Liliana Tavares fala sobre o pioneirismo do Verouvindo, Festival de Cinema Acessível

BRASIL

Liliana Tavares fala sobre o pioneirismo do Verouvindo, Festival de Cinema Acessível

AUDIOVISUAL

O festival já foi premiado internacionalmente por contribuir na pauta da acessibilidade

Vanessa Gonzaga |
Liliana, além da organização do festival, estuda o assunto na Academia
Thais Lima

Liliana Tavares é psicóloga e idealizadora do festival VerOuvindo, voltado para a discussão da produção audiovisual com acessibilidade, além da exibição de filmes, curta metragens e premiações. Em 2019, o Festival completa cinco anos com sessões na Região Metropolitana do Recife e a visita de órgãos do Mercosul. O Brasil de Fato conversou com Liliana sobre o papel do festival e as projeções para as próximas edições. Confira a entrevista:

Brasil de Fato: Como surgiu a iniciativa de construir o Festival VerOuvindo?
Liliana Tavares: Eu sou psicóloga e sempre trabalhei com pessoas com deficiência e também dava aulas. Além disso, também tinha uma vivência na cultura, paralela ao trabalho. Quando eu conheci a audiodescrição eu pensei “é isso que eu quero fazer da vida” porque as pessoas com deficiência precisam ocupar os espaços públicos. Então essa foi a ideia de levar as pessoas cegas para o cinema, inicialmente, e depois a gente estendeu para as pessoas surdas também. Esse desejo de que todo mundo pudesse participar dos espaços públicos juntos, então o VerOuvindo vem com essa missão de tirar as pessoas das instituições, das suas casas e levar pra rua, pra um espaço de inclusão onde elas podem interagir com outras pessoas com ou sem deficiência. 

BdF: Como o acesso à cultura pode contribuir no combate ao preconceito e ao isolamento das pessoas com deficiência?
Liliana: Na exibição de Vitória de Santo Antão tinha uma senhora que disse que a família dela não entendeu porque ela iria ao cinema. Foi a primeira vez que ela foi ao cinema com audiodescrição e ela questionou a família se eles queriam que ela ficasse em casa, presa. Então isso muda, dá autonomia, dá empoderamento, porque a pessoa vai poder estar em um mesmo espaço que as outras, sentir a mesma coisa que as outras pessoas estão sentindo, discutir sobre os assuntos levantados. É cidadania, é sensação de pertencimento e de que ela pode estar em todos os lugares que ela quiser, porque ela vai ser acolhida e ter acessibilidade, porque esse é o sentido real dela, que é a gente da sociedade ser responsável para tornar os ambientes acessíveis e para tornar a sociedade mais acessível, porque nós somos diferentes e essas diferenças precisam conviver. Quando uma pessoa que enxerga tem uma pessoa cega do lado, isso muda o ponto de vista dela porque ela entende que cinema é pra todo mundo, não é só pra quem vê. Quem não vê ouve, sente, a gente é multisensorial. 

BdF: Nessa edição o Festival tem um espaço de debate com o Mercosul e o Ministério da Cidadania. Como esses espaços podem tornar o acesso à cultura e outras áreas como a educação e o emprego mais acessíveis?
Liliana: Ano passado, o VerOuvindo recebeu um prêmio da Reunión Especializada de Autoridades Cinematográficas y Audiovisuales del Mercosur. O Festival foi reconhecido como uma potência e aí por isso eles vem participar do festival, com a participação da secretaria do Audiovisual, para falar dessas perspectivas. Por exemplo, na equipe, todos os filmes precisam ser revisados para as pessoas com deficiência, tanto surdas, quanto cegas, então a gente tem um grupo de pessoas que começaram a trabalhar nessa área, a aprender sobre essa área a partir do VerOuvindo. São pessoas que se formaram, fizeram cursos para pensar o cinema e trabalhar com a linguagem cinematográfica. 
BdF: O ProAcess, que vai ser testado no festival, reúne os recursos de acessibilidade, legendas descritivas e Libras. Ele tem potencial para ser popularizado?
Liliana: O ProAcess é uma empresa, a única do Brasil que conseguiu fazer esse aparelho atendendo às exigências da Ancine, que exige que a acessibilidade seja exibida individualmente no cinema e eles vão fazer esse teste aqui com o filme Autofalo, que é uma estreia, e que foi objeto do estudo do meu doutorado em audiodescrição no cinema, então é algo que me envolveu. E aí vai ter esse teste, com uma forma diferente de fazer audiodescrição e que trabalhamos desde a produção com a equipe criativa do filme, porque a acreditamos que não é apenas uma acessibilidade assistiva, mas é uma forma de arte também. Então vai ter esse teste e nós vamos também ouvir a opinião dos surdos e cegos sobre a ferramenta. 

BdF: Nesse ano, também tem programação nas cidades de Vitória de Santo Antão e Jaboatão dos Guararapes. O VerOuvindo pode crescer mais nas próximas edições?
Liliana: A expansão só depende do Funcultura (Fundo de apoio a projetos de cultura de Pernambuco). Ano passado tentamos ir para Petrolina e Caruaru, mas as pessoas da seleção achavam que não daria pra subir esse nível, mesmo pleiteando fazer essa descentralização pelo estado. Queríamos queria fazer na Zona da Mata, Agreste e Sertão, uma sessão em cada. Aí pra não ficarmos recalcados nesse desejo nós conseguimos vir para essas duas cidades que são mais próximas e que deu pra inserir no orçamento. Mas o desejo não falta e só depende do patrocinador aceitar a proposta.

26 de April de 201910:11


Publicado Primeiro em Brasil de Fato

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