Um revolucionário ensina pelo testemunho

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Um revolucionário ensina pelo testemunho

Notas em torno do cap. IX – “Mestre de Vida” – do livro “Jesus, aproximação histórica”, de autoria do teólogo José Antonio Pagola

O cap. IX – “Mestre de Vida” descreve, analisa e reflete sobre mais uma marca identitária da figura de Jesus de Nazaré, um revolucionário que ensina, quase sempre à contracorrente, pelo exemplo de sua vida. Neste capítulo, o autor do livro começa sublinhando que Jesus, além de ter sido reconhecido como “Curador da vida”, “Poeta da Misericórdia”, “Amigo dos Últimos” e outras títulos, também se manifesta como “Mestre de Vida”, distinguindo-se profundamente dos guias de então, dos escribas e doutores da lei, à medida que não tratava de interpretar as centenas de preceitos da lei judaica, nem de referir-se a autoridades precedentes, mas aplicava-se em ensinar como quem tem autoridade. Autoridade que cuidava de cultivar por meio do que recolhia do Projeto do Pai, do Reino de Deus, uma proposta de profundo acolhimento e ternura para com os mais injustiçados, de todo tipo: as mulheres, os mendigos, os paralíticos, os surdos-mudos, os cegos, os marginalizados, os indesejáveis daquela sociedade. Destes Jesus fazia Sua grande prioridade: deles/delas se aproximou; curou-os, fez-se deles e delas acompanhar por onde andava, por aquelas aldeias da Galiléia; com eles/elas fazia refeição, compartilhava de suas alegrias, de suas tristezas, de seus sofrimentos, reacendendo neles e nelas as esperanças, graças à sua ação de compaixão, de ternura, chamando os sempre à conversão. Havia, porém, quem estranhasse sua atitude de tal proximidade com pessoas de má fama. Ele, então, responde: “Não são os sãos que precisam de médico, são os enfermos.” Jesus ensinava com gestos, palavras, testemunhos.

Sempre fiel ao Projeto do Reino de Deus, de cujos valores se alimentava pela sua comunhão com o Pai e pela inspiração do sopro divino, cuidava de testemunhar, por onde passava, fazendo bem, e seguido por homens e mulheres, em sua dinâmica de Missionário itinerante. Despontava como um guia que destoava, a olhos vistos, dos mestres convencionais do seu tempo – os doutores da lei, os escribas… Estes recolhiam sua autoridade dos textos sagrados, que bem manipulava, conforme suas conveniências. Esta era sua grande estratégia, que lhes permitia manter e ampliar seu prestígio e seu domínio sobre as consciências do povo de seu tempo. Em meio a uma população em sua grande maioria, desprovida dos códigos de leitura e escrita, tais mestres reinavam incólumes, à medida que monopolizavam os textos sagrados e sua respectiva interpretação, impondo centenas de preceitos e obrigações, um verdadeiro fardo para o cotidiano de sua gente, sem que eles fossem capazes de mover um só dedo para aliviar este fardo. Tratava-se de uma estrutura social e cultural que, privilegiando um pequeno percentual daquela população – grandes proprietários de terra, a casta sacerdotal, os beneficiários romanos e locais dos pesados imposto que faziam recair nos ombros dos “debaixo” -, mantendo e buscando perpetuar tal “status quo”.

É neste contexto que desponta um revolucionário desconcertante, sobre vários aspectos:

– Não hauria Sua autoridade do controle da lei, nem dos valores tradicionais então dominantes; em palavras, mas sobretudo em gestos, rompia com os fundamentos daquela tradição, à medida que exercitava sua solidariedade radical com os explorados, os oprimidos, os marginalizados de seu tempo, deles e delas se aproximando, fazendo com eles e elas refeições públicas, curando-os, dirigindo-lhes palavras que recaíam direto em seu coração e em sua mente, ao mesmo tempo em que cuidava de denunciar as graves injustiças daquela sociedade, apontando suas raízes econômicas, políticas e culturais, sem deixar de acusar os principais responsáveis (cf. Mt 23).

O autor do livro, como de hábito nos faz passear por uma série de fontes bíblicas (vétero-testamentárias e neotestamentárias), além de outras fontes históricas ou literárias, descrevendo e refletindo densos traços do perfil de Jesus.

Diferentemente da tradição vétero-testamentária, inclusive parte expressiva dos Salmos, que apresentava Deus como um vingador, como alguém que vinha para eliminar os opressores, Jesus, por seu lado, descrito como “Mestre” de vida, cheio de compaixão e de ternura à desapontar a raigadas expetativas de quem O imaginava um Messias vingador, empenhado em mudar o mundo pelo emprego da violência contra os maus, pela bala ou pela faca. Aqui, nos vem à lembrança um canto ainda hoje executado, por ocasião da Semana Santa, em várias comunidades: “eles queriam um grande Rei/que fosse forte e dominador/e por isso não creram nelE/e mataram o Salvador.”. Diferente deste perfil, Jesus se apresentava como um revolucionário movido pela compaixão e solidariedade com todos os que viviam sob o peso da opressão, da exploração e da marginalização, ao mesmo tempo em que demonstrava uma atitude de não se pagar o mal com o mal, no que trouxe surpresa e até decepção para muitos que O admirava, pois não entendiam como seguir a recomendação de Jesus, de se “amar os inimigos e rezar por eles”, recusando a proposta do “Mestre de vida”, de preferir tentar tocar o coração também dos maus, até porque, justamente por ser “Mestre de vida”, Jesus conhecia profundamente nossa condição humana, estava cônscio de que também nós, que nos julgamos “bons”, carregamos nossas maldades e nossas misérias, no sentir, no pensar e no agir, razão por que aos Seus discípulos e discípulas, de ontem e de hoje, Jesus advertia: “Não julguem, para não serem julgados”, enquanto no Pai Nosso, Ele nos ensina a orar: “Perdoai as nossas ofensas, como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.”

Este ensinamento de Jesus sacode o conjunto de Seus ouvintes, a começar pelos Seus discípulos mais próximos: como, assim, amar os inimigos, quando a Lei só nos mandava amar o próximo? Um escândalo! E não será o último. Outros virão. É o caso da estranha relativização que Jesus expressava, em gestos e palavras, em relação à rigidez do código de purificação, cegamente seguido pelos observadores da Lei. Há, com efeito, uma gama de episódios relatados nos textos evangélicos, a indicarem, da parte de Jesus, uma postura crítica, sob vários aspectos:

– Ora a relativizar os critérios de conduta então dominantes, e tendentes a absolutizar os códigos de purificação: não é o entra, mas o que sai do interior da pessoa, que caracteriza a sanidade do seu sentir, do seu pensar, do seu agir;

– ora a contestar a atitude daqueles que o acusam de andar com, e fazer-se rodear, inclusive em refeições, de gente de má fama: Jesus dá mostras evidentes de que, de um lado, são os enfermos que precisam de quem os cure, e, de outro lado, de que é Sua bondade que contagia os que O rodeiam, e não os malfeitos dos que Ele acolhe, com ternura e compaixão de Pastor, que O contaminam…;

– ora cuidando de desmascarar, com sua iracúndia profética, atitudes hipócritas.

A marca revolucionária inaugurada por Jesus, por outro lado, não se exaure em suas reprimendas contra toda ordem estabelecida de exploração, de dominação, de marginalização, mas sobretudo em Suas atitudes e palavras prenhes de alternatividade, reveladoras da Proposta do Reino de Deus e Sua justiça.  Daí as reiteradas passagens evangélicas em que faz questão de acentuar o que é DECISIVO, na Proposta do “Mestre de Vida”: o Amor, a Compaixão, tornados práticas efetivas, para bem além de palavras e discursos jogados ao vento. Com efeito, de que valeria o discurso doutrinário, elaborado com as mais refinadas técnicas da retórica ou dos sedutores procedimentos de “Marketing”, ante, por exemplo, o episódio de assalto enfrentado pelo samaritano, que, diferentemente da casta sacerdotal e dos homens da Lei, cuida de socorrer o ferido, com práticas efetivas, de quem são provas os cerca de 8 verbos utilizados no relato deste episódio.

Destacamos, neste capítulo, as atitudes revolucionárias de Jesus de Nazaré, mostradas em gestos, palavras e testemunhos desconcertantes, não apenas para a sociedade daquele tempo, mas também para as sociedades atuais, inclusive ao interno das Igrejas Cristãs, também estas tentadas a rejeitar os ensinamentos fundamentais do “Mestre de vida”…

João Pessoa, 19 de setembro de 2018.

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Alder Júlio Ferreira Calado19 de setembro de 201815:46Publicado primeiro em consciencia.net

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