Mutirão constrói abrigo em terra indígena para militantes dos povos originários no DF

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Mutirão constrói abrigo em terra indígena para militantes dos povos originários no DF

resistência

Com base em ações de bioconstrução, voluntários se unem em Sobradinho para receber indígenas

Cristiane Sampaio |
Voluntários reunidos em tenda de bambu montada no território indígena Recanto dos Encantados, em Sobradinho (DF)
Mutirão do Bem-Viver/Divulgação

Com quantos braços se faz a solidariedade? No território indígena Recanto dos Encantados, localizado em Sobradinho (DF), a 22 km de Brasília, com muitos. Reunidas em uma ação de voluntariado, dezenas de pessoas estão concentradas desde o dia 22 de dezembro para executar o “Mutirão do bem-viver”, pensado para construir estruturas de hospedagem que possam receber indígenas de outros estados.

A ideia é acolher também militantes parceiros que estejam em trânsito e precisem de abrigo em Brasília. O ambientalista Thiago Ávila, um dos voluntários envolvidos, destaca que a ação parte da necessidade de ajudar a construir instrumentos que possam fortalecer a luta dos povos tradicionais e preservar os diferentes biomas.

Por conta disso, o projeto foi planejado de acordo com os princípios de respeito à natureza, um dos norteadores do conceito de “bem-viver”, que dá nome ao mutirão. O ambientalista destaca que é, antes de tudo, um projeto de sonhadores.

 “Isso daqui é uma soma de fragmentos de pessoas que são um universo em si só e que resolveram construir um universo comum, que é muito maior e tem um potencial realmente transformador”, afirma Ávila.

Bioconstrução

Buscando uma relação harmônica com os recursos naturais, o projeto foi arquitetado a partir da bioconstrução, prática que lida com materiais de baixo impacto e que não concorrem para a exploração indevida do meio ambiente. Diante disso, bambu, barro, terra e pneus usados são alguns dos aliados fundamentais.

O grupo já construiu espaços de acampamento, composteira, sistema de tratamento de água, banheiros ecológicos e uma ecotrilha.

Também foram feitas pontes e escadas de bambu às margens do ribeirão Sobradinho, onde está localizado o território, com o objetivo de facilitar o acesso de grupos que queiram aproveitar o recanto para a prática da educação ambiental.

A universitária Júlia de Flora, que mora em Brasília e tem se dedicado a participar do mutirão desde a concepção dos trabalhos, afirma que o engajamento no projeto tem sido uma forma de resgatar a participação na política. Com isso, ela espera sedimentar outros caminhos possíveis para a prática da militância, como é o caso das ações de caráter socioambiental.

“Eu estava numa vibe de querer me afastar da política, dessas coisas, porque eu via muitas crises na forma como a gente atuava, e [aqui] acabei conhecendo pessoas que fazem isso de uma forma diferente e comecei a reacreditar nisso. O que me move mesmo é saber que tem pessoas aqui que realmente são realizadoras e que querem construir a sociedade do bem-viver”, afirma.

Solidariedade

Se para quem vive no Distrito Federal a proposta é atraente, para quem mora em outros estados e resolveu viajar para participar do mutirão, então, a ideia parece ainda mais sedutora. É o caso da estudante Beatriz Moraes, que veio de São José do Rio Preto, interior de São Paulo.

Presente desde o início dos trabalhos, ela conta que já se engajou em diferentes atividades na rotina do mutirão, como capinação de terreno, medição de bambus, cozinha coletiva e até mesmo na produção de um documentário que registra o dia a dia das ações.

A fonte de energia pra dar conta de tudo isso vem, segundo ela, da inspiração que o projeto provoca nos voluntários.

“É [da ideia de] utilizar os meu recursos, não só financeiros, mas meu tempo, disposição, força, vontade de trabalhar, em prol de algo coletivo e comum, algo que não seja só pra mim. É ver algo que seja construído pelo bem comum”, explica.  

Além de terem a solidariedade dos parceiros como motor, os trabalhos promovem uma maior interação entre indígenas e não indígenas, incentivando o intercâmbio de culturas e conhecimentos.

“É de suma importância porque é uma troca de experiências, de vivências culturais. Eles aprendem com a gente e a gente aprende com eles, e isso nos deixa muito motivados. É de uma preciosidade que não tem dinheiro nem nada que pague”, considera a indígena Airy Gavião.

Ao todo, o “Mutirão do bem-viver” tem atraído uma média de 300 pessoas, com público flutuante de cerca de 100 voluntários por dia. As atividades seguem até o próximo domingo (13). 

8 de January de 201916:51

Via Brasil de Fato

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