhas perdidas, do Israel rejeitado, oferecendo-se como seu pastor (ver, por ex., João, cap. 10): “Então, o projeto de Jesus consiste em buscar as ovelhas perdidas, o verdadeiro Israel rejeitado pelos falsos pastores, e tomar ele próprio a liderança desse povo, emancipando-o dos falsos pastores. Refazer o verdadeiro Israel a partir dos pobres da Galiléia e libertá-lo do jugo dos seus dominadores, propondo-se a si próprio como único condutor, ele com seus discípulos (Mt 9, 35-36; 11, 28-30; Lc 15). (p. 40)

– E quem eram essas ovelhas perdidas a quem Jesus dedicou sua missão? Eram os pobres, os famintos, os doentes, os leprosos, os perseguidos, os cegos, os aleijados… Ao mesmo tempo em que Jesus a eles se solidarizava, tratava de denunciar os responsáveis por tal situação, com o objetivo de destituí-los do seu poder e sobretudo de afastar sua influência sobre o povo dos pobres, constantemente enganado pelo discurso deles (p. 41)

Na sua convivência com os pobres, as ovelhas perdidas (a que alude João, cap. 10), Jesus usava a força da palavra – palavra-gesto, isto é, associava ao seu anúncio sua prática, seu gesto de curar, de fazer o bem (inclusive expulsando o maligno). (p. 42).

– Esse núcleo da vida e da missão de Jesus foi sendo tirado, ao longo de séculos, de seu contexto. As palavras de Jesus foram sendo aplicadas ao gosto das circunstâncias, na perspectiva de uma elite, a ponto de sofrer até inversão… E o autor adverte: “Contudo, ainda mais importante é conhecer o plano geral das palavras de Jesus, em intenção e significado.” (…) “Através de palavras tão diversas ele sempre queria insistir na mesma mensagem. Disse sempre a mesma e única coisa. O quê? A sua mensagem aos pobres. A mensagem aos pobres é esta: o povo de Israel é dos pobres. Os pobres foram enganados e Israel foi corrompido, desviado da sua vocação. Agora Jesus abre o caminho para renovar e levar à sua verdadeira vocação o povo dos pobres. (…) A condição é romper com os falsos pastores e seguir a Jesus, tomá-lo como guir, tornar-se discípulo dele” (p. 43)

– O projeto proposto por Jesus não tem garantia evidente de sucesso, também conheceu e conhece barreiras, decepções, fracassos. Mas sempre persiste teimosamente em um pequeno grupo de missionários que tratam de fazê-lo conhecido e seguido. Não sem enfrentar sérias dificuldades e limites. Limites de dois tipos: um por conta da alienação de que os pobres são vítimas, da parte de seus opressores; donde a importância de quem chegue perto para ajudá-los a despertar e a exercitar a consciência crítica; e limites dos próprios missionários, pelo desânimo, pelas infidelidades, pela descrença na capacidade dos pequenos, e até por não encontrarem o jeito próprio de anunciarem o Projeto de Jesus. (pp. (44-46)

– Como se dá, então, a recepção da Palavra? A Palavra provoca atitudes distintas nos ouvintes. Ela pode provocar dois tipos de divisões: uma divisão entre ricos e pobres, e outra entre verdadeiros e falsos pastores. As igrejas cristãs tendem a valorizar apenas a divisão de caráter religioso, enquanto na Bíblia, principalmente no Novo Testamento, o critério para distinguir os verdadeiros dos falsos adoradores de Deus vai sendo substituído pela relação entre pobres e ricos. (pp. 47-48)

– “Quem pertence ao verdadeiro Deus e quem pertence aos falsos deuses? Não são os critérios religiosos que vão determiná-lo, mas sim o fato da pobreza. No Novo Testamento já não há mais dúvida.” (…)

“Tratando-se dos pobres, não importa que sejam bons ou maus. O evangelho não supõe nem afirma que os pobres sejam melhores do que os ricos. São eleitos simplesmente porque são pobres. A parábola de Lázaro e do rico (não se diz que seja um mau rico nem que Lázaro seja um bom pobre) ilustra perfeitamente a mensagem unânime do Novo Testamento. Os ricos precisam de conversão, os pobres não. Os pobres são herdeiros do reino de Deus, “maus e bons” (Mt 22, 10).” (p. 48)

– Não se trata de julgar o rico, em abstrato. Não há o rico em abstrato. É na relação rico-pobre que se deve exercer o discernimento, em meio a uma enorme diversidade de situações. (p. 49).

– Com relação à divisão pelo critério verdadeiros e falsos pastores, cabe ao missionário exercer o discernimento sempre com base no Evangelho, prestando atenção à atitude concreta dos pastores: os verdadeiros pastores não buscam tirar vantagem pessoal de sua missão, fazem gratuitamente seu trabalho, enquanto os falsos pastores tiram para si proveito material, de prestígio e de poder. (p. 50)

– Por se tratar de um critério abstrato, a defesa do critério da predestinação induz, antes, a um certo descompromisso com a causa dos pobres, por favorecer a uma atitude isolada do mundo, uma relação intimista com Deus, e de distanciamento dos desafios do mundo concreto, em particular no que diz respeito à solidariedade com a causa dos pobres. (p. 51).

– A Palavra produz a fé. Esta nasce e desabrocha no campo dos pobres e dos missionários-profetas. A fé é testada e se fortalece nas lutas pela causa dos pobres e oprimidos. “Uma fé que não se formou na luta não é fé verdadeira.” (pp. 52-53).

– É nos desafios dessas lutas junto aos pobres que o missionário vai fortalecendo sua fé, à medida que também, por sua vez, vai ajudando a alimentar a fé dos pobres, em meio a toda sorte de barreiras, a começar pelas incertezas da caminhada, do enfrentamento das situações que desafiam a razão, parecendo completa loucura… (pp. 54-55)

– Os falsos pastores, falsos profetas são aqueles que distorcem o núcleo do evangelho, em proveito próprio ou de outros privilegiados, e usando para tanto a religião. No Evangelho o contrário de fé não é ateísmo, agnosticismo; é religião, usada como autojustificação dos próprios interesses e contra a causa dos pobres. “No centro da cultura dominante fica uma religião alienada que atribui a Deus a situação existente e buscam nele a razão de sua continuidade. Os falsos profetas não se opõem explicitamente à multidão dos pobres: ignoram-na.” (pp. 56, 57 e 58)

– E onde estão a força e a fraqueza da Palavra? Sua força reside em que Deus escolheu os pobres para, por meios pobres, transformar a obra da criação. Ação que se dá por meio da liberdade, que produz transformação. A Palavra vai fecundando culturas, sociedades, movimentos. “Vive-se a fé neste mundo: ela não transforma o mundo diretamente. Tem que penetrar no seio da humanidade, das suas culturas, das suas sociedades, dentro dos seus movimentos e correntes”(,,,) “A penetração da fé no mundo produz uma sabedoria nova e esta transforma a sociedade,” (pp. 58-59)

– Isto se faz ao longo de séculos. Há quase 4.000 anos, o povo de Deus busca essa transformação. Os povos indígenas e africanos, já há cinco séculos, vivem essa luta, na América Latina. Pela fé é que seguem lutando, não desistem, todos os dias retomam sua luta. “.” (pp. 60-62),

– É a liberdade que assegura ao homem força para lutar e transformar a sociedade. Força que Deus lhe concede, e que o homem precisa assumir de forma autônoma e em mutirão: “O ser humano constrói-se no diálogo e na colaboração, na solidariedade com o seu próximo (isto é o mais remoto, o que está longe, que é o mais diferente) .” (p. 62).

– “A primeira expressão da liberdade é a fé. Com a fé a pessoa constitui-se como sujeito histórico, começa a agir na história. Deixa de ser o reflexo da sociedade ou da cultura em que está mergulhada.” (…)”O cristianismo está fundado na convicção de que os homens são chamados à liberdade e, pela liberdade, ser sujeitos históricos.” (p. 63).

– “Os evangelhos mostram muito bem que Jesus venceu no mesmo momento em que estava vencido (Jo 16,33). Venceu como? Venceu pela sua fé. Qual foi o efeito de sua fé? A sua ressurreição. A sua fé foi tão forte que o ressuscitou. Não pela virtude humana de uma fé humana, e sim pela força do Espírito.” (p. 64)
– É pela busca constante de agir com sabedoria que os homens vão buscando transformar o mundo, mas a partir de si próprios, passando assim a ser também agentes de mudança do mundo, da sociedade. (p. 65)

– Em textos do Antigo Testamento, encontram-se várias narrativas que misturam expressões da sabedoria humana (ligada às camadas privilegiadas) com a sabedoria que procede do Espírito (a expressar a vida dos pobres). Pelo fato de o ofício de escrever ser um privilégios de poucos daquela época, muita coisa escrita expressa, antes, o olhar de categorias privilegiadas. Mesmo em textos paulinos, é possível notar diferença entre as primeiras partes dos textos de Paulo (onde aparece mais fortemente seu carisma de evangelizador) e as segundas partes de suas epístolas (onde aparece a sabedoria humana de Paulo , como nas suas posições sobre o papel da mulher na sociedade e na igreja). Paulo é bem mais brilhante como evangelizador! (pp. 65-66).

– Ocorre uma certa tensão, ao se buscar distinguir, em cada época, conciliar concretamente o que é vontade de Deus e o que é capricho humano, ao tempo em que parece salutar manter-nos humildes a ponto de saber acatar os limites históricos de cada tempo. Não dá para se exigir uma atitude de completa ruptura, na época de Paulo, com os valores então hegemônicos. (pp. 66-67)

– A Palavra age na história e produz efeito. Mas, vem misturada a outros fatores históricos, razão por que não se pode medir nem precisar esse efeito. Basta que saibamos que a Palavra produz efeitos, sim, na história, e isto nos convida a lutar. Por vezes, há a tendência em se superestimar a força histórica dos pobres, principalmente em épocas de maior efervescência revolucionária, do que pode decorrer, inclusive, benefício das forças que controlam o processo revolucionário, para depois destituir os pobres de sua condição de protagonistas. (p. 67-68).


COMBLIN, José. A Força da Palavra. Petrópolis: Vozes, 1986:

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Alder Júlio Ferreira Calado3 de October de 201807:37Publicado primeiro em consciencia.net

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