Ocupar e resistir! A quem serve o ataque à educação em nossas cidades?

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Ocupar e resistir! A quem serve o ataque à educação em nossas cidades?

ARTIGO

Pedro Rossi |
Resistência é a chave!
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Não é novidade que há um plano em andamento que busca calar e adestrar a juventude. O terrorismo contra as universidades públicas e a demonização da formação do pensamento crítico nas escolas são, entre tantas “balbúrdias”, mais pretextos para o avanço das pautas econômicas liberais e ultra conservadoras. Sabe-se que, tirando o protagonismo dos jovens de alguns importantes espaços de fala, emudecendo tudo aquilo que a juventude representa, a extrema direita poderá conseguir, por fim, consolidar seu regime antidemocrático. Mais além, poderá retomar um projeto de país autoritário e militarizado, baseado no tripé tradição, família e propriedade, que há mais de trinta anos pensávamos havia sido enterrado.
Capitaneado pelo chefe do executivo nacional, vive-se hoje no Brasil uma avassaladora perseguição à comunidade científica. Postura essa que não se via praticada desde os tempos da ditadura militar em nosso país. As recentes notícias sobre o corte de 30% nas universidades públicas não são uma novidade no projeto de poder do atual governo e, ainda que preocupantes, tampouco deveriam ser recebidas com tanta surpresa. Outros indícios já apontavam que a educação seria uma das pastas que mais sofreria um desmonte durante o governo Bolsonaro.
Ainda na campanha eleitoral, desde que anunciou seu interesse por um projeto de “escola sem partido” e pela militarização das instituições de ensino, Bolsonaro vem tentando minar a bolha jovem e a classe intelectualizada. A perseguição toma corpo e segue seu caminho: desencadeou a primeira grande crise política dentro do MEC, com a indicação de um inoperante Ricardo Vélez Rodríguez; o atual Ministro da Educação, o economista Abraham Weintraub, incentiva que professores sejam filmados em sala de aula; o próprio Presidente “quer uma garotada que não se interesse por política” e discute a descentralização de investimentos para cursos das áreas de humanas (filosofia e sociologia) em detrimento do que ele considera que gera “mais retorno para o contribuinte”.
Para além de estratégias de médio e longo prazos, o objetivo – enquanto outras pautas avançam silenciosamente, como a Reforma da Previdência -, é desestabilizar a mobilização acadêmica e causar pânico entre jovens e intelectuais. No entanto, o indeliberado anúncio dos cortes nas universidades parece ter sido o golpe que faltava para termos a certeza que de atrapalhado este governo não tem nada. Sabe muito bem o que faz.
E qual a relação disso tudo com as nossas cidades? O que o governo Bolsonaro quer é tomar de assalto o controle de tudo aquilo que representa o seu dissenso. Nessa perspectiva, esfacelando a estrutura de formação de consciência política e cidadã, também se encurta as rédeas da construção de espaços plurais e silencia as vozes que constroem cidades mais justas e igualitárias.
A tentativa de censura à campanha de marketing do Banco do Brasil é prova recente dessa postura. Idealizada para alcançar os jovens, a campanha do BB busca mostrar que a juventude, para além do poder aquisitivo, tem seu lugar de protagonismo nas cidades e representa uma clara oposição ao modelo bolsonarista de como nossos espaços públicos e coletivos devem se configurar. Mais além, a diversidade de pensamentos, representada pela pluralidade cultural étnico e racial dessa mesma campanha, pode ser o motor de um desenvolvimento econômico alternativo e que anda na contramão dos ideais conservadores de um governo de extrema direita.
Não devemos esquecer, também, a tentativa de difamar a reputação da maior festa popular de rua que há em nosso país, espaço de catarse da juventude e que foi palco das maiores manifestações públicas contrárias ao atual governo. Essencialmente, o carnaval se apresenta como uma tentativa de fuga e crítica da realidade, representando, assim, um importante foco de resistência e que precisa ser controlado pelas mãos do ultraconservadorismo.
O ataque à educação é, portanto, mirar na juventude para manter o controle de tudo aquilo que se materializa em nossas cidades. Porém, estão mexendo demais no vespeiro. É preciso resgatar o vigor dos estudantes secundaristas e reacender a chama dos coletivos de juventude. Somente com a força desses grupos, que na última década lideraram importantes movimentos de ocupação em todo o país, poderemos disputar a narrativa imposta e voltarmos a tensionar a cidade como espaço de construção de uma sociedade mais justa e democrática.
*Pedro Rossi é Presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil na Paraíba (IAB-PB) e professor do Iesp

3 de May de 201919:13


Publicado Primeiro em Brasil de Fato

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