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Novos desafios exigem adequação estratégica e tática das forças populares

Ricardo Gebrim |
Entender o significado da volta dos militares ao centro da política é um dos desafios da esquerda brasileira
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

No artigo anterior afirmei que os elementos determinantes da atual correlação de forças desfavorável para os interesses populares podem ser resumidos no seguinte binômio: unidade das principais frações burguesas em torno do programa neoliberal do governo e a paralisia do proletariado, determinada materialmente pela dimensão dos ataques e desorganização das formas de trabalho.

O bloco no poder é constituído pela unidade das várias frações, mas dirigido pelos setores da chamada burguesia associada, que é a mais interessada na aceleração de um programa que desmonta as bases nacionais de todo o ciclo virtuoso de nosso período desenvolvimentista (1930-1980).

O “movimento Bolsonarista” é a mera representação política desse bloco no poder. Uma representação extremamente útil, na medida em que segue tendo legitimidade, ainda que decrescente, mantendo capacidade de mobilização – convocando atos num estilo “neofascista”, impondo uma pauta conservadora diversionista que desvia atenções e permitindo a consecução do programa econômico que unifica as várias frações burguesas.

Agrego outros três desafios que exigirão uma adequação da estratégia e da tática das forças populares no atual período histórico aberto pelo golpe de 2016. São fatores que incidem na questão do poder e tendem a ter efeitos de maior duração em nosso processo político.

O primeiro é a entrada na máquina administrativa de oficiais superiores das Forças Armadas, especialmente do Exército, em cargos nos primeiros escalões. Imbuídos de legitimidade social por parcelas expressivas dos setores médios, o fato de retomarem a presença na máquina estatal não é uma questão simples em razão de nossa história recente. Embora certamente sigam existindo contradições no interior das Forças Armadas, há um visível núcleo duro que se vinculou ao governo e tem ganho legitimidade na corporação pelas conquistas que lhe oferece. É um grupo ideologicamente alinhado com os EUA, no grande confronto geopolítico internacional.

O segundo desafio é a entrada em cena, de forma articulada, de algumas importantes igrejas evangélicas neopentecostais que possuem uma capilaridade popular maior que as forças de esquerda somadas. São espaços de sociabilidade onde as pessoas podem falar sobre seus desejos e anseios. Cultivam laços de fraternidade e solidariedade e encontram soluções imediatas para o desemprego, alcoolismo, violência doméstica e outras mazelas sociais.

Assim como as irmandades muçulmanas nos países de maioria islâmica, são experientes na construção de redes assistenciais de proteção social e, ao controlarem postos chaves dos programas sociais, tendem a ampliar qualitativamente sua força política.

O terceiro são os efeitos estruturais das medidas do programa que implementam com tanta velocidade. Se concretizam esse programa, fecham as portas para uma experiência neodesenvolvimentista, como a dos governos petistas, que já havia deixado de contar com as ferramentas econômicas do ciclo desenvolvimentista de décadas anteriores, mas apostaram na expansão dos mercados internos de massa para assegurar o crescimento econômico, viabilizando, onde foi possível, alianças com frações da burguesia interna.

Além disso, temos os efeitos que somente serão reversíveis a longo prazo, como perda da soberania, da competição tecnológica e todos os demais impactos na educação, como o desmonte da capacidade de pesquisa das universidades e a extensão do analfabetismo funcional para o Ensino Médio.

Em traços simplificados, essa é a conjunção de forças que determina o atual momento e tende a ter importantes impactos históricos com duração imprevisível. Seus traços foram se definindo nos últimos dois anos e exigem a compreensão e uma consequente inflexão tática das forças de esquerda que não pode ser postergada.

Costuma ser previsível a hesitação ao enfrentar questões tão difíceis, tão radicais que se colocam com rapidez e muita força. E sabemos que a capacidade de discernir tendências gerais não implica a capacidade para prever seu resultado preciso em circunstâncias futuras desconhecidas.

Enfrentamos uma derrota de natureza estratégica – a causa determinante de nossa atual crise enquanto forças de esquerda. Identificar as dificuldades costuma ser angustiante, mas configura um inevitável primeiro passo para a superação.

Evidente que toda crise traz a súbita percepção a respeito de problemas e pressões que se acumularam durante muito tempo. Num primeiro momento ela nos traz a sensação de desafios que parecem insuperáveis. Nos paralisa.

O período que se seguiu ao golpe de 1964 também foi marcado por um intenso processo de discussão, que visava determinar as razões da derrota e as condições tanto políticas como organizativas da retomada da luta transformadora. Somente através do debate coletivo, sincero, ousado e profundo seremos capazes de encontrar os caminhos para superar desafios tão complexos.

Nos tempos difíceis que vivemos e que ainda nos aguardam é preciso manter a confiança na capacidade de nosso povo. A experiência histórica da luta de outros povos mostra que nenhuma derrota, por mais intensa, é capaz de interromper a luta de um povo disposto a tomar nas suas mãos o próprio destino. E nosso povo, que se conformou em meio a tantas adversidades, soube superar imensos desafios em sua construção, mantendo uma inarredável confiança no futuro.

Aos lutadores populares, incumbe compreender o atual momento, adequar sua tática, manter a persistência e, antes de tudo, sobreviver ao período difícil.

*Provérbio português

9 de October de 201912:08


Publicado Primeiro em Brasil de Fato

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