Quem perde com a reforma sou eu: Francisco e Fábio, servidores públicos da USP

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Quem perde com a reforma sou eu: Francisco e Fábio, servidores públicos da USP

PREVIDÊNCIA

Pai e filho construíram a vida de trabalho na universidade e podem ser afetados pelas mudanças propostas na Previdência

Pedro Stropasolas |
Francisco e Fábio vão juntos a manifestações e atos políticos desde a greve histórica da USP, em 1987
Pedro Stropasolas

Francisco se aposentou em 2008 com 37 anos e 6 meses de contribuição para Previdência Social, mas, somente em 2014, encerrou a vida de trabalho efetivamente — a pedido da Universidade de São Paulo (USP) trabalhou por mais seis anos. Desse total, 30 anos foram como funcionário da instituição, a maioria deles fazendo reformas no Departamento de Educação Física.

Com o benefício da aposentadoria que recebe, que hoje corresponde a 3 salários mínimos, Francisco conseguiu construir a casa própria e auxiliar os gastos básicos com os dois netos, além de comprar um carro para Fábio, o filho mais velho. Agora, ele corre o risco de ter seu benefício alterado.

A proposta de mudança da Previdência Social pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL) exclui da Constituição o inciso 8 do artigo 201, que garante ganho real aos beneficiários, por meio do reajuste anual da inflação — calculado pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Com a alteração, aposentados e pensionistas poderão ter congelados os valores que recebem. 

Francisco desde cedo foi exposto a trabalhos braçais exaustivos. Ele vem de um família de oito irmãos. Todos eles começaram a trabalhar ainda crianças nas roças do sertão nordestino, por subsistência. No caso do ex-funcionário da USP, com 8 anos. Em 1966, deixou o Nordeste em direção às terras frias do Paraná, para uma longa trajetória nos cultivos de amendoim, soja, tabaco e outras culturas.

Francisco lembra que foram tempos difíceis, principalmente pela ausência de direitos trabalhistas. “A gente trabalhava e não tinha direito a nada. Só no Paraná eu fiquei mais de sete anos trabalhando sem registro. Se fosse contar tudo que trabalhei dava mais de 40 anos”, comenta. 

Já o filho Fábio, de 39 anos, trabalha como de auxiliar de comunicação do Hospital Universitário da USP desde 2001. Seu primeiro emprego com carteira assinada foi aos 15 anos, como office-boy. Antes disso, já fazia bicos como vendedor de picolé nas ruas do Jardim João XXIII, periferia da Zona Oeste de São Paulo, onde a família cresceu.

O início precoce no mundo do trabalho também não foi por opção: precisava ajudar financeiramente aos pais. O pai Francisco, trabalhando como pedreiro, e a mãe, como empregada doméstica, não tinham condições de oferecer a ele e ao irmão um acesso efetivo à necessidades materiais, como livros ou materiais escolares. 

A falta de estrutura, no entanto, não impediu o ingresso de Fábio em uma das instituições de ensino mais reconhecidas da América Latina. A formatura em Letras Português e Russo, na Universidade de São Paulo (USP), é celebrada não só por ser o local onde o pai construiu sua vida como trabalhador, mas por sua condição como jovem periférico e suas dificuldades no processo de formação.

“Eu não me via cursando faculdade. Estar em um ambiente acadêmico, isso sempre foi muito distante. Nós, inclusive, éramos motivados a não buscar isso. Me recordo da professora de Português falando que ia ter o vestibular da USP e dizendo que não era pra nós, falava pra sala pra gente nem se inscrever”, conta.

O ingresso como servidor da USP, em 2001, foi outra grande conquista da família. Após 18 anos de carteira assinada na instituição — mais os anos em que trabalhou como office-boy — Fábio acumula 21 anos e 6 meses de registro laboral. Ele teria que contribuir por mais 10 anos e 1 mês para se aposentar na regra atual. Com a reforma vem junto a preocupação: o tempo de trabalho aumenta para 15 anos e 1 mês de contribuição.

“O Bolsonaro ronda meus piores pesadelos. Ele não vai prejudicar só minha previdência, como [também] minha própria existência. Eu tenho medo, lógico. Eu estou ainda no mercado de trabalho, ainda me faltam alguns anos. O Bolsonaro representa o interesse dessa elite tacanha, atrasada, que quer esfolar o pobre e o trabalhador e sobretudo a nova geração que vai entrar no mercado de trabalho. A primeira geração da família que entrou na universidade e no mercado de trabalho, rompendo a logica do trabalho braçal mal remunerado. Essas pessoas hoje estão desalentadas”, lamenta.

Em luta

Com sete anos de idade, Fábio já ia com Francisco em mobilizações e greves dentro da USP, a mais relembrada, a greve histórica de 1987. O pai é orgulhoso de ter o filho junto como companhia nos atos políticos.

O ex-pedreiro carrega um histórico de participação em movimentos de greve e é uma referência nas lutas por melhores condições de trabalho na USP. Ainda hoje, visita a instituição, em especial, os colegas do Sindicato dos Trabalhadores da universidade. Mas, apesar da luta, Francisco teme pelos companheiros que ainda estão na ativa. 

“Se tivesse passado essa reforma [antes], eu acho que eu não conseguia aposentar. Tenho muitos colegas meus que acham que não vão se aposentar. Faltam só um ou dois anos e eles já tem uma idade avançada”. 

6 de May de 201921:53


Publicado Primeiro em Brasil de Fato

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