O Brasil desempregado: 13,4 milhões não conseguem emprego

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O Brasil desempregado: 13,4 milhões não conseguem emprego

Desemprego

Brasileiros e brasileiras desempregados relatam ao Brasil de Fato seu drama para encontrar uma ocupação

Ayrton Centeno |
Janete, Ary, Rodrigo, Luiz, Vitória, Paulo, James, Itamar e Plínio. Retratos da luta por um lugar no trabalho formal no Brasil de 2019
Fotos: Alex Garcia

“Nunca fiquei tanto tempo desempregado”. A frase é de Rodrigo Trindade, 34 anos, sem trabalho nem salário há três meses, mas é repetida por muita gente na sala de espera do Sine, o Sistema Nacional de Emprego, no Centro de Porto Alegre.

Um exemplo é Itamar Martins, porteiro, de 36 anos. Faz três anos que ele não consegue uma vaga. “Antes só me lembro de ficar seis meses desempregado”, recorda-se. Pior é a situação de Vitória Lisboa da Silva, de 22 anos, operadora de caixa. Sem conseguir serviço fixo faz quatro anos, ela desabafa: “Nunca vi uma crise assim. Ao ponto de alguém, largar 100 currículos, como eu fiz, e ninguém te ligar de volta”. 

Luiz Morais, 22 anos, casado, um filho, fez o mesmo que Vitória. “Distribuí 100 currículos pelas empresas e nada…”, lamenta. Motorista, também servente de obra e frentista, já completou três anos procurando uma colocação no mercado de trabalho. Enquanto ela não aparece, sobrevive como entregador de pescado. “A situação está bem ruim”, reclama. 

“A gente se desespera”

Martins é outro que espalhou currículos pelas empresas sem que tenha sido chamado uma vez só. Enquanto nada surge, vive de bicos. Menos mal que é solteiro. É uma circunstância parecida com a do operador de betoneira e servente de obra, James Rodrigues Machado, de 45 anos. Separado, sem filhos, convive há um ano e meio com o desemprego. Vive de trabalhos eventuais. “Minha mãe, que é aposentada, sempre me ajuda quando falta comida”, explica.  

Situação tão crítica Machado nunca havia visto. “E desde que esse governo aí assumiu só piora”. E prossegue: “Falam do Lula, mas no tempo dele a pessoa deixava um emprego e logo pegava outro. Ele se interessava pelo trabalhador… “Machado descreve o cenário atual como dramático. “Agora, quando aparece uma vaga, a gente chega lá e tem 50 na frente… Muitas vezes a gente se desespera”…

“Minha mãe nos ajuda com a comida”

É a família que também ampara Trindade. Tanto para morar, quanto para auxiliar quando escasseia comida na mesa. “Eu e a minha esposa, que é empregada doméstica, moramos num quartinho no fundo do terreno da avó dela em Eldorado do Sul”, conta. Para a comida, quando falta, a ajuda vem do outro ramo da família. “Minha mãe nos ajuda nos dando feijão, arroz, mais o pão e o leite para as crianças. Subo na bicicleta, pedalo seis quilômetros até a casa dela para buscar o alimento”. 

Com curso de tecnologia de rastreamento de caminhões, Trindade está disposto a abraçar um serviço fora de sua área. “Aqui qualquer emprego serve. De servente de obra, de pintor, de desentupimento de esgotos, onde já trabalhei também…”

“Está muito difícil”

Oito meses sem trabalho, Plínio Alexandre da Rosa, 38 anos, é técnico em química. Mas já trabalhou como segurança. Casado, um filho, cursa licenciatura em química e adoraria trabalhar na sua especialidade “mas está muito difícil”.  Por enquanto, a casa é sustentada pela esposa. Ela não tem emprego fixo, mas faz freelances como organizadora de bufês. E a família de ambos também dá uma mão ao casal.

Sem trabalho, Vitória Lisboa da Silva sobrevive de bicos. O que a ajuda a manter a casa – está separada e tem um menino de quatro anos para criar – é a pensão que recebe e o apoio providencial do Bolsa Família. Janete Barbosa da Silva, 40 anos, dois filhos, está desempregada desde o começo do ano passado. Atuando na área de serviços gerais, toca a vida com as faxinas que faz “quando aparecem”, a cada 15 dias. 

“Só dá pra água, a luz e os remédios”

Com marido e quatro filhos, a comerciária Auta Martiau, de 38 anos, veio do Haiti em busca de uma nova vida no Brasil. Faz três anos que procura uma colocação. Como seu esposo conseguiu serviço, é dele que a família depende. Técnica em segurança do trabalho, Natália Romani, solteira, 32 anos, não encontra emprego na profissão. Diante desse fato, recorreu ao Sine para tentar uma vaga de secretária ou recepcionista. Há seis meses está sem emprego.

O radialista Ary Ferreira, de 49 anos, é outro que não achou serviço do seu ofício. A solução foi assumir um bico de divulgador de uma operadora de telefonia. Ganha R$ 2 mil mensais, dos quais gasta R$ 700 só de aluguel. 

Nem a aposentadoria impede Paulo Teixeira, aos 61 anos, de arriscar uma brecha no fechado mercado de trabalho da construção civil. Mestre de obra, ele sofreu um acidente vascular cerebral (AVC), recuperou-se e está de volta à disputa por uma vaga. Porém, desde 2015 nada encontra. O problema é que ele está obrigado a trabalhar. 

“Ganho somente R$ 1.370,00 mensais como aposentado e isso só dá para a água, a luz e os remédios”, pondera. Sem emprego, casado e com quatro filhos, a solução foi dividir ao meio sua casa no parque Madepinho, na zona sul de Porto Alegre. Alugou metade da residência a outra família para reforçar a renda familiar. Sem essa providência incomum, mas providencial, tudo ficaria pior.

Os números da tragédia 

13,4 milhões de desempregados.

1,2 milhão de pessoas entraram para a população desocupada no primeiro trimestre do ano, na comparação com o último trimestre de 2018.

332 mil funcionários da administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais ficaram desempregadas desde o final do ano passado

228 mil trabalhadores da construção civil perderam seus empregos em 2019.

28,3 milhões é a população subutilizada. São aqueles trabalhadores que estão sem emprego ou que trabalham menos do que poderiam. Inclui-se aqui também quem não procurou emprego, mas estava disponível para trabalhar ou que procurou emprego, mas não estava disponível para a vaga. É um número recorde na série histórica do IBGE.

65,7 milhões estão fora da força de trabalho. Não estão trabalhando nem procurando emprego. É mais um recorde.

4,8 milhões é soma de desalentados. São aquelas pessoas que simplesmente desistiram de procurar emprego. O número representa outro recorde da série histórica, significando 4,4% do contingente de trabalhadores. 

(Dados da Pnad – Contínua, divulgada pelo IBGE)

Este conteúdo foi originalmente publicado na versão impressa (Edição 14) do Brasil de Fato RS. Confira a edição completa.  

6 de May de 201919:13


Publicado Primeiro em Brasil de Fato

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